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Quem plantou a semente do fascismo no Brasil?

por Carolina Rodrigues

Recentemente, casos de apologia ao nazismo foram destaques na mídia brasileira. Após um homem ser flagrado usando uma suástica em uma braçadeira em um bar de Unaí, cidade localizada no estado de Minas Gerais, um jovem foi flagrado ostentando o símbolo nazista em um shopping de Curitiba. 

Embora os episódios tenham causado revolta em muita gente, eles são representativos de uma onda fascista que se dissemina no país com velocidade e que se torna cada vez mais evidente. Mas, afinal, como chegamos nesse ponto?

Obviamente, a eleição de um candidato da extrema-direita que elogia a ditadura militar e que tem como herói Carlos Alberto Brilhante Ustra, torturador sádico responsável por crimes contra a humanidade durante os Anos de Chumbo, por si só já é uma prova inconteste de que a semente do fascismo estava plantada em solo brasileiro. 

No entanto, embora muitos estudiosos apontem o ano de 2013 como o marco dos movimentos que deram início a derrocada do PT e a consequente instauração do antipetismo e fortalecimento do bolsonarismo – que teriam redundado na atual onda fascista – foi no ano de 1980 que as primeiras sementes desses movimentos foram lançadas. 

De acordo com o historiador Flávio Henrique Calheiros Casimiro, foi no processo de abertura política que frações da burguesia carioca, juntamente com intelectuais ligados à Fundação Getúlio Vargas e com formação atrelada à Escola de Chicago, buscaram desenvolver uma estratégia política e ideológica liberal no Brasil, que deu origem ao Instituto Liberal, um aparelho de difusão do liberalismo no país. Em 1984, com a criação, em Porto Alegre, do Instituto de Estudos Empresariais, forma-se um eixo de difusão do pensamento conservador que será responsável pela organização de um dos eventos mais importantes da agenda da direita brasileira, o Fórum da Liberdade. 

O evento é marcado pela presença de liberais de todo o mundo e, com o passar do tempo, assumiu papel relevante entre os grupos econômicos do país (empresariais e industriais), que tinham como premissa operacionalizar um projeto de poder de longo prazo a partir de suainserção na estrutura institucional do Estado. Entre os aparelhos nascidos no seio do Fórum da Liberdade estão o Grupo de Líderes Empresariais (Lide), fundado pelo político do PSDB João Dória Júnior; o Instituto Mises e o Instituto Millenium, que entre seus membros estão nomes importantes da mídia brasileira como Antônio Carlos Pereira (editor do Jornal  Estado de S. Paulo); Luiz Eduardo Vasconcelos (diretor da Rede Globo); João Roberto Marinho (filho do dono da Rede Globo) e Rodrigo Constantino (colunista da Veja, do Jornal O Globo e do Valor Econômico). Além disso, em 2012, o Fórum lançou o Estudantes pela Liberdade, que se tornou responsável por financiar, organizar e estabelecer diretrizes para o Movimento Brasil Livre (MBL), principal articulador dos movimentos antipetistas que se espalharam pelo país. 

Como se vê, a direita no Brasil vem se consolidando a partir da articulação entre a burguesia,  composta sobretudo por grandes empresários e nomes ligados à grande mídia. Tal parceria rendeu um projeto de poder da classe dominante que vem se instaurando a partir dos vácuos deixados pelos governo do PT, em especial pelogoverno Dilma, que incapaz de manter o equilíbrio entre as demandas da classe dominante e as demandas sociais, acabou por abrir espaço para o fortalecimento das direitas, principalmente pelo apoio da grandes mídia conservadora e seu poder de influência na formação da opinião pública. 

Dada a heterogeneidade do campo da direita no Brasil, a ala mais extremista, ligada ao libertarianismo da Escola Austríaca (ou liberalismo radical), cuja ortodoxia vai contra a quaisquer programas sociais ou direitos promovidos pelo Estado, foi a que ganhou maior espaço, tornando-se importante porta-voz do antipetismo -ferrenha opositora das políticas assistencialistas do PT. Atrelando libertarianismo ao fundamentalismo religioso, a extrema-direita fez da pauta moral uma perigosa aliadanuma espécie de neomacartismo que fez do  “PT e da esquerda comunistas” ameaças ao desenvolvimento da sociedade capitalista através de um projeto capitaneado pelo “marxismo cultural”, que consistiria na destruição dos valores morais e dos valores tradicionais como a família nuclear e a propriedade privada. 

Assim, a semente lançada pela direita no solo brasileiro nos anos 80, deu origem ao fascismo que nos assola atualmente. Talvez dado seu caráter transgênico, o que poderia ser mais um projeto de poder da classe dominante, deu origem a uma anomalia: o bolsonarismo – a cara do fascismo no Brasil. 

Por: Carolina Rodrigues 

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