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Memórias de uma borboleta

por Paloma Pinheiro

Ensaio sobre confinamento e transformação.

O que significa ser borboleta? Me pergunto.

A primeira coisa que me vem em mente é que uma borboleta jamais se perguntaria isso. Mas uma lagarta, posso garantir que sim.

Certo é, que para ser borboleta é preciso antes ter sido lagarta.

O que implica ser lagarta, então?

Já troquei de pele muitíssimas vezes. Mas agora se aproxima o passo mais significativo da minha evolução, e de minhas colegas lagartas também.

Carregamos certo grau de cansaço, e o arrastamos até a emergência da transformação. Na minha condição de lagarta, o que me define é a intrínseca necessidade de mudar.

Já devorei todas as folhas que me serviram como caminho, agora me cabe digerí-las.

Com respeito a minhas qualidades desaceleradas, tomo o tempo como companheiro nesse processo longo no qual estou mergulhando. O ponto inicial da trama que vou tecendo ao meu redor é exatamente a pergunta:

Quem sou eu?

Ainda sem ter a resposta, começo a acolher-me num abraço. Ao costurar meu casulo, estou costurando um sonho. E não há sonho sem inquietação.

A angústia do confinamento não está em isolar-se do mundo, porque toda lagarta sabe que em breve o mundo lhe pertencerá. A angústia reside na despedida do ser antigo, que é uma consequência inevitável da intimidade profunda consigo mesmo.

Portanto, o confinamento, ou o ato de encasular-me é um abraço apertado entre meu sonho alado e o que já não quer existir em mim.

Eu sou esse abraço! No silêncio padece a minha dor, vivo o luto do passado na quietude. Minha história adormece. Tudo o que acredito ser até este momento, adormece.

Entro num sono profundo até finalmente esquecer-me lagarta.

E é então que começam a brotar meus primeiros raios de asas. Minhas asas crescem tanto e com tanta vontade de abraçar agora o mundo, que rompem sem piedade a casca que justo no instante anterior delineava minha pequenez diante da imensidão da vida.

A leveza me surpreende e me convida a alçar voo. Já podem chamar-me borboleta.

Bato asas para abraçar o mundo, porque antes aprendi a abraçar-me. Afinal, o mundo e eu somos a mesma coisa.

Paloma Pinheiro

é psicóloga, escritora e mãe. O olhar poético e a escrita a acompanham desde a infância. Se formou como psicóloga em 2009 pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. Se especializou em psicoterapia corporal pelo Núcleo de Psicoterapia Reichiana, no Rio de Janeiro. Em 2012 se mudou para Barcelona, na Espanha, onde vive atualmente. Em 2016 publicou seu primeiro livro independente de poesia autoral “Alcachofra: Esboço de um despetalar”, no qual propõe um percurso em direção à parte mais fosca, porém mais essencial da existência.

É mãe da Liz e do Théo.

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