Home Activismo Crise de capitalismo é uma crise da democracia?

Crise de capitalismo é uma crise da democracia?

por Holta Bani

No último relatório de “Freedom House” declara-se que em 67 países há uma redução do nível dos direitos civis e políticos, que é realçado neste mesmo documento como “destaque democrático”, explicado pela diminuição da confiança nos valores democráticos dos Estados Unidos e Europa.

A democracia e a confiança na economia liberal global, estão ambas em resseção. Vale a pena lembrar que a democracia e o capitalismo se relacionam entre si, mas com uma convivência bem conturbada. Esqueceram os equilíbrios a ter em conta em contratos bilaterais: ambos são baseados no ideal de igualdade. Todos podem e devem participar no processo da decisão politica, na arena económica, tudo isso em função de fazer o melhor possível no mercado aberto e na sociedade. Mas as práticas e os princípios destes, tomaram destinos diferentes, resultando em importantes consequências: os conflitos que daí se originaram até hoje estão abertos.

A democracia liberal está baseada na igualdade dos indivíduos e na solidariedade; o capitalismo não se interessa pela distribuição dos recursos e também favorece o individuo mais forte. A democracia diz  que todos os cidadãos têm[HB1]  a mesma voz; o capitalismo dá aos ricos a oportunidade ou até o direito de serem mais escutados. As tensões entre a democracia e o capitalismo podem ser dos mais destrutivos, como mostrou a crise de 1930, 2008, ou até a crise nos dias de hoje: a “Crise Ecológica”. Essa crise não tem um prazo de 3, 4 ou 10 anos para acabar como as anteriores (essencialmente económicas), vai se um grande desafio por varias gerações.

Os recursos da terra estão no fim, nenhuma economia global baseada no crescimento vai conseguir sobreviver e muito menos continuar com a situação emergente e desesperada que estamos a enfrentar.

O crescimento do sistema financeiro é o símbolo da economia capitalista. A quantidade do crédito que os bancos disponibilizaram triplicou nos últimos 40 anos; esse aumento tem produzido um retorno cada vez mais baixo por várias classes socias. Na verdade, o crescimento financeiro transformou a arena da concorrência em um lugar que favorece um grupo de indivíduos privilegiados por razões políticas ou de uma posição social importante. Assim temos que entender que a culpa da crise da economia capitalista, não tem que ver com as migrações que são mais uma consequência de sistema. Se a maior parte do mundo vive na pobreza, claro que vai ter migrações, além de ser um fenómeno natural desde o inicio da humanidade.

O problema do capitalismo é o caminho e mundo solitário que ele construiu. O mundo é o lugar, o espaço de todos nós, ele não tem que ser o paraíso dos poucos e o purgatório ou inferno dos restantes. A desequilíbrio que ele criou entre os ricos e os pobres, a concentração da riqueza e dos recursos na mão das poucas pessoas, afastam o capitalismo cada vez mais da democracia, criando assim um terreno que se está virando contra ele mesmo.

O consumismo mentiroso, que esta a deixar as pessoas dependentes das mercadorias de qualquer tipo é o “Leviathan” (Thomas Hobbes book) dos tempos modernos. Cada vez mais as pessoas consomem qualquer coisa: roupas, jornais, viagens, aparelhos tecnológicos, informação, cultura, etc. Consumir é o “leitmotiv” da vida. Empréstimos bancários, horas compridas no trabalho, a renda mensal, porque a maioria das pessoas no mundo não conseguem comprar casa, o preço do imobiliário cresceu exponencialmente nos últimos 30 anos e vai continuar a crescer…, mas comprar para consumir é obrigatório para ter “uma vida normal”. Cada vez mais o individuo está na condição perpétua neurótica, ele vive em um círculo vicioso: consumir para ficar cada dia mais pobre, mais escravo. Onde foi a vida digna, saudável e justa que em tanto inspirávamos?

Quando há uma crise no casamento as crianças sofrem, e nesse caso as crianças somos nós. Mas a hora de ficar e comportarmo-nos como adultos conscientes chegou!

Os protestos contra a condição presente que estão surgindo em muito lugares do mundo podem ter impulsos diferentes, mas o descontentamento tem a mesma causa em todos os lugares. 

E isso está a ser demonstrado em todo o mundo: Hong Kong, Líbano, Chile, Franca, Equador…. As causas dos protestos são iguais, p.e. em Hong Kong, para além das outras razões politicas reivindicadas, é também o aumento das rendas; no Chile o aumento dos preços dos transportes públicos; em Franca o aumento dos preços dos combustíveis. Para os favoritos e os privilegiados do capitalismo é incompreensível a resposta dos protestantes. Uma pregunta “verdadeira”:

– Como vai se sentiria se não pudesse pagar o transporte para ir a trabalhar, ou ir para escola? E forçosamente tem que comprar porque a alternativa não é possível!

A economia de mercado e o capitalismo, que na democracia constitucional, são também as liberdades pessoais que nos permite a independência e prosperidade, estão em caminho escuro, ou sem saída.

Como o Martin Wolf disse: “precisamos de um Capitalismo dinâmico, mas cada vez mais estamos em frente a um capitalismo, que vive de renda, da falta de concorrência, da estagnação de produtividade, do crescimento das desigualdades que levam na degradação da democracia. Este sistema tem produzido cada vez mais insatisfações a milhões de pessoas.”

 A humanidade está em mudança continua, a estrutura da sociedade tem de responder ou ser em sincronia com este fenómeno. Hoje estamos, como sempre, em frente de grandes questões. A democracia não é uma condição que se fixa ou se arruma definitivamente, ela sempre vai ser ameaçada, atacada.

Para mantê-la presente, temos sempre que estar atentos às nossas escolhas, a não deixar que outros elementos ou mecanismos sufoquem o funcionamento normal da democracia. O nosso dever hoje como sociedade e como seres humanos, é responder com eficiência às mudanças urgentes que a realidade nos coloca em frente.

Não há sociedade justa sem chances iguais para todos os indivíduos, e sem uma democracia segura com mecanismos funcionais e bem protegidos, isso é apenas uma frase vazia.  


Holta Bani

Foto de destaque: Visual hunt / CC BY-NCCopy

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