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Pentecostalismo e política no Brasil

por Carolina Rodrigues

Formado no início do século XX nos Estados Unidos, o pentecostalismo vem crescendo em vários países em desenvolvimento, sobretudo na América Latina, onde o Brasil se destaca com cerca de 42 milhões de evangélicos, em sua maioria pentecostais (60%), de acordo com o último censo do IBGE. O crescimento dos pentecostalismonos últimos anos foi tão forte que o país hoje tem a maior população pentecostal do mundo. Ou seja, em um país de maioria católica, o pentecostalismo se tornou o segundo maior grupo religioso, avançando não apenas no plano demográfico, mas nos campos de disputa nos planosmidiático e político- partidário. 

Embora os evangélicos, com seu trabalho assistencial e educacional,  tenham sempre participado, de alguma forma, da vida pública nacional, foi no final de 1986, com o surgimento da bancada evangélica, a partir da eleição da Assembléia Constituinte, que o ativismo político evangélico se tornou expressivo. De lá pra cá, essa atuação só fez crescer, chegando a ser determinante no resultadodas eleições de 2018, tendo Jair Bolsonaro, presidente eleito, recebido cerca de 67% dos votos válidosevangélicos. 

Desde pelo menos 2010, líderes de igrejas pentecostais e neopentecostais vêm elegendo um número crescente de candidatos ao Congresso Nacional e também em Assembleias estaduais e municipais. Atualmente, parlamentares ligados à diferentes agremiações do protestantismo representam 15% dos eleitos, sendo 96 deputados e 16 senadores. Mas para entendermos a ascensão dos evangélicos na política brasileira faz-se necessário atentarmo-nos para o papel desempenhado pelos líderes das igrejas pentecostais no seio das relações sociais, de onde parte a construção de um projeto de poderpautado, sobretudo, pelo moralismo e pela promessa de prosperidade. 

Dada a característica maniqueísta do pentecostalismo, que enxerga o mundo em constante “batalha espiritual” entre o bem e o mal, as missões pastorais encontraram terreno fértil nas periferias do país, em contextos de maior precariedade político-social. Assim, , nos lugares em que o Estado sempre mostrou-se ineficaz na promoção do mínimo de dignidade ao povo, as igrejas evangélicas cumpriram seu papel social de acolhimento e pertencimento àqueles que até então sentiam-se preteridos e injustiçados. Somando-se a isso, o movimento de grande  solidariedade e comunhão  promovido pelas igrejas, potencializado pelo fácil acesso ao culto e a proximidade com os pastores (que passaram a assumir várias funções assistencialistas), fez com que o pentecostalismo se expandisse cada vez mais pelos centros urbanos. A partir daí, tomada a consciência da sua importância numérica e do seu capital político, os líderes evangélicos passaram a reivindicar um reconhecimento maior ante o Estado, recursos públicos e apoio para suas pautas moralizantes. 

O primeiro movimento neste sentido refere-se ao controle midiático. Em grande parte inspirados pelo modelo de Igreja dos Estados Unidos, os evangélicos do tipo pentecostal, passaram a ter profunda consciência do poder da mídia na construção de comunidades de fé, e se deram conta de que os órgãos de comunicação no Brasil, sendo concessões públicas, são mediados por relações de influência com o poder constituído. Daí surgem boa parte dos interesses político dos principais líderes evangélicos do país, que veem nos meios de comunicação uma importante ferramente de evangelização e pedagogização. 

Na esteira dessa  dialética (neo) pentecostal, deu-se também  o fortalecimento das teologias da libertação e da prosperidade, amplamente propagadas pelos canais gospeis. De acordo com essa teodicéia, os problemas e as aflições terrenas passaram a apresentar constante interferência espiritual, deslocando o centro gerador dos problemas do campo físico e social para o campo metafísico e espiritual. Ou seja, nessa lógica, nenhum filho de Deus pode adoecer ou sofrer, pois isso seria uma clara demonstração de ausência de fé e da interferência de espíritos malignos. Sob a égide dessa teologia que rechaça o sofrimento, a pobreza e a doença como condições da vida terrena, o fiel se compromete com as leis da prosperidade mediante a contrapartida do dízimo e outros sacrifícios, como forma de alcançar a abundância e livramento pelos males que o assolam. Esse movimento também foi um importante mecanismo de cooptação de fieis, que ensejou no fortalecimento dos evangélicos no campo político pela ideia de que o poder de Estado deveria pertencer à igreja, a única capaz de oferecer a “libertação” das mazelas político-sociais e dos problemas econômicos que afligem o país. 

Atrelado a isso, a luta pela pauta moral intensificou nos evangélicos a inclinação para a construção de um Estado cristão a partir de um crescimento sistêmico da Igreja noBrasil. O resultado disso foi a disseminação dofundamentalismo e seu discurso  impregnado pela lógica vingativa e punitivista do Antigo Testamento, reprodutor de conteúdos bíblicos descontextualizados, literalistas e sem a devida hermenêutica; difusor de uma mensagem “fácil” e acrítica, feita para atingir as pessoas que encontram-se “perdidas” e que se sentem à deriva em meio às diversas transformações político-sociais que assolam a sociedade. Dessa seara parte toda sorte de conteúdo moralizante, que tem como premissa básica o domínio dos corpos e mentes para uma suposta conservação da família tradicional e manutenção dos valores cristãos, que acabam por perpetrar o poder da Igreja em âmbitos social e político. Partem daí a recusa das conquistas de direitos pelos  LGBT’s, a tentativa de domínio dos corpos femininos pela negação de direitos como o aborto, a intolerância às religiões não evangélicas, sobretudo as de matriz africana, e a maculação à laicidade do Estado. Bem por isso os políticos ultraconservadores, como Jair Bolsonaro, alinhavaram seus discursos aos valores cristãos propagados pelo pentecostalismo como forma de ascensão ao governo, usando como uma de suas principais ferramentas a  demonização das pautas progressistas em vigor nos governos do PT.  

Do slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” à reprodução incansável do versículo “E conheceis a verdade, e a verdade vos libertarás” (João 8:32), Bolsonaro conseguiu capturar o imaginário dessa parcela de evangélicos interessados na instituição de um Estadocristão aos moldes (neo) pentecostais. Não à toa, diante de uma avaliação popular em queda, Jair Bolsonaro matemmenor índice de rejeição entre os evangélicos, 27%, enquanto esse percentual entre católicos é de 42%, entre espíritas, 46% . Considerado um dos pilares de sua base de apoio, o grupo religioso é a aposta do presidente na garantia de governabilidade e como propulsor em uma possível reeleição. Para tanto, o presidente tem se empenhado na indicação de evangélicos para cargos públicos e até cogitou a indicação de um religioso para posto de vice-presidente em 2022. Além disso, tem concedido benefícios fiscais a templos cristãos, aprovado projetos que reforçam a pauta de costumes e levantado a bandeira conservadora contra pautas como a “ideologia de gênero” nas escolas. Em síntese, a “troca de favores” entre igrejas e governo tem se mostrado profícua para ambos os polos na disputa pelo poder, conforme confirma as palavras do pastor e deputado federal Marco Feliciano em entrevista à Folha de São Paulo em setembro, “Ele [Bolsonaro] queria louvar o movimento evangélico, porque nós temos público. Você traz os pastores e as ovelhas vêm junto.” 

Por Carolina Rodrigues 

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