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Angola, os soviéticos e cubanos e os Nacionalistas vários

por Joffre Justino

Estamos a continuar uma resposta ideológica a um grupelho trotskista que setariamente separa as Esquerdas brasileiras, do Povo trabalhador brasileiro imigrado em Portugal gerando falsas respostas de um pseudo ativismo fazendo lembrar as loucuras a que assisti mesmo estando em Portugal, que em Angola se vivia desde o 25 de abril de 1974

Para tal vou deixando textos uns mais outros menos radicais que serão lidos por quem quiser conhecer a Historia real de Angola 

O texto sobre o qual continuo o debate veio parar-me ao meu whatsapp por via de um quadro do MPLA que considero amigo e um dos poucos que encontro nas manifestações da CGTP em Lisboa, de Esquerda que é, ( sendo hoje tal bem poucos no MPLA ) 

Fiz parte dessa extrema esquerda maoista que Rui Ramos recorda no texto que uso criticamente, pois mesmo em 1974, apesar de ambos maoistas, estávamos em posicionamentos ideologicamente maoistas diversos, porque fazíamos analises radicalmente diversas da realidade, quer a portuguesa, quer sobretudo a angolana 

Para não complicar ainda mais o debate relatarei não aqui a razão que me deixou dependurado em Lisboa, mas posso dizer que parte de tal se deve ao meu, infelizmente ja não vivo, ao meu amigo Narciso da Costa Andrade que me disse em 1971/1972 que os brancos não podiam ir para as matas, para a guerrilha, por o serem !

Afastei-me então do grupo que iria estar no nascimento dos Comités Henda ( linha maoista tipo MRPP, para simplificar) mantendo contatos de amizade e militância

 associativa e anti colonial claro, até porque respeitava muito o já falecido Saldanha Sanches um fundamental dirigente do MRPP irmão de uma então companheira de um dos responsáveis dos Henda 

Mas acompanhemos o texto de, 

Rui Ramos*

Angola: a extrema-esquerda há 25 anos

5 de Fevereiro de 2000,

Passados 25 anos sobre a tomada de posse do Governo de Transição de Angola (GT) continua a ser esquecido o fenómeno da extrema-esquerda angolana da altura, organizada nos Comités Amílcar Cabral (CAC) como tendência do MPLA, em cujo comité central estavam representados. Os CAC, provenientes do movimento estudantil da Universidade de Luanda, tinham um activismo surpreendente, e apoiavam criticamente Agostinho Neto contra as tendências “Revolta Activa”. “Revolta do Leste”, FNLA, UNITA, FUA. 

                            Eis a primeira divergência pois   se em 1974 ainda apoiávamos o MPLA defendia o respeito aos 3 movimentos de libertação e ainda e por erro não soubemos entender a importância da comunidade luso angolana, branca, mulata e negra, questão sobre a qual só refletimos ja em 1975 espantados que ficámos com o fenómeno “retornados” abandonados por todos – americanos, soviéticos, angolanos ( exceto a UNITA e o MDA, Movimento Democrático Angolano que mais tarde aderiu ao MPLA liderado que foi pelo que mais tarde foi juiz angolano, apesar de nascituro em Portugal, Eugénio Ferreira, marxista, um especial assumido comunista e um quase fundador do MPLA, um cidadão muito respeitado por todas as étnicas comunidades) e sobretudo abandonados pelos portugueses ( tirando uma ponte aérea e uns subsídios que foram recebendo) 

                          Realmente esta visão setaria face à UNITA e à comunidade portuguesa ( branca, mulata e negra ) correspondia a uma tese onde predominava a tese classe contra classe onde em Angola se confunde nesta extrema esquerda ( sejam os CAC / OCA sejam os Henda) o Negro / Angolano, contra o Branco / Portugues em nada seguindo a visão maoista de alianças de classe para ( à Suntzu) isolar o inimigo, no caso o poder colonial fascista, o que será o desastre obvio para estes grupos 

O seu primeiro grande comício fora de Luanda realizou-se no Huambo, em Agosto de 1974, onde lançámos a consigna “não há independência completa sem democracia popular”. Na altura, recordo-me, as populações dos quimbos do planalto central não conheciam Jonas Savimbi mas sim Daniel Chipenda. Quem falava muito de Savimbi eram os colonos portugueses e em especial os madeireiros do Leste. Cerca de um mês depois, estávamos entre os soldados angolanos que, exigindo a desmobilização do exército português, arriaram e rasgaram em pedaços a bandeira portuguesa no quartel do Huambo, ante a passividade do comando português. Após a tomada de posse do GT, lançámos a palavra de ordem “poder popular contra o governo burguês”, um pouco à maneira do livro “13 Teses” de Lenine, que editei em Luanda nessa altura. Era uma guerra ideológica sem quartel que culminou com a 1ª Assembleia Popular de Luanda, na qual participaram cerca de 50 mil pessoas com os seus instrumentos de trabalho. 

                               Como vemos eis um Apelo ao “poder popular contra o governo burguês que teria arrepiado Nelson Mandela se tivesse sido Angolano, como obviamente arrepiou Jonas Savimbi que em 1965/6 ja tinha células clandestinas do que viria a ser a UNITA ao contrario do que inventa Rui Ramos ( recordo o Jaka Jamba entre outros ) fortemente implantada no planalto central por via da influência das igrejas cristãs americanas que formaram a ala de Direita da UNITA, hoje nela dominante ( em 1992 mesmo com a Fraude eleitoral a UNITA venceu largamente nessa região Angolana) 

Éramos contra a FNLA e a UNITA e pressionávamos os ministros do MPLA a assumir posições defensoras dos trabalhadores. A FNLA de Holden Roberto ameaçou atacar a concentração, no estádio de S. Paulo, pelo que tivemos de pedir protecção militar ao MPLA. Cerca de três meses depois pretendíamos lançar um demolidor 1º de Maio contra as “forças reaccionárias no Governo” e contra os “lacaios do imperialismo”. A manhã acordou fresca e com os soldados zairenses da FNLA a cercarem o local e a atirar rajadas de metralhadora contra as pessoas que tentavam manifestar-se. Não desistimos e, passados 20 dias, no mesmo local, concentrámos cerca de cem mil pessoas que aprovaram um caderno reivindicativo em 18 pontos, que foi apresentado ao GT, (traduzo : governo de transição) já completamente dividido e inoperante. Os massacres contra as “massas trabalhadoras pelas forças reaccionárias internas”, a “destituição imediata do alto-comissário português general Silva Cardoso”, acusado por nós de favorecer a FNLA, a “expulsão de Angola dos ex-pides”,  ( traduzo : que na verdade em geral foram quem ajudou americanos e soviéticos a empurrar portugueses e luso angolanos para fora de Angola) que estavam a integrar-se na FNLA (onde se integraram militares portugueses seguindo o luso angolano Santos e Castro e meia dúzia de mercenários brasileiros como já vimos tal qual houve comandos brancos portugueses nas Fapla na batalha do kingangondo) e na UNITA, “a repressão contra os estudantes pelo ministro da UNITA”, a “sabotagem à economia nacional com a fuga dos técnicos portugueses”, a “inflação”, a “ingerência do Governo nas questões capital-trabalho, os despedimentos arbitrários, o horário de 40 horas semanais” eram alguns dos pontos do caderno, que juntava preocupações independentistas, políticas a reivindicações laborais. Fazendo eco do nosso radicalismo, o comício gritou, em uníssono, por uma “larga frente anti-imperialista”, por um “partido do proletariado”, por um “exército popular dirigido pelo partido” e por uma “guerra popular prolongada” contra “os lacaios angolanos do imperialismo”. 

                                     E houve sim houve má compreensão da UNITA do que é um movimento estudantil em processo de mudança ha que o dizer tendo sido no Movimento estudantil que se reforçou os comités Amilcar Cabral de onde sairam estas urbanas teses que estão bem longe dos que vivem nas sanzalas do interior e ainda hoje pouco falam portugues e quase ninguém entenderia esse revolucionário discurso,  ja que ao tempo existiriam no total 15% de angolanos  a trabalharem na Industria e serviços ( hoje ainda menos) e cerca de 85% na agricultura o que como diria Marx ou Mao o essencial é lidar com a agricultura e o ruralismo  

A nossa posição era desfavorável à permanência dos portugueses em Angola porque essa comunidade, assustada pelo comunismo do MPLA e pelo nosso “poder popular”, aderiu em peso à FNLA e à UNITA. 

                           E claro ao contrario de Mao e Mandela nada como correr com o inimigo … 

Desencadeámos inúmeras greves nas fábricas contra os “patrões reaccionários” e contra a “sabotagem económica” e conseguimos paralisar o ensino com uma greve geral contra o ministro da UNITA Jerónimo Wanga que era apoiado por muitos professores portugueses. 

                                   E que bom foi rebentar com a economia para de mão beijada a entregar à tese da divisão internacional do trabalho ( fabricas de açúcar para Cuba etc, já que o patronato reacionário foi recambiado para Portugal para dar força ao PSD e ao CDS…) 

Os CAC dominavam as estruturas de ideologia, política e propaganda do MPLA em todo o país, bem como os Centros Operacionais militares de muitas regiões e a própria politização das forças armadas do MPLA. Chegou a haver uma fase em que, na verdade, “nós éramos o MPLA” e no nosso seio agudizava-se a discussão a favor e contra o “entrismo”. Agostinho Neto apoiou-se nessa força da extrema-esquerda para vencer a FNLA e a UNITA em meados de 75. 

                     A ingenuidade estudantil está patente neste texto escrito em 2000 mil, 25 anos depois onde se confunde agitprop com liderança política esquecendo que em política sobretudo a revolucionária o que conta é o longo  prazo a fusão com o Povo entendendo bem os seus objetivo para os amanhãs desejados sendo verdade que como refere Rui Ramos foram usados ( como Trotsky na revolução russa…?) e deitados logo, logo, fora ! 

Mas durou pouco esse idílio. Senhor da situação, Neto foi buscar Nito Alves (que estava ligado às posições do PCP e dos soviéticos) para destruir o poderio dos CAC. Infiltrado na polícia política (onde os CAC nunca entraram), Nito desencadeou uma perseguição impiedosa contra todas as posições dos CAC em todo o país. Perseguido noite e dia, eu próprio tive de abandonar chefia da redacção do jornal “Vitória Certa”, órgão oficial do MPLA – recusando-me a publicar um texto de Nito Alves, agora conselheiro de Neto – a coordenação da minha comissão de bairro, e vi seladas as instalações dos jornais “Angola” e “Poder Popular”, de que era director. Em Setembro de 75, já com os portugueses em fuga precipitada, os CAC dissolvem-se, dando origem à clandestina Organização Revolucionária de Angola (ORA), mais tarde Organização Comunista de Angola (OCA), que se manifestou contra a “agressão sul-africana e soviético-cubana” a Angola. 

                                E lá vêm as culpas atiradas para o Nito Alves, que ja tinha andado à volta dos Henda, para depois entendendo o então “poder dos sovietes russos” se aprimorou na limpeza desses maoistas em treino da que seria ( em 75/6) a limpeza de Luanda da UNITA pois na verdade perceber o que é a luta de classes passa por entender a luta inter castas no poder e nela perceber tambem as alianças inter castas e aqui ha que relatar uma prova da também ingenuidade de Jonas Savimbi  1975 relatada por Samuel Chiwale em “Cruzei-me com a História” que ouviu Savimbi responder a uma pergunta de um tal Teixeira da Silva sobre que MPLA ele reconhecia ( o de Chipenda, o dos Pinto de Andrade ou o de Agostinho Neto divididos no Congresso de Lusaka, onde os Pinto de Andrade foram os vencedores) disse “ Essa questão ja foi abordada pelo Bureau Politico e Comité Central da UNITA … a nossa escolha recai sobre o dr Agostinho Neto. Para nós ele é o presidente do MPLA” 

Pode-se pois dizer que tanto Rui Ramos quanto Savimbi caíram numa esparrela ( a capacidade de liderança de Neto) que só largos anos depois ( e não muito bem) o angolano historiador Carlos Pacheco desmontará 

No dia 11 de Novembro de 1975, Luanda cercada a norte e a sul, já era uma cidade africanizada, sem portugueses. A extrema-esquerda estava na clandestinidade e lança panfletos contra o regime ditatorial de Neto e contra as invasões estrangeiras, o que enfurece o MPLA, que não sabe lidar com essa tendência política não-armada. A nova polícia política (DISA) modelada nas suas congéneres cubana e soviética, procura desesperadamente o centro dessa contestação. Em 1976 o MPLA abateu a primeira vaga de repressão contra a OCA, prendendo cinco dos seus líderes, enquanto outros cem quadros continuavam a fazer trabalho clandestino, editando o jornal “Revolução Popular”. Antes, quinze dias a seguir à independência, o bureau político do MPLA dá ordens à polícia política para me prender. “Vamos prender os marxistas-leninistas!”, atirou-me, à porta de minha casa, o agente que me deteve, às 2 horas da manhã. 

                             Em 11 de Novembro de 1975 os OCA estão na clandestinidade estão contra as invasões estrangeiros sovieto-cubanas e sul africanas o que divulgam em comunicado dando origem a uma repressão que leva à prisão de mais de cem “oca’s” … e imaginem quem os salva? Os capitalistas burgueses via Antonio Eanes entre o PR vencedor do 25 de novembro de 1975 que pôs o “poder popular” portugues fora de jogo 

Na verdade, estive na luta pela Libertação destes “oca’s” como na dos “revolta ativa” ou dos nitistas 

O golpe de Estado de Nito Alves, de Maio de 1977 escreveu nas paredes de Luanda “Abaixo os maoístas e seus aliados sociais-democratas”. Isto é: enquanto Neto lançou Nito contra a extrema-esquerda, Lúcio Lara (alegadamente social-democrata) fazia aliança com a OCA contra a influência de Moscovo. Em 1978 a segunda vaga de repressão contra a OCA atirou para a cadeia de S. Paulo cerca de cem jovens quadros da extrema-esquerda, negros, mestiços e brancos. A acção da extrema-esquerda angolana em 1975 e o seu fantástico activismo contra “os reaccionários portugueses”, contra a FNLA, UNITA, e contra as agressões sul-africana, zairense e sovieto-cubana tem sido esquecida. A grande ironia da política angolana dessa altura: Neto apoia-se em Nito para destruir a extrema-esquerda do MPLA e, em menos de dois anos, Nito faz um golpe de Estado contra Neto. 

                                 Tanta ingenuidade ..  

Joffre Justino 

Imagem destaque: Lusa 

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