Home Activismo 25 de novembro de 1975: E há ou não uma Esquerda Novembrista?

25 de novembro de 1975: E há ou não uma Esquerda Novembrista?

por Joffre Justino

Resposta ao Chega…

Perdoem-me os falsos revolucionários e até os verdadeiros revolucionários de Abri, mas o PREC para qualquer marxista que não a Marta Hanecker só podia dar no que deu – no 25 de novembro de 1975 !

Foi para uns poucos um ato revolucionario gostem ou nao os haneckeristas, que resultou , ao contrário da ocupação da AR feita cópia da russa revolução de outubro,  numa Democracia política, que não é mais social, económica, e cultural, porque parte da Esquerda baixou os  braços e outra parte ( como eu) foi tratar ( para perder) da Democracia em Angola, ou de outro assunto para cada uma delas, mais importante .

Mas, para a imensa maioria, porque dominada ou pelo salazarento ou pelos haneckerismos, ou por  liberalismos mais à direita ou mais à esquerda, o 25 de novembro foi um momento de alivio ou de desespero e para esquecer rápido!

Não vou aqui falar / posicionar-me entre comandos e paraquedistas ( deles me fartei em Luanda, que fizeram não poucas vezes do meu Largo, campo de batalha por causa de uma, belíssima, jovem que como eu lá vivia), nem será determinante o conflito no seio da casta militar, que apreendi de imediato ali nos primórdios desse Prec, quando a apelo da AEPPA, a Associação dos Ex Presos Políticos Antifascistas, fui assistir a um julgamento de um pide como testemunha de acusação … uma vergonha de pseudo tribunal onde os presos políticos foram os reais culpados,  e o pide o real inocente ! 

Nunca mais pus os pés nesses falsos “tribunais militares”!

A casta da segurança do Estado fascista estava todo ali a proteger-se e a culpar-nos a nós de sermos combatentes antifascistas e anticolonialistas, desertores, refratários e o mais que desse…

Houve com o 25 de abril de 1974, em especial depois do 28 de setembro ( bem mais interessante que os 25 de novembro), uma inesperada radicalização social e politica, radicalização essa que nao originaria mais que o que deu, pois Portugal era à época um país sem tradição de luta política de massas e o chamado PREC foi somente uma espécie de “curso acelerado” de Lutas Sociais e políticas, engendrado por jovens como eu ensinados por desconhecedores da realidade portuguesa, à época então, nada europeia, bem especifica, fascista e imperial.

Assim, boa parte da “revolução” foi vivida nas assembleias do MFA, e envolvendo fora delas umas dezenas de milhar de, essencialmente jovens, ou cidadãos até aos 40 anos máximo, que entre sindicatos herdados do fascismo, comissões de trabalhadores, de moradores, JF herdadas do fascismo e assim ( e bem) ocupadas, de municípios herdados do fascismo e assim ( e bem) ocupados, de empresas autogestionarias por despedimento dos patrões ou intervencionadas pela mesma razão e claro por partidos políticos 2 deles “criados” pelo marechal Spinola ( CDS e PSD, enfim com o PSD com alguma curta marcelista historia liberal).

Visto assim a luta de classes fica bem lateral à “luta política” pois no MFA a luta foi de “categorias funcionais”,sem que curiosamente se tenha mexido nas mesmas, e aconteceu ad latere do sistema, ao curto momento em que o poder quase se dissolveu, entre o 11 de março e o 19 de setembro de 1975 momento em que o general Vasco Gonçalves e o seu V governo sao derrubados, e por entre ingenuidades e inexperiências nascem movimentos sociais que se esboroam com a ascensão da Direita ao Poder em 1979 de Sá Carneiro.

E toda a experiência de luta social se esvai lentamente sendo que da mesma fica uma CGTP isolada entre pequenas e frágeis experiências associativas, cooperativas e recreativas ( talvez a de maior significado atualmente).

E assim do PREC, que se esboroa no 25 de novembro de 1975, nem sequer surgiu uma base social popular e de Esquerda precisamente porque as várias Esquerdas estavam divididas e em confronto entre si, com uma direita ou em fuga ( como muitos pides fizeram para a Africa do Sul, o Brasil e a Venezuela) ou de braços caídos nos sofás à frente das tv’s e rádios, e uma ultra minoria que cai no 11 de março de 1975 à exceção do jogador noctívago Jaime Neves e os seus comandos, mas que cai sem que haja uma forte conflitualidade social para o efeito ( tudo sempre, sempre, à volta do MFA e da conflitualidade inter e intra castas militares).

Há a Lisnave, há a Setenave, ha a Siderurgia Nacional, e um pouco mais de muito grandes e grandes empresas que,  rápido, rápido, são estatizadas e ao serem-no deixam de ser foco de conflito para passarem a ser centro de preocupação quanto à sua sobrevivência.

E, num contexto de internacionalização do conflito,  a “revolução” portuguesa é trocada pelo único partido que poderia ter feito essa revolução, o PCP, pela Independência de Angola nas mãos do MPLA de Agostinho Neto,  que curiosamente perdera o congresso deste partido para Daniel Chipenda, o guerrilheiro do Leste de Angola.

O bom senso de Álvaro Cunhal levou-o a, numa visão curiosamente bem gramsciana, travar a ida para as ruas e para a tomada do poder em 1975, 25 de Novembro, travando assim uma guerra civil que  Vasco Lourenço, Melo Antunes, Eanes e Costa Gomes, travam na esquerda socialista, no centro esquerda e na Direita, pondo freios até nos Comandos ( também graças a Jaime Neves) e permitindo um contra golpe sem quase sangue ( como fora o 25 de abril) mas mesmo assim com 5 mortes e umas dezenas de presos .

Temos uma tese pouco comum e que aponta para a vitoria desejada do PCP em Angola e a partir dessa vitoria, a 11 de novembro de 1975, Portugal passou a ter de ser, de novo, um pais pacificado pois a revolução global não se conjugava com uma revolução na Europa que faria estalar todas as frágeis ligações soviete-americanas e imporia uma guerra na Europa que em nada interessava à URSS que conhecia  o custo da recuperação dos países de leste o suficiente para não apostar em tal desastre ainda por cima de resultado incerto.

Daí que valha a pena deixar aqui um extrato de um texto de Alvaro Cunhal ( in, secretário-geral do Partido Comunista Português. Capítulo 8 do livro “A verdade e a mentira na Revolução de Abril: A contra-revolução confessa-se”, Edições Avante!, Lisboa, Setembro de 1999, ISBN 972-550-272-8 que nos permite ouvir o outro lado do PREC e entender a sua complexidade, nascida pela diversidade de interesses envolvidos,

“… uma conversa telefónica na mesma noite de 24 para 25 entre o Presidente da República Costa Gomes e o secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, em que este, tendo tomado a iniciativa do contacto, nos termos habituais da ligação institucional com a Presidência da República, comunicou ao Presidente, desmentindo especulações em curso, que o PCP não estava envolvido em qualquer iniciativa de confronto militar e insistia em apontar a necessidade de uma solução política. Soares diz contudo que Costa Gomes conseguiu «convencer o Partido Comunista a desistir » do 25 de Novembro (entrevista ao Público-Magazine , 24-4-1994). A verdade é que não houve «recuo» nem «desistência» porque não houve golpe nem tentativa de golpe do PCP, mas a realização empenhada da orientação definida pelo Comité Central em 10 de Agosto, até ao último minuto, incluindo as indicações acima referidas dadas às organizações do Partido e a diligência que se lhes seguiu junto do Presidente da República. “ ( Alvaro Cunhal) 

Curiosamente quem na Assembleia Constituinte segura o PCP atacando a defesa pelo PSD da ilegalização deste partido é Mário Soares e quem dirige as ações do 25 de novembro são Melo Antunes, Loureiro dos Santos, Eanes e Vasco Lourenço com os comandos a tratarem somente de uma operação anti pára-quedista ( na sua velha guerra a dois) e com Pires Veloso a norte a controlar a região.

De novo uma clarificação – o conflito é entre militares com a ala esquerdista a recusar haver golpe mas sim uma ação de apoio aos pára-quedistas e com a ala moderada a insistir que fez um contra golpe a um golpe. 

Releve-se que nos discursos políticos pós 25 de novembro ninguém pôs em causa o “caminho para o socialismo” ( Eanes inclusive) , nem Alvaro Cunhal rejeitou tal hipótese no pós 25 de novembro pelo que na verdade sempre estranhei este silencio acabrunhado da Esquerda democrática face ao 25 de novembro e agora me espanta mais um arreganho do Chega à volta de uma data democrática e goste-se ou não liderada à Esquerda e ao Centro Esquerda. 

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