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Da Guerra Colonial e da Emigração à Gestão Estratégica

por Joffre Justino

Aí por voltas dos anos 2004/6 acompanhei um programa de tutoria à gestão desenvolvido pelo IAPMEI integrado numa equipa que não era ja a minha habitual e, diga-se em um estado emocional onde a tensão era a dominante dadas as circunstancias angolanas onde me envolvera 

A tutoria desenvolvida permitiu-me entretanto concentrar os meus pensamentos em cada uma das 3 empresas que acompanhei e em uma dúzia que percepcionei colateralmente, libertando-me ainda da tensão vivida e dando-me ainda por cima uma oportunidade única de estudar um ambiente organizacional concreto, distante das potencialidades da capital ( aquele velho luso ditado o rossio é a capital e Lisboa o país muito queirosianamente agradável na literatura mas tão falho de vida real e que ainda hoje domina..) o que se chama enfim de “o país real”!

Olhando para essa experiência vivida de forma bem atenta e enquadrando a visão de uma falsamente mutante Lisboa posso dar algumas achegas “de gestão estratégica” ao saudável debate, mesmo que mal arrancado por Antonio Tavares o patrão da CIP e que Augusto Santos Silva pôs nos media e nas redes sociais. 

Assim e sintetizando um filme bem preenchido ( até de “cenas passionais”) 

  1. Os empresários envolvidos 

As 12 empresas permitiram uma abordagem a uns 15/17 empresários de micro organizações locais, havendo no entanto um deles com forte peso local dada a sua relação com a economia paralela onde na verdade fazia a sua fortuna, e nos restantes casos o “caso de sucesso”,  centrava-se na industria numa toma de quota de mercado a partir de uma experiência obtida na emigração.

Para alem do “caso de sucesso”, ja um caso quando iniciámos a tutoria, os restantes do que me recordo passados uns bons 15 anos, situavam-se na hotelaria ( uma de luxo, a do empresário da economia paralela) e no Turismo sendo de relevar o interesse de todos os empresários no projeto ( exceto o da economia paralela), o empenho na Aprendizagem e os resultados positivos obtidos num universo onde dominava uma escolarização inferior ao 9.o ano 

  1. O Ambiente envolvente (simplifiquemos)

Ainda fora do tempo do “Portugal de sucesso” de hoje, a região, de fronteira, que perdeu significativamente com o desaparecimento da mesma, vivia um ambiente económico onde predominava a desmotivação e ia sobrevivendo à custa das passeatas de curta duração de espanhóis e do verão pejado de emigrantes  

Os baixos rendimentos dos locais, onde ganhavam peso as pessoas que laboravam para o municipio, dando portanto especial relevo ao Estado no contexto do Poder Local, e claro a pouca economia paralela ainda possível, depois do desaparecimento das fronteiras fragilizavam ainda mais a capacidade das organizações 

Assim o ambiente envolvente pouco mais incentivava que à sobrevivência, apesar do enorme potencial local em especial para o Turismo Natureza que era aproveitado somente por uma das organizações em rede familiar com outras da “capital do Norte” e de forma limitada mas inteligente ainda “vinda de fora”. 

  1. Má Gestão

Absolutamente pior que má gestão,  a vivida nestas organizações, uma péssima gestão nos recursos financeiros, humanos, organizacionais e externos, que melhorou com a intervenção feita mas que foi manifestamente insuficiente para as necessidades 

O potencial turístico ( hoje mais aproveitado) da localidade é significativo e abrange Património fisico natural e Património imaterial  humano a impor uma significativa qualificação  escolar e profissional que não acontece ainda no todo das potencialidades  dada a má gestão organizacional que dessa fraca qualificação e da descapitalização das organizações existentes 

Conclusões 

Os fatores de fragilização da região para alem do findar das fronteiras, foram dois – a guerra colonial ( hoje ridicula é envergonhadamente chamada de “guerra de áfrica” e a emigração que em conjunto afastaram as populações da sua região natural a acrescer ainda a péssima gestão dos fundos comunitários até no “seu” cavaquistao, ja que se limitou a injetar capital numa minoria depredadora  de potencialidades e ansiosa de consumismo gerador de custos para o pais via as importações e sem resultados nas exportações ou no mercado interno que até decresceu com o esvaziamento do setor agro pecuário local e nacionalmente 

Chegado tarde ao Turismo ( década de 60 e então como disse o salazarento para pagar os custos da guerra colonial ) sendo ainda por cima esta mina lusa gerida por pessoas não qualificadas para o setor,  limitando o mesmo ao usufruto do sol e ao usufruto visual do ambiente natural ( praia ou não), ou construido ( histórico ou moderno), e considerando “eventos” estritamente os espetaculos musicais boa parte vindos de fora e anulando em geral  tudo o que implique uma gestao de médio/longo prazo desde a animação de rua ( feita à toa) ou de unidade hoteleira ou de entretenimento ( feita sem planeamento que se veja ou tendo em conta os recursos internos) 

Da guerra colonial e da emigração, fatores historicos enformadores ate do regime saído do 25 de abril de 74, nada parece ter nascido local e nacionalmente a nao ser o calar os dramas quer silenciando quer pagando  para que nada deles saia a não ser o escândalo do BES

No entanto, da emigração e da mudança de Ambiente envolvente gerada por uma guerra colonial em três cenarios de guerra,  nasceram uma boa parte  dos empresarios de hoje, ensinados a gerir o risco e as emoções na guerra e nas emigrações depois de saídos da casca de ovo de cada aldeia,  vilória, cidade e ate capital do país.

Porque o salazarento nunca quis ver nascer e crescer empresariado que não fosse tutelado pelo partido estado ( sim demasiado à urss.. mas nada a ver com ela na qualificação..) o empresariado veio a terreiro num pós 25 de abril 

Segundo o Jornal de Negocios de 25 de abtil de 2014, e o nforma D&B,

      No que respeita ao volume de negócios gerado pelas grandes empresas em 2012, uma fatia de 25% teve origem naquelas que nasceram antes do final de 1974. Estas representam também 26% do número total de trabalhadores empregados pelas empresas desta dimensão.

       Quanto menor é a dimensão das empresas analisadas neste estudo, mais pequeno é o peso de empresas com 40 ou mais anos de existência. Assim, estas últimas representam 20% das actuais empresas de média dimensão (entre 10 e 50 milhões de euros de volume de negócios), 12% das pequenas empresas (2 a 10 milhões de euros) e apenas 5% das microempresas (menos de 2 milhões).

O que confirma o que dissemos atrás, o empresariado diretamente salazarento nao tem o peso que se diz tendo no entanto o indiretamente  e vem acentuar um dos muito poucos lados positivos quer da guerra colonial quer da emigração 

O que significa tal?

a) a cultural empresarial é bem pouco significativa em Portugal e nao nasce de um tecido organizacional portugues / continente europeu, como aliás pouco reflete o tecido empresarial imperial portugues como a citação acima o mostra

b) o partido estado deixou no Estado uma cultura de dominação que na verdade se concentra na Direita portuguesa tão diretamente ligada ao salazarentismo mas como se vê não é por via das organizaçoes privadas oriundas do fascismo mas sim do poder de um Estado que saiu inteiro do fascismo para a Democracia quase sem mudança 

c) a cultura de risco continuou a ser diminuta  pois a adesão 12 anos depois do 25 de abril à CEE e com a panóplia de financiamentos inseridos no tecido económico luso via o Estado impediu que a mesma se cimentasse e o partido em boa parte herdeiro do partido estado salazarento o PPD/ PSD, aue os distribuiu por esse tecido constituiu entretanto uma retaguarda de elites organizacionais atuais e de onde nascem as CIP, as CAP e boa parte das CCP e CTP portanto muito partidarizadas

Precisamente as confederações patronais que se zangaram com Augusto Santos Silva, sendo certo que do lado da do Comercio e Serviços ha um discurso bem mais serio e a poder gerar debate 

Santos Silva tem toda a razão no que disse e é tempo de ver alguém a, no Estado,  dizê-lo frontalmente por forma a possibilitar o surgimento de uma cultura de Estado democrática e de uma cultura empresarial de risco não estatista e preferencialmente capaz de gerir com sentido de Responsabilidade Social e de uma justa Distribuição de Riqueza e de incentivo à participação 

Mas e citando de novo no “ … período de 2007 a 2015, em Portugal nasceram, em média, 34 mil empresas por ano, destacando-se 2015 como o melhor ano deste período em número de constituições (35 555). Enquanto perto de dois terços (67%) sobrevivem ao primeiro ano, apenas cerca de metade (52%) se mantém em atividade ao fim de três anos e um terço (33%) ultrapassa a fasquia dos sete anos de existência”.( in https://biblioteca.informadb.pt/files/files/Estudos/SE-longevidade-empresarial-em-), enquanto que o Dinheiro Vivo nos dá outra visão mais otimista mas em periodo diferente  dizendo que “Por norma, as empresas portuguesas duram entre 10 a 11 anos. Pelo menos essas foram as conclusões do Banco de Portugal (BdP), com origem na análise de 511 mil empresas criadas

entre 1991 e 2009.

“Através desta informação é possível verificar que, no período em análise, as novas empresas registaram uma elevada taxa de sobrevivência nos dois primeiros anos de vida (90% no primeiro ano e 85% no segundo), situando-se a mediana da duração das novas empresas entre os dez e os onze anos”, pode ler-se na publicação “Estrutura e Dinâmica das Sociedades Não Financeiras (SNF) em Portugal”, do BdP. “Ao fim de dezanove anos apenas 33% das SNF se mantêm em atividade.”” 

Estas citações apontam já para a possibilidade de estar realmente a surgir uma nova elite empresarial com a forte probabilidade de ser menos subsidio dependente e também  menos estatista na versão salazarenta, mas as posições no Conselho económico e social e na Concertação Social mostram o novo modelo da relação Estado / empresariado já com o Estado a subordinar-se a um novo emoresariado o que é positivo sem no entanto se poder escamotear as baixas qualificações do empresariado português a falta de um cimento estruturante na cultura empresarial e a falta de visão estratégica e dd longo prazo que bloqueia a inovaçao tecnológica organizacional e de capacidade de inserçao dd novos knowhow nas organizações 

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