Home Opinião A crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto

A crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto

por Carolina Rodrigues

A frase de Darcy Ribeiro que dá título ao presente artigo sintetiza perfeitamente o processo em que se encontra a educação no país sob a gestão de Jair Bolsonaro. Além dos cortes de verbas sofridos no programa de contingenciamento do governo, a educação tem servido como uma poderosa ferramenta de aparelhamento ideológico, que busca reafirmar um pretenso caráter moral do atual governo  e que se coaduna a um processo de desconstrução do saber, ambos a serviço do neoliberalismo.  

Na esteira do projeto da crise educacional no Brasil algumas questões foram pontuais em se tratando do seu caráter ideológico como, por exemplo,  as mudanças na política de aplicação do ENEM, que sinalizam para um movimento de censura ao conteúdo das provas; a instalação de escolas cívico-militares, que tem caráter abertamente doutrinador; as constantes ameaças à autonomia universitária, expressas através de bravatas proferidas pelo presidente e pelo ministro da Educação;  eo projeto Escola Sem Partido, que se revela como o mais importante mecanismo de regulação do fazer docente. 

Recentemente, o presidente Jair Bolsonaro recebeu duras críticas ao chamar de “energúmeno” o educador Paulo Freire, patrono da educação brasileira, e declarar que a programação da TV Escola – canal que  serve para promover a capacitação e a atualização permanente dos professores do Brasil – cumpre o papel de “deseducar”.Mas a polêmica não parou por aí. Posteriormente, ao defender mudanças nos livros didáticos, o presidente se referiu aos livros usados atualmente na rede pública como um “amontoado de muitas coisas escritas”, que só servem  para  “plantar militância de esquerda.” 

No entanto, se o discurso do presidente soa leviano e suas palavras parecem corroborar com a proliferação do absurdo, tudo isso estabelece nexo com algo que faz total sentido dentro dos planos do governo. O que pareceinconcebível,  faz parte de um projeto que tem duas finalidades bem específicas tendo em vista a utilização da educação como ferramenta de implementação: formar uma massa acrítica e impor uma pauta moralizante. Ambos são instrumentos usuais dos governos de extrema-direita – não só no Brasil – e tem por objetivo atender às demandas neoliberais através de uma política de austeridade, que significa, na prática, o fim do estado de bem-estar social e o fortalecimento da classe dominante. Para que a massa de trabalhadores “engula” esse projeto, é preciso, primeiro, docilizar,imbecilizar, amedrontar (através das pautas morais) a população.

Nos países com governos neoliberais, para manter a economia forte e atender às necessidades do mercado,  o aumento da demanda pelos serviços sociais do Estado é respondido com a restrição de recursos para os mesmos, o que só pode resultar em déficits e precarizações, que significam uma perda brutal na qualidade de vida da classe trabalhadora. Nesse sentido, a educação publica  não apenas é afetada por essa política de contingenciamentos, sofrendo um processo de sucateamento, como o seu desmonte passa a servir aos interesses da classe hegemônica.  

Assim, a educação como processo de formação cidadã, tendo em vista o exercício de direitos e obrigações típicos da democracia, converte-se em ferramenta ideológica, propagadora dos valores da classe dominante. O grande propósito da educação libertadora de proporcionarconsciência, motivação e  instrumentos intelectuais para o engajamento em movimentos coletivos que visam tornar a sociedade mais livre e igualitária, transforma-se numa visão tecnicista que busca a formação de mão-obra para o mercado de trabalho. As desigualdades provocadas pelo neoliberalismo passam, portanto, a serem dissimuladas, e a massa acrítica passa a acreditar na lógica capitalista do esforço individual e meritocrático do trabalho para manutenção da vida. 

Não à toa os professores são os mais perseguidos no atual governo. Intimamente ligados à produção social da força do trabalho, os professores são os guardiões da formação de competências, habilidades e conhecimentos capazes de desenvolver cidadão críticos, politizados e dispostos a romper com a lógica da classe dominante. Este poder latente que reserva os professores é razão das investidas do governo na tentativa de deslegitimação e desvalorização da prática docente. Através de discursos que visam a “defesa da moral e da família”, a precarização do ensino se dá em um processo de controle das massas pelo fim do pensamento crítico dentro de uma cultura de desempenho. 

Por Carolina Rodrigues 

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