Home Brasil A talibanização evangélica

A talibanização evangélica

por Jorge Pinheiro

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!

Desce mais … inda mais… não pode olhar humano

Como o teu mergulhar no brigue voador!

Mas que vejo eu aí… Que quadro d’amarguras!

É canto funeral! … Que tétricas figuras! …

Que cena infame e vil… Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

(O navio negreiro, Castro Alves)

Três questões devem ser levadas em conta pelo mundo protestante quando falamos de direita e esquerda no Brasil. E é sobre essas questões que eu gostaria de conversar com o leitor. A primeira delas, é que as eleições numa democracia e dentro da alta modernidade têm um caráter de polaridade: tem importância, mas essa importância é relativa.

É de  alta importância para o mundo protestante, no sentido que envolve as comunidades e os fiéis nas questões cidadãs. É um momento de pensar o país enquanto projeto, analisar necessidades e possibilidades de transformações. Mas, também é de importância relativa, porque os poderes da democracia já estão estabelecidos. Normalmente pensamos três poderes, executivo, legislativo e judiciário. Mas estas são instituições clássicas, nascidas com a revolução burguesa. De fato, os poderes da democracia estão presentes a partir do domínio de classe e das forças que sugiram em oposição a esse domínio. Assim, podemos falar dos poderes expressos através das associações de classe e interesses da burguesia, e também, por oposição, dos poderes ligados ao mundo do trabalho. Ou seja, quando votamos para os poderes executivo e legislativo, não tocamos necessariamente nos outros poderes e nem mesmo nas relações estruturais entre capital e trabalho, que definem aquilo que o regime é: burguês, capitalista, democrático.

Essa compreensão é fundamental para evitar a ideologia do paraíso construído aqui a partir da presença evangélica no poder. E de que com as eleições os evangélicos podem mudar estruturalmente o país. Nada mais falso, os poderes e suas instituições estarão presentes e atuantes, direcionando o país num sentido em parte definido pelo movimento de interesses internacionais e nacionais, que se pautam por um projeto imperial globalizado.

Mas, infelizmente, a ideologia dos três B – boi, bala e Bíblia – prevaleceu e hoje rege o pensamento ultra-conservador dos evangélicos. Ou, os setores da pecuária exportadora, das milícias, militares e forças armadas, e dos evangélicos dos grandes conglomerados da fé dão o tom dessa nova aliança. Esses grupos são próximos ideologicamente e dialogam diretamente com a maior parte dos eleitores do atual presidente.

Alias, o jornal Le Monde (13/05/2019) assim descrevia a principal igreja evangélica brasileira: “A Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) é um complexo que envolve um império midiático não voltado apenas à propagação de seus preceitos religiosos e morais e ao proselitismo, mas também como a expressão do crescimento extraordinário evangélico no Brasil, em especial o do neo-pentecostalismo, cujo cerne está na teologia da prosperidade e da saúde”.

E o artigo do jornal francês dizia que os evangélicos neo-pentecostais são uma ameaça à laicidade. E que a Iurd é uma igreja-empresa, cujo poderio se espraiou nas periferias brasileiras e chegou à esfera pública, à política institucionalizada, por meio da eleição de pastores e de adeptos que a representam no Congresso Nacional e em municípios e estados brasileiros.

Assim, o elevado número de adeptos e o império midiático da Iurd, ao lado da Assembleia de Deus, a mais antiga igreja pentecostal brasileira construíram um espaço para recrutar eleitores e ampliar a imagem dos candidatos, aí incluído o atual presidente do país, que delas se aproximam e possibilitam a manutenção e ampliação desse poderio.

Apesar dessa ofensiva ultra-conservadora, os evangélicos brasileiros devem levar em conta que o regime político brasileiro ainda é democrático e, apesar de tudo, laico. Isso significa que o regime não é religioso. Donde a oposição das comunidades de tradição democrática e das religiões não-cristãs a essa momentânea hegemonia ultra-conservadora.

Os valores de democracia burguesa – cidadania, democracia e liberdade – que herdamos a partir da Revolução francesa devem ser levados em conta. É preciso que a sociedade, sem se tornar refém das correntes neo-pentecostais, possibilite a plena expressão das diferentes maneiras de crer que estão presentes no Brasil. E, ao mesmo tempo, se num Estado laico, nem católicos, nem evangélicos devem intervir na máquina do Estado, devem, sem dúvida, ter direito à existência.

Mas vejamos mais uma questão: em termos sociológicos, o relacionamento entre religião e estado pode se dar de três formas, por fusão, por união e por separação. Um estado laico é leigo, neutro e separado da religião.

O termo laico remete a uma atitude crítica diante da interferência das religiões na vida pública da sociedade. Assim, a laicidade do estado é condição indispensável para a existência da democracia. Sem o respeito às crenças, às descrenças e à ausência de crenças, de neutralidade confessional, é impossível ao estado assegurar democracia religiosa e, inclusive, social. As teocracias, assim como as militâncias fundamentalistas, sejam elas cristãs, de expressões religiosas não-cristãs ou de descrença, na alta modernidade de caos e crise, ameaçam o respeito ao outro e geram discriminação e ódio.

A grande crítica da intelectualidade brasileira, hoje, se situa no campo religioso. Mas não é somente a intelectualidade brasileira que se preocupa hoje com a religião no Brasil. Em matéria antiga, publicada em 2004, a revista Nouvel Observateur falava dos evangélicos como a seita que quer conquistar o mundo. E a direita francesa, no site Paroles de France, dizia que o evangelicalismo é um fantasma que ameaça o mundo, fruto do envenenamento do fanatismo e da intolerância.

E esse temor procede, pois os evangélicos são hoje trinta por cento da população brasileira, cerca de sessenta milhões de brasileiros. É certo que nem todos são ultra-conservadores e apoiadores do atual governo. Mas, segundo artigo de Jean-Jacques Fontaine (Brésil, le business des églises évangélistes, Le Petit Journal, 9/07/2010), as igrejas evangélicas não estão apenas onipresentes nos bairros populares das grandes cidades, mas investem pesado na mídia, especialmente rádio e televisão, que são as principais fontes de informação dos brasileiros pobres. A estimativa trabalhada por Fontaine é de que 60% das estações de rádio e televisão estão direta ou indiretamente controladas pelos evangélicos.

“Senhor Deus dos desgraçados!

Dizei-me vós, Senhor Deus!

Se é loucura… se é verdade

Tanto horror perante os céus?!

Ó mar, por que não apagas

Co’a esponja de tuas vagas

De teu manto este borrão?…

Astros! noites! tempestades!

Rolai das imensidades!

Varrei os mares, tufão!”

Por isso,Fontaine se perguntou se o Brasil não está vivendo um processo de talibanização da sociedade. E expõe seus motivos para pensar assim: o destino do dinheiro arrecadado pelos pastores não é nada transparente: existe uma disparada na construção de templos. Mas isso é o que se vê, embora se saiba que o dinheiro vai para enriquecimento pessoal e financiamento de campanhas políticas.

Por isso, talibanização evangélica significa que o poder católico deu lugar às empresas da fé, ultra-conservadoras, monopolistas e neoliberais, que se impõem através de um marketing agressivo de presença constante, a fim de reverter relações sociais e culpabilizar aqueles cujos comportamentos não seguem suas leituras.

Mas por que isso funciona? pergunta Fontaine. Porque o discurso dos pastores se baseia na lógica do dinheiro. Não há nenhuma preocupação com o céu, a recompensa tem que ser tangível. A mensagem é pós-moderna, pragmática e refere-se ao mundo dos negócios. E ele conta que um pastor, em seu programa de televisão, argumentou que “tudo que você tem será comido pela crise do mundo. Precisamos salvar a sua propriedade, removendo-a do banco e deixá-la nas mãos de Deus”.

Fontaine acredita que os evangélicos não se ofendem com a utilização de seu dinheiro para fins políticos. Assim a intelectualidade olha e vê evangélicos corruptos, votos mercadejados no púlpito, exposição em nada cristã da fé, lobos travestidos de cordeiros.

Talvez tal leitura seja exagerada e eu me pergunto: que relação existe entre a decadência ética de lideranças evangélicas e o espírito crítico e transformador do protestantismo? Sem dúvida, é necessária uma reflexão sobre o que significa essa crise ética enquanto desafio para os protestantes brasileiros.

E falar dessa alienação, em primeiro lugar, significa dizer que precisamos ir em direção a outro momento, que para o bem da fé e do país deve ser de qualidade superior, mas nunca igual. O presente não é uma unidade estática, é sempre parte de uma situação mais geral, e está enquadrado no caminhar de um processo. Por isso, disse o profeta Miqueias, “o eterno já nos mostrou o que é bom, ele já disse o que exige de nós. O que ele quer é que façamos o que é direito, amemos uns aos outros com dedicação e vivamos em humilde obediência ao nosso Deus” (6.8).

Para o protestante existe uma tensão permanente diante do passado. Sempre nos referimos a ele como exemplo do bom e do mal. Mas devemos ter a consciência de que o passado não é alvo, é inacessível aqui e agora. Os exemplos de antes não se repetem e quando paramos lá atrás, ficamos debilitados política e socialmente. Quando os protestantes fogem para as origens, não oferecem nenhuma opção ao que está aí. Acabam por apresentar uma fé mitigada, desprovida de tensão, ficam sem responsabilidade efetiva. Este protestantismo mitigado é o perigo que ameaça. É o adversário maior do cristianismo.

Leituras conservadoras e leituras progressistas estão entrelaçadas na consciência do movimento protestante e isso é natural, pois nascem das necessidades políticas e sociais que  pedem transformação. Esse entrelaçamento pode levar a um terceiro caminho, que é fruto da urgência de um momento de verdade e justiça, tanto interno às comunidades, como externo, dirigido à sociedade. Sem a busca do sentido de justiça não há protesto, nem crítica radical. Os protestantes, se compreendem a fé que levantam, devem responder às necessidades e transformar o tempo, mas também lembrar que aquilo que é novo, que chega sem pedir licença, abala o próprio tempo e tudo que está nele.

Mas a ideia de que a situação presente de alienação ética e social nos coloca necessidades e pede transformação nasce da compreensão do sentido da justiça. Necessidades e transformação clamam pela irrupção de criatividade e novidade nesse tempo de crise. Mas, se criatividade e novidade respondem às necessidades e transformam o tempo concreto, é preciso ter consciência de que não existe um estado de perfeição no tempo, a consciência de que o ideal e perfeito nunca se fixam num presente eterno.

Assim, toda mudança, toda transformação, exige uma compreensão do momento vivido que vá além do meramente histórico, do aqui e agora. Deve projetar-se no futuro, deve entender que há na busca permanente da justiça um choque entre necessidades e transformação, criatividade e novidade. Tal desafio não pode ser resolvido por uma pessoa, por mais evangélica que seja. O sujeito da transformação será, em última instância, o sujeito social, as massas em mobilização, e aí entram as comunidades de fé. Parece chavão, mas não é, afinal uma andorinha só não faz verão.

O protestantismo tem que ser radical, assim como a intelectualidade protestante têm  importante papel a cumprir, além de qualquer esquerda e direita: serem ação e voz críticas para que o sonho do profeta Amós, que “o juízo corra como as águas e a justiça como ribeiro perene“, aconteça no presente concreto brasileiro.

E aí voltamos à laicidade. Ao poder temporal da igreja sobre o estado chamamos clericalismo. E, a partir daí, podemos dizer que não existe anti-clericalismo onde antes não existiu clericalismo. Por isso, a teocracia é a negação da democracia. E não vamos esquecer que a Constituição brasileira de 1824 estabelecia três vetores em relação à questão religiosa: (1) o catolicismo era a religião oficial do império; (2) a permanência da igreja católica na condição de religião do império, apesar de admitir o culto particular de outras religiões, desde que em casas sem forma exterior de templo; e (3) a permissão da elegibilidade para o Congresso apenas daquelas pessoas que professassem o catolicismo.

Essa hegemonia foi superada, ao menos no texto, com a chegada da República. Dessa maneira, o Brasil é um estado laico desde a edição do Decreto 119-A, de 17 de janeiro de 1890, que instaurou a separação entre a igreja e o estado. É uma vitória cidadã e democrática. Quebrar essa conquista é retrocesso que em última instância não favorecerá grupo algum. Exemplo disso foram as guerras de religião entre católicos e protestantes na França e a violência dos conflitos étnicos religiosos na Iugoslávia.

Fatalidade atroz que a mente esmaga!

Extingue nesta hora o brigue imundo

O trilho que Colombo abriu nas vagas,

Como um íris no pélago profundo!

Mas é infâmia demais! …

Da etérea plaga

Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!

Andrada! arranca esse pendão dos ares!

Colombo! fecha a porta dos teus mares!

(O navio negreiro, Castro Alves

No Brasil democrático e laico, os protestantes devem defender convicções e agir em nome próprio, como cidadãos, e não necessariamente como representantes de instituições religiosas. Devem se associar livremente como qualquer grupo organizado da sociedade para expor e propagar maneiras de ver e viver. A influência das comunidades protestantes pode ser muito positiva para a sociedade. A exposição de valores como a ética cristã, a solidariedade e a luta por melhor distribuição de oportunidades e possibilidades podem fazer diferença na construção do futuro da nação.

Se compreendermos que a democracia e a laicidade não são inimigas das crenças particulares, vamos entender que os protestantes têm o direito de exercer sua cidadania e se manifestar sobre aqueles temas que geram discussão e polêmica. E as pautas de discussão somos nós que as geramos. As questões éticas em tempos de crise têm importância especial. Mas essas questões não podem ser encaradas apenas como questões religiosas, estritamente nossas, fechadas nas quatro paredes das comunidades. Nosso protestantismo deve, permanentemente, abastecer a ética e influenciar nas decisões do país.

Mas não podemos esquecer o desafio da globalidade. Estamos diante de um sistema imperial de domínio, novo na história da humanidade, um domínio que não pode ser encarado como totalidade que favorece a todos, nem como totalidade que prejudica a todos. Apresenta categorias dialéticas que regulam seu processo de existência e expansão.

Vemos também que essa existência e expansão sofre uma oposição crescente, não somente política, mas também religiosa. E as oposições religiosas – tanto cristãs como não-cristãs – se levantam contra o domínio globalizante porque ele é concretamente destruidor da fé e um produtor de vítimas, que são todos aqueles excluídos dos acontecimentos da globalização.

Assim, a comunidade de fé se vê envolvida e confrontada por este domínio, porque ele, ao impossibilitar a produção e reprodução da vida, coloca a questão de outra globalidade, proposta pelo Cristo de todos, que não se construa a partir da semeadura da fome, do terror e da morte.

Cabe ao cristão levantar, então, a ética da vida enquanto recurso diante de uma humanidade em perigo. Ao cristão cabe a corresponsabilidade solidária, que parte do critério de verdade vida versus morte. Sem dúvida, o cristão está desafiado a caminhar com dignidade na fronteira entre os abismos da cínica irresponsabilidade ética diante das vítimas e a paranoia fundamentalista. E esse é um tema para todos os espaços. É política cristã que deve escorrer também para os valados da política partidária.

_________________________________________________________________________________

(*) Jorge Pinheiro PhD é jornalista e cientista da religião.

0 comentário
0

RECOMENDAMOS

Comente

* Ao utilizar este formulário, você concorda com o armazenamento e gestão de seus dados por este site.