Home Opinião ‘A carne mais barata do mercado é a carne negra’

‘A carne mais barata do mercado é a carne negra’

por Carolina Rodrigues

O mês da Consciência Negra no Brasil foi marcado por episódios tristes como o protagonizado pelo deputado Coronel Tadeu (PSL-SP), que  arrancou um quadro de uma exposição na Câmara dos Deputados que denunciava o genocídio da população negra no Brasil, e pela nomeação absurda de Sérgio Camargo, um negro militante de direita que nega o racismo no país, para presidência da Fundação Palmares, que tem por objetivo fomentar a cultura afro-brasileira. 

Mais atual do que nunca, portanto, a música “A Carne”, interpretada pela cantora Elza Soares, cujo trecho dá título a este artigo, nos fala sobre uma realidade que está longe de ter fim no Brasil e que se desvela cotidianamente nos mais variados campos sociais: o racismo estrutural. 

No país com a maior população negra fora da África, onde 56, 10% de sua população se declara negra (preto ou pardo), o racismo se faz presente na sociedade nas suas mais diversas faces. 

“A carne mais barata do mercado é a carne negra/ Que vai de graça pro presídio E para debaixo do plástico.”

Em se tratando da população carcerária, as políticas de encarceramento e aumento de pena se voltam, via de regra, contra a população negra. Segundo o  último levantamento realizado pelo Departamento Penitenciário Nacional (Depen),  entre os presos que ocupam as penitenciarias no Brasil, 65 %  são pretos e pardos. 

No que diz respeito à violência, 75% das vítimas de homicídio no Brasil são negras. Estudos do Ipea mostram que a taxa de homicídios de pessoas negras cresceu 33% em uma década. Os negros são também as maiores vítimas de violência pelas polícias brasileiras, somando  75,4%. 

“A carne mais barata do mercado é a carne negra/ Que vai de graça pro subemprego. E pros hospitais psiquiátricos.”

Quando o assunto é o mercado de trabalho, trabalhadores negros enfrentam mais dificuldade de encontrar um emprego do que trabalhadores brancos, mesmo quando possuem a mesma qualificação. Quando trabalham, recebem até 31% menos, é o que informa o Síntese de indicadores Sociais (SIS). A população negra do país são maioria também  entre trabalhadores desocupados (64,2%) ou subutilizados (66,1%). O caso é ainda mais grave quando se trata de mulheres negras, que recebem menos da metade do salário dos homens brancos no Brasil. 

Lugar de apartamento social, atravessado por preconceitos e exclusão sobre populações vulneráveis, os hospitais psiquiátricos também são impactados pelos efeitos psicossociais do racismo. De acordo com o Censo psicossocial dos moradores em hospitais psiquiátricos do estado de São Paulo, quando comparado a população geral, há proporcionalmente uma maior presença de negros (pretos e pardos) moradores em hospitais psiquiátricos. 

No dia 19, em um discurso emocionado na tribuna da Câmara, a deputada Benedita da Silva (PT-RJ) deu um “grito de basta” ao racismo quando protestou contra a atitude do deputado Coronel Tadeu, que destruiu o painel que fazia parte da exposição em comemoração ao mês da Consciência Negra: “Foi como se ele tivesse dado um tapa na cara de cada negro e de cada negra desta Casa. Fomos colocadas novamente no tronco. Veio o chicote e tirou da parede o que demonstrava naquela charge, a realidade de milhões e milhões de brasileiros. Somos 54 milhões de brasileiros, que lamentavelmente não estão representados nesse Legislativo (…). 

As palavras da deputada respondem à angústia nos versos interpretados por Elza, cantora negra que personifica a dor de cada negro vítima da desigualdade racial no Brasil: “Ainda guardo o direito/ De algum antepassado da cor/ Brigar sutilmente por respeito/ Brigar bravamente por respeito/Brigar por justiça e por respeito/ De algum antepassado da cor.”

Mas por mais que as vozes negras insistam, cantem e gritem para se fazerem ouvidas, o racismo tenta silenciá-las. O modo “normal” com que o racismo está presente nas relações sociais, políticas, jurídicas e econômicas faz com que a desigualdade racial seja perpetrada. O que se vê é o racismo como fundamento estruturador das relações sociais. 

Após vivenciar  três séculos de escravização, a população negra ainda vive sob o jugo dos “capitães do mato” e “senhores do engenho”. Quando o racismo é negado, quando a discriminação é institucionalizada, quando há o massacre da juventude negra, o encarceramento e a demonização dos corpos negros, a intolerância à cultura e religiosidade negras, percebe-se como a lógica colonialista ainda serve como fundamento  de dominação. E a pergunta que fica é: até quando a carne mais barata do mercado será  a carne negra? 

Por Carolina Rodrigues 

0 comentário
0

RECOMENDAMOS

Comente

* Ao utilizar este formulário, você concorda com o armazenamento e gestão de seus dados por este site.