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Luanda leaks, uma outra visão

Miguel Santos

“O dinheiro não tem cheiro.”

Vespasiano, imperador romano

Enquanto publicamos estes textos, o caso Luanda Leaks está a ser divulgado nos media portugueses e internacionais. Mas há muito que activistas, jornalistas e políticos de Angola e Portugal, têm falado e publicado documentos sobre o saque da elite angolana e a cumplicidade de instituições portuguesas. Não é novidade para ninguém.

E é apenas o mais recente desenvolvimento de uma longa tradição que nos demonstra como o poder político e o poder económico abusam do sistema financeiro.  Nesta longa tradição se inscrevem, por exemplo, o papel da Goldman Sachs na crise grega ou os Panama Papers.

No Luanda Leaks, denunciantes revelaram documentos sobre o modo como Isabel dos Santos e os seus associados internacionais, acumularam milhões de euros e a relação que o seu enriquecimento tem com a pobreza e desigualdade social em Angola.

Mas também, mais uma vez, ficou exposta a incapacidade ou falta de vontade de instituições internacionais e nacionais que deveriam regular, vigiar e impedir estas actividades. E hoje muitos alegam desconhecimento, dizem-se chocados e arranjam bodes expiatórios. Isabel dos Santos é  agora “um activo tóxico”, mas o dinheiro de Angola foi e será sempre bem-vindo. O dinheiro não tem cheiro, mesmo que passe pelos canais mais nauseabundos da corrupção mundial.

Para além dos crimes das elites angolanas, é necessário saber exactamente que papel tiveram as instituições internacionais e portuguesas no roubo da riqueza de Angola.

Nada disto é novo. O fantasma do colonialismo assombra ainda o sul global, em que os poderes locais continuam a agir e a prosperar como agentes dos novos rostos de velhos impérios coloniais. Quem ganha agora, como outrora, são as elites internacionais e os seus intermediários locais, como Isabel dos Santos. Os derrotados são sempre as populações condenadas à pobreza e à violência, alimentando o mercado da mão de obra barata, muitas vezes em situações análogas à escravatura.

Esta é uma história que merece ser contada. Uma história que começa nos escritórios da alta finança e nas habitações de luxo da elite mundial, mas que tem como vitimas directas, no Terceiro Mundo, os migrantes despejados no Mediterrâneo, as crianças famintas com os rostos cobertos de moscas, os mortos das guerras endémicas, os escravos que alimentam as nossas economias, os prisioneiros da ditadura e os deserdados pela corrupção. 

Existe também a dimensão ambiental, que muitas vezes é descrita como “catástrofe natural”.

Em Tômbua, por exemplo, um importante porto pesqueiro em Angola, os peixes estão a desaparecer devido ao aquecimento das águas do mar e, não menos importante, à pesca excessiva e ilegal, levada a cabo por grandes embarcações privadas, oriundas principalmente da China e Coreia do Sul. As autoridades angolanas não têm a capacidade nem o incentivo de resolver este problema.

É um típico e infeliz enredo: Interesses económicos de membros da elite angolana em conluio com elites internacionais, que se traduzem em corrupção e roubo dos recursos nacionais. O resultado é o esvaziamento dos cofres do Estado, o que leva à implementação de medidas de austeridade. Medidas essas que tornam impossível proteger as populações mais vulneráveis, como é o caso dos pescadores de Tômbua. Este mesmo enredo pode ser aplicado às vítimas do ciclone Idai em Moçambique ou do furacão Maria nas Caraíbas. Mas também na periferia da Europa o enredo não é muito diferente. Todos nos lembramos dos fogos em Pedrógão e na Grécia.

É importante que se continuem a investigar e a divulgar informações sobre os crimes dos poderosos, não só para que possamos ter uma opinião, mas para que reconheçamos que tanto no ocidente como em todo o mundo, enfrentamos problemas semelhantes. E que, embora soframos em diferentes medidas, as causas são as mesmas, os perpetradores são, muitas vezes, a mesma elite política e financeira.

A solidariedade internacional não é apenas um imperativo moral, não é somente o reconhecimento lógico de que problemas colectivos exigem soluções colectivas. É, sobretudo, um acto de pragmatismo para os que lutam pela justiça social e pelo fim deste ciclo de subdesenvolvimento e desumanidade. A sobrevivência das nossas sociedades depende disso.

Texto: Miguel Santos, colectivo de Lisboa

Cartoon: Miguel Santos

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