Home Angola Notas d’Angola (1): A surda luta interna da UNITA

Notas d’Angola (1): A surda luta interna da UNITA

Apesar da aparente calma que reina no principal partido da oposição em Angola, a batalha pela sucessão de Isaias Samakuva fervilha nos corredores, sucedendo-se as intrigas e as conversasem surdina. Este clima agitado tem a sua causa próxima na incógnita que Isaias Samakuva teima em manter sobre a sua recandidatura.

É verdade que ele anunciou por diversas vezes que não se recandidatava, mas se cumprisse o anunciado já teria saído logo após as eleições. Um movimento “espontâneo” criado por si e pelos seus mais directos colaboradores serviu de desculpa para a continuação. Desta vez o mesmo movimento “espontâneo” exactamente com a mesma origem surgiu. O objectivo? Que Samakuva permaneça como Presidente. Como? Recandidatando-se.

A coisa é estatutariamente legal, mas os meios que estão ser usados não o são certamente.

Samakuva começou por não declarar na marcação do Congresso se era ou não candidato. Uma quase tradição existente. A partir dessa altura não repetiu mais que iria sair apesar da insistência dos jornalistas. Mas foi mais longe e numa das últimas reuniões da Comissão Permanente perante as críticas sobre os gastos e sobre o comportamento da sua equipa, ameaçou “e se eu me recandidatasse?…”

Quebrando outra quase tradição impôs sem permitir a discussão uma equipa organizadora do congresso onde os lugares importantes são ocupados pela sua equipa. A importância disso tem a haver com a creditação dos delegados que votarão no novo Presidente.

Mas o assunto não se limitou a isso. Tornou-se bem mais grave quando o seu secretário-geral ou o secretário-geral adjunto começaram a viajar por todas as províncias com as mais diversas desculpas e em privado começaram a exigir aos secretários provinciais que assinassem um documento apelando à recandidatura de Samakuva.

O comportamento foi denunciado e tornou-se mais persuasivo. Assinas o apelo e tens aqui dinheiro e um carro novo, não assinas e não levas nada. O velho método do Mpla para torpedear a Democracia.

Ao mesmo tempo as intrigas absurdas sobre os potenciais candidatos em particular aquele que parece reunir maior consenso, Adalberto Costa Junior, surgem em por todo o lado, lançadas por quem não tem nem inteligência nem carisma para fazer melhor.

Mas a reação contra este plano do Mais Velho Samakuva parece ser generalizada dentro e fora do Partido. O plano B do líder do Galo Negro parece ser lançar um fantoche na corrida, que o possa propor para ser candidato a Presidente de República em 2022. E quem poderia ser esse fantoche? José Pedro Kachiungo ou Paulo Lukamba Gato. Que nunca esconderam a sua ambição pelo cadeirão, já fizeram tentativas anteriores, mas cujas acções no passado marcaram pela negativa, os militantes e o próprio Partido. Individualmente e sozinhos não teriam hipótese, apoiados pela máquina de Samakuva podem pensar que sim.

Sobrepondo-se a todo este plano e até se cruzando com ele, aparece o plano de parte da familia de Savimbi.Os seus esforços concentram-se em Rafael Massanga, secretário-geral adjunto da UNITA, o filho que fisicamente e somente isso se parece mais com Jonas Savimbi. Apoiado por alguns dos seus irmãos e alguns dos seus primos jogam em mais um mandato de Samakuva para tomarem conta do Partido num próximo mandato. Jogam na velha tradição africana, como se a UNITA continuasse a ser pertença do fundador.

Existem ainda outros proto-candidatos como Raul Danda que nunca o poderá ser por não cumprir as exigências estatutárias da UNITA.

Mas o candidato que parece reunir todas as condições e apoios para avançar é Adalberto Costa Junior, lider parlamentar do Partido. Que assusta Samakuva, pelo seu conhecimento dos podres internos e em particular financeiros do aparelho samakuvista e dos seus acessores. Mas que fundamentalmente assusta o governo angolano, pois pode roubar ao MPLA uma fatia substancial da sua base de apoio, principalmete dentro das camadas jovens. O que Samakuva não fará certamente.

Por este motivo não é de estranhar que estando a UNITA sem reservas financeiras, gastas na operação das exéquias de Jonas Savimbi, apareça dinheiro para tentar comprar secretários provinciais e outros delegados ao XIII Congresso. Os fundos do MPLA chegam sempre para comprar quem queira perder eleições.

Nesta ultima fase, parecem portanto estar definidos os candidatos: José Pedro Kachiungo, que apresentou a sua pretensão numa reunião do Grupo Parlamentar e se tem mantido mudo e calado, Adalberto da Costa Junior, que se apresentou como candidato numa reunião da Comissão Permanente e que tem sido chamado a intervir um pouco por todo o país, e Lukamba Gato que se vem apresentando nas redes sociais com textos apelando à reconcilição do todos os angolanos e mostrando a sua submissão a Sexa. Dr. João Lourenço (assim mesmo)

O que reserva o futuro próximo da UNITA?

Para mim, que me habituei a ver a integridade e o sentido patriótico e democrático de um conjunto de Mais Velhos da UNITA, como Samuel Chiwale, Erneste Mulato, Demóstenes Chilingutila, Eugénio Manuvakola, Correia Victor, Isaías Chitombi, Chipindo Bonga, Horacio Junjunvili e tantos outros, esperar que ajam. Que acabem com esta deriva ditatorial de Samakuva. Que acabem com esta corrupção de Marcolinos e Cláudios. Que sejam os guardiões do “espirito de Muangai”.

E… que os delegados ao XIII Congresso do Galo Negro, saibam votar em quem acreditam e não em quem os tenta comprar.

Aurélio Vida de Deus

Foto de destaque:  RNW.org on VisualHunt.com / CC BY-ND

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