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Diretor da OMS responde a Bolsonaro:

por Joffre Justino

“em muitos países, as UTIs estão lotadas e a Covid-19 é uma doença muito séria”.

Tedros Adhanom Ghebreyesus

Interrogado por Jamil Chade, da UOL, Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS rebateu os argumentos de Jair Bolsonaro que tentam minimizar a importância da pandemia de coronavírus

O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, respondeu a Jair Bolsonaro, que insiste em minimizar os efeitos e capacidade da pandemia de coronavírus, tendo insistido em tal  nesta terça-feira, 24.

“Em muitos países, as UTIs estão lotadas e essa é uma doença muito séria”, disse Ghebreyesus à coluna de Jamil Chade, no UOL.

Antes da intervenção do diretor-geral da OMS, também o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, pediu que governos em todo o mundo entendam que a ameaça é para “toda a humanidade”.

O tom usado pelo presidente Jair Bolsonaro ao dirigir-se ao país na noite de terça-feira sobre o coronavírus deixou muitas entidades internacionais perplexas e preocupadas com o destino de milhares de pessoas.

Bolsonaro colocou em xeque o distanciamento social e o fechamento de escolas. Mas, acima de tudo, deu a impressão de que a doença apenas atinge os mais velhos, algo que a OMS tem alertado que não é o caso..

Para a OMS, o momento é de focar as ações dos governos em “salvar vidas” e o chefe da agência voltou a insistir que o “vírus é muito perigoso” e que mais de 16 mil pessoas já morreram. “Já falamos disso há mais de 2 meses. Esse é o inimigo público número 1”, disse. “E dissemos que a janela estava fechando. O tempo de agir era há um mês. Mas temos uma segunda chance (com as quarentenas)”, disse.

“Há uma segunda oportunidade, que não podemos desperdiçar. E fazer tudo para controlar o vírus”, insistiu. “A responsabilidade é de todos, especialmente a liderança política é chave”.

“O governo inteiro deve estar envolvido. O vírus não vai ser parado apenas pelo setor de saúde. Todos os lados devem estar envolvidos”.

Michael Ryan, chefe de operações da OMS, indicou que confia que todos os governos tomem as medidas apropriadas e indicou que os riscos para a saúde pública são “reais”. Ele reconheceu que entende os dilemas que os países em desenvolvimento enfrentam. “Mas precisamos focar primeiro em parar a doença e salvar vidas”, disse.

“Temos uma janela curta. O que governos façam ontem, hoje e amanhã vão ser decisivos”, afirmou Ryan. Para a OMS, a quarentena estabelecida pela China de certa forma funcionou e só agora estão retirando as restrições.

Anotemos mais uma vez que Tedros indicou que as medidas de distanciamento social são “importantes”. Mas, por si só, elas não resolvem. Para ele, governos precisam pensar o que vão fazer durante o período de confinamento de cidadãos.

“Superamos muitas pandemias e crises antes. Vamos superar essa também. A questão é qual o preço que vamos pagar. Já perdemos 16 mil vidas. Vamos perder mais. Tudo vai depender das decisões que tomamos”, disse Tedros.

Segundo ele, as quarentenas servem para desacelerar o ritmo da doença e vêm com custos “sem precedentes” para a sociedade e economia. Mas, acima de tudo para comprar tempo e reduzir a pressão sobre os sistemas de saúde.

Para a OMS, seis medidas precisam ocorrer enquanto a quarentena está em vigor, como a expansão e a formação dos profissionais dos sistemas de saúde, o criar um sistema capaz de encontrar todos os casos suspeitos, o aumentar a produção de testes, o identificar locais para isolar pacientes, o desenvolver um plano para rastrear pessoas com contato com doentes e o focar a atenção inteira do governo.

Central também  é  a confiança entre os principais atores da comunidade. “Isso vale para todos. Em alguns países, os casos surgiram e o sistema não estava pronto”, lembrou. “Precisamos ser muito sérios neste momento”, afirmou.

“O objetivo é garantir ações para salvar vidas”, disse Tedros, que pediu que as medidas sejam agressivas. “Essa é uma segunda janela de oportunidade. A questão é como usa-la”, disse.

Há poucas semanas, Tedros chegou a dizer que vender tal percepção de que se trata de um doença que mata apenas idosos – mesmo que fosse verdade – representa a “falência moral” da sociedade e este responsável africano foi enfático: “jovens: vocês não são invencíveis” e uma das diretoras técnicas da OMS, Maria van Kerkhove, reforçou  esta ideia de que crianças também são “vulneráveis” e que casos sérios foram registrados entre jovens.

Para fontes nos organismos internacionais, o discurso de Bolsonaro é “perigoso”, já que incita os mais jovens a desrespeitar medidas de distanciamento social e cuidados básicos.

Mas é o tom de Bolsonaro minimizando a doença – a chamando de histeria e “gripezinha” – que gerou enorme preocupação entre os técnicos internacionais nesta quarta-feira.

A OMS recebeu entretanto nesta quarta-feira uma denúncia apresentada pela bancada do PSOL na Câmara dos Deputados contra Bolsonaro. O grupo de deputados já havia levado a queixa contra o governo às entidades internacionais há cerca de dez dias e a nova denúncia deve ser anexada à queixa inicial.

Em uma carta enviada ao diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, e ao Relator Especial da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o direito a saúde, Dainius Puras, os parlamentares pedem ajuda internacional para cobrar respostas do governo brasileiro e que a atitude do presidente seja desautorizada publicamente.

O texto é assinado por deputadas como Fernanda Melchionna, Luiza Erundina, Glauber Braga, David Miranda, Ivan Valente e Marcelo Freixo.

“Enquanto governadores e autoridades locais estão implementando medidas para impedir a disseminação do vírus, o Sr. Bolsonaro decidiu atacá-los, argumentando que eles prejudicariam a economia. 

Uma cópia do discurso original em português e uma tradução em inglês foi submetida a Tedros e ao relator da ONU.

“No seu discurso de ontem, o Sr. Bolsonaro apelou literalmente à população para voltar às suas vidas normais em prol da economia e questionou a gravidade da pandemia do coronavírus, sugerindo que o isolamento deveria acontecer apenas para as pessoas mais velhas. Ele também usou o seu discurso para acusar, mais uma vez, a imprensa brasileira e as autoridades locais de disseminar o pavor e a histeria”.

“É incerto porque o Sr. Bolsonaro está desafiando a ciência, as autoridades sanitárias e toda a comunidade internacional desta forma. No entanto, é certo que a forma como ele quer conduzir o país através desta pandemia ameaça milhões de vidas brasileiras e o esforço internacional para deter este vírus”, alertaram os deputados.

Os deputados querem que a OMS e o relator da ONU exijam “explicações da Missão Permanente do Brasil junto à ONU em Genebra e do Ministério da Saúde do Brasil”, e que desaprovem publicamente as ações e declarações do presidente.

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