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O 25 de abril em várias perspetivas – IV, Paulo Martins, brasileiro, escritor, poeta, militante do PCdB, ex preso politico da ditadura militar brasileira

por Paulo Martins

UM CRAVO NA MÃO E UMA CANÇÃO NO PEITO

Em 1957 o então presidente estadonovista de Portugal, General Craveiro Lopes, fez uma visita triunfal ao Brasil. Mal imaginava que nos versos de um poeta de forte influência da literatura lusitana, germinaria a flor que colocaria por terra todo o ideário no qual se estribava e, aparentemente, sustentava a sua consagração na antiga colônia. Nem todos aclamaram a sua visita; os protestos foram muitos naquele Brasil que tentava ampliar a sua democracia através de uma nova liderança política representada pelo liberalismo democrático do presidente Juscelino Kubitschek. O mais significativo e simbólico deles aconteceu na voz do poeta Manuel Bandeira, que publicou este poema de dimensão histórica:

Craveiro, dá-me uma rosa!

Mas não qualquer, General!

Que eu quero, Craveiro, a rosa

Mais linda de Portugal!

Não me dês rosa de sal.

Não me dês rosa de azar.

Não me dês, Craveiro, rosa

Dos jardins de Salazar!

A Portugal mando um cravo.

Mas não qualquer, General!

Mando o cravo mais bonito

Da minha terra natal!

Publicado em seu livro Mafuá do Malungo, o poema logo passou a ser declamado Brasil e Portugal afora: em bares, salas de aula. academias e em praça pública. Mas o cravo de Bandeira precisou fazer longa travessia: correu terras e mares para aportar, finalmente, em Portugal, em abril de 1974. Por coincidência, era o mesmo da Revolução dos Cravos: o cravo da amizade, do amor e da fraternidade. Na legítima tradição iniciada por Carlos Drummond de Andrade em sua imortal obra A Rosa do Povo, este cravo, como a rosa de Drummond, nascia magicamente no meio da rua, rompendo o asfalto e germinando flores que se multiplicavam.

O cravo-símbolo cumpriria o seu papel. Mas a Revolução dos Cravos precisava, para dar legítima coloração aos valores que a consagraram como uma revolução pacífica ─ antes de ser armada ─ de outro símbolo que fosse tão forte quanto o primeiro. E ele nasceria também da poesia, da poesia popular, ou melhor, das vozes dos seresteiros que tomavam as ruas de Portugal para enchê-las não só de sons, mas, sobretudo, de liberdade.

Anos antes, no Chile, no começo de seu governo, Salvador Allende dissera: “não há revolução sem canções”. De fato, sua vitória eleitoral e a transformação socialista por que passou o país foram embaladas pelas canções de protesto de Victor Jara e de outros compositores e cantadores populares. E assim foi no mundo inteiro. A Bela Ciao italiana já havia dado o exemplo e se transformado num símbolo revolucionário universal.

Assim seria também com Portugal, que haveria de eleger a sua canção-guia, aquela que, na mais pura tradição de sua centenária cultura do fado, impulsionaria e uniria o povo na busca da vitória final, com seus ideais de democracia e liberdade: Grândola Vila-Morena, uma das mais belas canções do Victor Jara lusitano José Afonso. Então, ao lado de milhares de cravos vermelhos colorindo as ruas e as consciências, surgiram milhares de vozes entoando num coro uníssono:

Grândola, vila morena

Terra da fraternidade

O povo é quem mais ordena

Dentro de ti ó cidade…

Quando isso se deu, em 25 de abril de 1974, onde estava eu?

O Brasil vivia em plena ditadura militar, que desde os tempos de Salazar mantInha estreitos laços com o fascismo português. A resistência perdera espaço no terreno da luta armada, mas ganhava espaço no terreno da luta política legal e democrática. Quarenta dias antes, o quarto ditador da histórica série de generais tinha tomado posse para um mandato de quatro anos: Ernesto Geisel sucedia a Garrastazu Médici, considerado o mais sanguinário deles. A ascensão de um novo general, mesmo tido como propenso à abertura política gradativa, não era em nada animadora, pois deixava claro, de qualquer forma, que teríamos pelo menos mais quatro anos de opressão pela frente.

Dois meses antes, eu fora convocado a me apresentar em São Paulo para prestar depoimento no Doi-Codi (Destacamento de Operações de Informação ─ Centro de Operações de Defesa Interna) do II Exército, na sinistra Rua Tutoia. Lá não fosse, seria conduzido à força. Apresentei-me e fiquei preso durante uma semana, vendo os prisioneiros políticos serem massacrados pelos esbirros da repressão. Essa prisão era o desdobramento de outra, que eu tinha amargado alguns meses antes. Realmente, no começo de outubro de 1973, um mês depois da derrubada de Allende, no Chile, fui sequestrado em plena rua, em Salvador, e levado para a sede da Polícia Federal, sendo posteriormente transferido para o Quartel do Barbalho, sede do Doi-Codi da IV Região Militar e, dias depois, para o Comando do IV Exército, em Recife, o principal centro de tortura no Nordeste do país. Se saí vivo daquele antro sinistro, 40 dias depois, foi por muita sorte, pois diante das terríveis torturas chegara a tentar o suicídio, cortando o pulso da mão esquerda.

Os órgãos repressores eram totalmente livres para prender quem quisesse, matando e “desaparecendo” impunemente com os corpos dos que lhes conviessem. Alguns de seus esbirros tinham sido adestrados nos porões da famigerada PIDE. Por que escapei?

Eu estava um tanto afastado da atividade política, por motivos de saúde e a repressão nada encontrou que me ligasse a qualquer organização clandestina da resistência. Além disso, minha pena de 2,5 anos, decorrente de um processo anterior relacionado a outra prisão, em 1968, estava prescrita. Sem conseguirem de mim nada que lhes fosse útil, resolveram me soltar, maltrapilho e doente, numa rua de Recife, cidade que nem sequer conhecia.

De sorte que, no dia 25 de abril de 1974, eu estava em plena recuperação do trauma dessas duas prisões, cujas sequelas foram desastrosas para minha vida posterior: uma surdez severa e incurável no ouvido direito ─ que se estendeu, com o tempo, para o esquerdo ─ e uma Síndrome de Ménière que me perseguiu anos a fio, com vertigens e tonturas que muitas vezes me deixavam incapacitado para o trabalho. A notícia da queda do governo salazarista de Marcelo Caetano, defenestrado pelas forças armadas patrióticas e o povo português, chegou como um verdadeiro alento para mim. Era um tapa na cara de ditadura brasileira, que daí para frente não tinha onde se apoiar do lado de cá do mundo diante do processo de democratização que cresceu em toda a Europa, atingindo particularmente a Espanha franquista e a Grécia dos coronéis, cujos regimes fascistas também ruíram. Por isso, penso que a Revolução dos Cravos deve ter contribuído, de alguma forma, para diminuir a duração da ditadura brasileira e, em muitos aspetos ─ disso estou convicto ─ para abrandar o sofrimento dos revolucionários, que puderam emergir aos poucos da clandestinidade.

Antes dessas prisões eu tinha comprado um long play de música portuguesa, com várias canções interpretadas por Amália Rodrigues e outros fadistas. Dentre elas, lá estava Grândola Vila-Morena, do grande José Afonso, que se tornou, tempos depois, num dos ícones inesquecíveis em minhas cantorias, em casa ou pelos botecos de Salvador. Eu e minha mulher a ouvíamos com muita paixão, enquanto embalávamos nossa filha recém-nascida e acompanhávamos o desenrolar das transformações políticas, econômicas e sociais no país amigo. Quanto isso nos confortava, diante do quadro de horrores que se descortinava nos países do Cone Sul da América Latina! Dizíamos sempre que nem tudo estava perdido!

Passou-se quase meio século e estou certo de que Portugal não renegou os ideais da Revolução dos Cravos, embora muito falte ainda para realizá-lo plenamente. De lá para cá, este será o terceiro 25 de abril que passo por aqui.

No primeiro, em 2013, vivi uma experiência extraordinária: o 34º aniversário da Revolução dos Cravos teve uma comemoração como poucas vezes se vê em eventos do tipo mundo afora. A participação popular foi intensa. Associações de massa, sindicatos, grêmios estudantis e caravanas do interior desfilaram pela Avenida da Liberdade levantando cartazes, saudações revolucionárias e patrióticas e suas reivindicações, seus protestos e indignações diante de metas ainda inatingidas pelo movimento. A novidade estava numa frase emblemática, expressa de diversas formas:

“QUEREMOS UM NOVO 25 DE ABRIL!”

Isto é, reivindicava-se uma nova revolução! Na verdade, o que queriam dizer é que a revolução não podia parar, tinha de prosseguir rumo a seus objetivos maiores, muitas vezes escamoteados por políticos demagógicos, reacionários e conservadores. Sem dúvida, tal espírito decorria, em parte, da difícil situação econômica que o país atravessava na época, reflexo da crise capitalista global de 2008, com uma alta taxa de desemprego, pobreza, endividamento estratosférico e grande déficit público. Como situações assim são propícias à ascensão da direita e de seus valores fascistas, havia uma bandeira tremulando mais forte:

“FASCISMO NUNCA MAIS!”

As forças democráticas fizeram, então, um enorme esforço de recuperação do país, que domou a crise e a vem debelando até o presente momento, com êxitos consideráveis.

Meu segundo 25 de abril foi em 2019, quando aqui cheguei para uma temporada mais longa, sem data de retorno. O dia chuvoso não nos intimidou: eu, minha companheira Tânia Miranda e o escritor brasileiro Roniwalter Jatobá, em trânsito pela cidade, nos unimos às manifestações, muitas delas paralelas e espontâneas em relação ao desfile principal. O espírito da Revolução dos Cravos continuava de pé, embora aquela comemoração não tivesse a mesma força daquela de 2013. De qualquer forma, compramos muitos cravos vermelhos, colocamos na lapela ou no casquete e saímos por aí, distribuindo cravos e cantando Grândola, Vila-Morena.

Este ano atravessamos uma situação excecional. Seria errado, a meu ver, defender o modelo de 2013, devido à pandemia do coronavírus. Mas as novas gerações não podem prescindir da memória histórica. Precisam estudar e participar criticamente da discussão da história de seu país. A chama deve continuar acesa.

Sei que há divergências quanto às comemorações. É natural. A situação é nova. Que haja criatividade das lideranças políticas sérias, do próprio governo e do povo português, para dar a esse novo 25 de abril um desenlace à altura. A batalha contra a pandemia está sendo ganha de forma correta, com o sacrifício e a consciência de todos, e isso já é motivo para comemorar, por ser mais um passo nesse processo. Não importa o que se decida: estarei presente, com um cravo vermelho na mão e uma canção no peito. Que cada janela do país amanheça com um cartaz ou uma faixa e Grândola Vila-Morena ecoe pelas redes televisivas e sociais:

VIVA O 25 DE ABRIL!

FASCISMO NUNCA MAIS 

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