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Não Há Machado que Corte A Raiz ao Pensamento

por Carlos Fragateiro

Neste dia, o dos meus anos, tenho por hábito fazer um balanço do que se passou e enumerar os desejos e as promessas de mudanças neste ano que começa. E este é mesmo um ano de mudança, o significado da idade leva-nos de volta às origens, ao ventre materno, e não é por acaso que regressei às origens, a Trás-os-Montes e Alto Douro.

Longe de Lisboa quero perceber o que podem e devem ser a Cultura e Conhecimento como áreas de afirmação e descoberta de cada um, dos seus talentos, e da nossa capacidade para percebermos a complexidade do mundo em que vivemos. Uma complexidade que obriga a desenvolver outras capacidades, que obriga a sermos capazes de ler o mundo não só com uma perspetiva multidisciplinar, mas também multilocal, a capacidade de cruzar as leituras multidisciplinares de cada parte do mundo.

Como disse o Miguel Torga, de cuja casa estou muito perto, o Universal é o local menos os muros, e por isso esta língua única que é a nossa irá ser a minha companheira para perceber o local e o universal, e intervir neles nos próximos anos. Longe de Lisboa, nas margens ou no interior desertificado, tentando mostrar o potencial de riqueza que há por estas zonas únicas.

Depois de 12 anos intensos entre o Teatro da Trindade e o D. Maria II, e de 12 anos um pouco a perceber o que se fez e o seu sentido, entro agora num tempo outro, o tempo onde o local, o regional e o global vão ser ligados por este instrumento que é o suporte do Pensamento, sem o qual não há Liberdade – a Língua Portuguesa. E escolhi esta foto, de 2008, da conferência de imprensa que tive de dar em frente ao Teatro Nacional, o então Ministro e Democrata de Eleição, José António Pinto Ribeiro, tinha ameaçado chamar a polícia se eu falasse aos jornalistas no interior do teatro.

A conferência fez-se no Rossio e no Palácio da Independência, e foi única. E refiro este momento pois todo o processo que começou nessa altura tem sido uma saga única que me obrigou a chegar ao Supremo para ter acesso ao processo que levou à minha exoneração, e qual foi o meu espanto ao perceber que no Ministério da Cultura não havia um único documento que a justificasse, e ainda estou à espera que o processo que está no Tribunal Administrativo ainda espera, após 11 anos, ser julgado.

Não foi por acaso que quando estava no banco dos arguidos pela acusação de ter manchado a honra do diretor da PIDE, um processo posto pelos sobrinhos de Silva Pais, e quando toda a gente falava do fascismo, eu só pensava que o fascismo está onde menos se espera, no interior dos chamados democratas.

É estranho que um democrata capaz de manchar a honra de alguém e de a publicar no Diário da República sem provas nenhumas possa ser proposto para organismos que avaliam os atores da Justiça em Portugal. Sinal dos tempos perigosos que vivemos.

Até que a voz nos doa será o lema destes próximos tempos, sabendo que essa voz tem uma Língua, a Língua Portuguesa, e que é o domínio dessa Língua que nos permite produzir Pensamento, porque sem pensamento não há Liberdade.

Porque não há machado que corte a raíz do pensamento, ele é livre como o vento, ele é livre.

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