Home África MORADORES DA KILUNDA “FAZEM AS NECESSIDADES” AO AR LIVRE ( in Jornal de Angola, JA)

MORADORES DA KILUNDA “FAZEM AS NECESSIDADES” AO AR LIVRE ( in Jornal de Angola, JA)

por Joffre Justino

Diz o diário estatal angolano que o custo para mandar cavar uma fossa, ronda os 20 mil kwanzas, valor que não está ao alcance da maioria dos moradores da localidade, maioritariamente camponesa.

Na verdade Mil milhões de pessoas ainda defecam ao ar livre. Em Angola, há zonas onde moradores não têm casa de banho, obrigando-os a fazer as “necessidades” no capim. 

Hoje, assinala-se o Dia Mundial da Casa de Banho. A data é comemorada desde 2001 em vários países do mundo, também conhecida como Dia da Sanita, foi oficialmente reconhecido pelas Nações Unidas, em 2013, e visa alertar a população para o facto de mais de 2,4 mil milhões de pessoas não terem acesso a uma casa de banho limpa, segura e privada. 

A data tem como objectivo destacar a importância do saneamento básico para a saúde global.

Estudos apontam que 1 em cada 3 pessoas não dispõe de casa de banho que assegure boas condições de higiene e segurança e assim mais de 700 mil crianças morrem todos os anos devido à diarreia causada por águas poluídas e más condições sanitárias, tendo provocado perto de 2000 mortes por dia.

Inacreditavelmente existem mais pessoas com telemóvel do que com sanita. Mais de 60 milhões de crianças nascem em casas sem saneamento. 7.500 pessoas morrem diariamente por falta de saneamento, entre as quais 5.000 são crianças com menos de 5 anos e 272 milhões de dias de escola são perdidos por ano devido a doenças relacionadas com o saneamento e só 47% das escolas nos países em desenvolvimento oferecem adequadas condições sanitárias.

Nestas condições dois milhões de toneladas de dejectos humanos vão todos os dias para fontes de água, contaminando-as e mil milhões de pessoas ainda defecam ao ar livre.

Na localidade da Kilunda, situada na comuna da Funda, município de Cacuaco, em Luanda, na região da capital de Angola vive-se uma realidade difícil de ser compreendida se não se conhecer os dados acima

Das mais de 15 mil famílias aí residentes, apenas um número bastante insignificante dispõe de uma casa de banho no interior da sua residência. As pessoas preferem recorrer às matas para defecar e à sala e ao quarto para tomar banho. 

A falta de dinheiro para mandar cavar o buraco para a construção da fossa, aliada ao facto de a terra ser muito dura (é argila), é apontada, pelos moradores, como a principal razão que os desmotiva a construir um WC pois o custo para mandar cavar uma fossa, segundo contou, ronda os 20 mil kwanzas, valor que disse não estar ao alcance da maioria dos moradores da localidade, maioritariamente camponesa.

Paradoxalmente, muitas famílias nessas condições dispõem, em suas casas, do ser- viço de televisão por satélite, vulgo parabólica, levando-os, em alguns casos, a gastar 3.295 kwanzas, por mês ou 39.540, por ano. Benjamim Afonso, por exemplo, gastou 158.160 kwanzas, em quatro anos.

Benjamim Afonso, um dos moradores que preferiu ter o sinal de televisão em casa, em detrimento de uma casa de banho, contou à reportagem do Jornal de Angola que tomou tal decisão por não dispor de condições financeiras para erguer uma. “Comprei a parabólica para a família não ficar muito iso- lada”, frisou.

“Mas, agora, estamos a ver que as casas de banho fazem muita falta”, admitiu.

O morador referiu que a prática de defecar ao ar livre tem provocado, sobretudo no tempo chuvoso, muitos casos de febre tifóide e diar- reia na zona, “já que as moscas, depois de poisarem nas fezes, transportam as bactérias para as nossas casas”.

Preocupado com a situação, uma instituição filantrópica construiu, naquela localidade, várias latrinas para impedir o surgimento de algum flagelo.

Bater a porta de um vizinho com casa de banho, segundo contou o morador Manuel Tchukúlia, nalguns casos, para pedir ajuda, é considerado crime. “Aqui, quem tem casa de banho é rei”.

Nas poucas casas onde se pode encontrar um WC, os mesmos exigem manutenção urgente e só a maior das necessidades levaria alguém a utilizar o lugar.

Em consequência da necessidade de defecar ao ar livre, há três anos, o bairro foi assolado por um surto de cólera, que vitimou mortalmente alguns membros da comunidade.

“Aproximadamente dez pessoas terão morrido naquele período”, recorda Baptista João da Silva, presidente da Comissão de Moradores do bairro Kilunda ao JA.

Este responsável enfatizou que o bairro continua a registar, até hoje, muitos casos de febre tifóide, diarreia e paludismo e Baptista João da Silva confirmou a informação segundo a qual muitas famílias deixam de construir casas de banho devido à falta de dinheiro, já que “O valor para a construção de uma casa de banho não está ao alcance de muitas famílias”. 

Identico problema verifica-se nos bairros “Terra Branca” e “Kuta”, adjacentes à Kilunda.

, onde “Os nossos familiares pensam duas vezes para vir aqui, por não termos casa de banho”, contou, a rir, um morador.

O bairro Kilunda, segundo alguns moradores terá mais de 60 anos e a maioria das casas, um total de 600, é de adobe.

0 comentário
0

RECOMENDAMOS

Comente

* Ao utilizar este formulário, você concorda com o armazenamento e gestão de seus dados por este site.