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Hábitos de Actividade Física e Práticas de Lazer em Adolescentes e Jovens das Províncias do Sul de Moçambique

por Editor

SAVECA, Paulo Tibério Armando
NHANTUMBO, Leonardo Lúcio

RESUMO

Introdução: Estudos centrados nos padrões de actividade física e práticas de lazer em adolescente e jovens realizados em Moçambique são diminutos. Objectivos: O presente estudo teve como objectivo principal, identificar e comparar as principais práticas de lazer e o lugar que as actividades físicas e desportivas ocupam na vida quotidiana dos adolescentes e jovens das províncias do Sul de Moçambique. Material e Métodos: Constituiu a amostra do nosso estudo 2517 adolescentes e jovens, 1344 do sexo feminino e 1173 masculinos, provenientes das províncias de Cidade de Maputo, Maputo, Gaza e Inhambane, com idades compreendidas entre os 12 aos 24 anos de idade, frequentando entre a 8ª e 12ª classes em estabelecimentos de ensino de 8 distritos. Para avaliarmos as práticas, utilizamos o questionário desenvolvido por CLOES et al. (1997), que pretende identificar as actividades habituais de lazer dos adolescentes e jovens. Resultados: As actividades praticadas pela média mais elevada dos adolescentes e jovens das províncias do Sul de Moçambique podem ser classificadas como lazeres não activos, verificando-se que a participação no “desporto não orientado” é indicada em 10° lugar com (3.29 ± 1.313) e no “desporto orientado ou de competição” em 14° lugar com (2.88 ± 1.339). Os mesmos atribuem maior importância ás práticas “Conversar com amigos/a” (4.50 ± 0.878) e “Fazer trabalhos da escola” (4.41 ± 0.930) e menor significado é atribuido ás práticas “Trabalhar para ganhar algum dinheiro” (2.17 ± 1.352) e “Participar em actividades de Arte e Expressão” (2.20 ± 1.217), segundo ilustra a tabela. Conclusões: As práticas de actividades físicas e desportivas não fazem parte do tempo livre e de lazer no quotidiano dos adolescentes e jovens das provincias do Sul de Moçambique. Os inqueridos de Inhambane são mais activos em relação aos das restantes províncias. Os rapazes, os adolescentes e os oriúndos das zonas rurais, mostram-se mais activos em relação aos seus pares.

Palavras-Chave: Hábitos; Actividade Física; Práticas de Lazer; Adolescentes e Jovens.

INTRODUÇÃO

A prática desportiva, realizada no âmbito de actividade de lazer, faz parte do estilo de vida das crianças (KULIG et al., 2003). Porém, essa prática começa a diminuir durante a adolescência (TELAMA e YANG, 2000), principalmente no seio das meninas (MOTA et al., 2002; SEABRA et al., 2008).

O estilo de vida, entendido como o conjunto de comportamentos e hábitos do indivíduo, que podem afectar a saúde, tem vindo a ocupar um lugar cada vez de maior importância em relação à saúde e à qualidade de vida dos indivíduos. A Actividade Física (AF), como um dos comportamentos sobre o qual o indivíduo detém uma larga margem de controlo voluntário, é encarada como o produto de um padrão de comportamento. Deste modo, a AF e o desporto deverão ser vistos, na sua maior abrangência, como partes integrantes de um estilo de vida (SANTOS et al., 2005).

Na actualidade, o uso maciço de automóveis e o tempo gasto em actividades sedentárias de lazer, como o visionamento da televisão, promovem estilos de vida sedentários em todas as idades, inclusive na infância e adolescência. De facto, e corroborando com MEIER et al. (2007), o hábito de assistir a televisão, usar o computador ou jogar videogame, como actividades de lazer, contribuem para um estilo de vida sedentário. Contudo, através da promoção da AF em casa, na escola e nos espaços de lazer, o nível de prática de actividades tende a aumentar, concorrendo consequentemente para a redução de actividades sedentárias. De acordo com estudos americanos, crianças que assistem menos televisão por semana, tendem a apresentar os melhores resultados, quanto ao desenvolvimento motor (GRAF et al., 2004).

MATERIAL E MÉTODOS

Amostra

Constituiu amostra do presente estudo, 2517 adolescentes e jovens, dos quais 1344 do sexo feminino e 1173 masculinos, provenientes das quatro (4) províncias do Sul de Moçambique, nomeadamente, Cidade de Maputo (659 sujeitos), Província de Maputo (625 sujeitos), Província de Gaza (614 sujeitos) e Província de Inhambane (619 sujeitos), com idades compreendidas entre os 12 aos 24 anos, frequentando entre a 8ª e 12ª classes em estabelecimentos de ensino de 8 distritos.

Instrumentos

A recolha dos dados foi feita com o recurso ao questionário desenvolvido por CLOES et al., (1997), o qual consiste na identificação das actividades habituais de lazer dos adolescentes e jovens. O instrumento é composto por 21 questões (itens), respondidas em escala tipo Likert de cinco pontos, sendo que a pontuação (1) refere-se às actividades que “definitivamente não fazem parte do dia-a-dia”; (2) às que ”raramente fazem parte”; enquanto que as actividades praticadas ”às vezes”; ”quase sempre” e ”sempre”, correspondem às pontuações (3), (4) e (5), respectivamente.

As alternativas de respostas dizem respeito a hábitos de lazer hedonistas, lúdicos e instrutivos que de certa forma representam as actividades preferidas por adolescentes nos seus momentos de tempo livre. As questões 8 e 19 do referido questionário, dizem respeito a prática de actividades físicas/desportivas com e sem orientação profissional respectivamente, permitindo assim caracterizar os adolescentes e jovens como tendo hábitos de lazer activos ou como sedentários, ou seja, o tempo dedicado às práticas de activas.

Procedimentos Estatísticos

A análise estatística dos dados foi efectuada no programa estatístico SPSS, versão 15.0, com um nível de significância fixado em 0.05%, tendo compreendido as seguintes etapas: aplicação do teste de Kolmogorov-Smirnov para efeitos de verificação da normalidade da distribuição dos dados, que evidenciaram uma distribuição normal; cálculo das medidas de estatística descritiva básicas, isto é, a média e desvio padrão; comparação das médias obtidas nas diferentes questões contidas no questionário em função do sexo, de grupos etários e da zona sociogeográfica aplicou-se a T-Teste de medidas independentes; e a comparação dos valores médios entre as quatro províncias estudadas, com o recurso à Análise da Variância (ANOVA) unifactorial.

RESULTADOS

Resultados descritivos gerais

Os resultados descritivos relativos à globalidade da amostra permitem concluir que, as cinco actividades que maior pontuação foram atribuídas são eminentemente de lazer passivo, nomeadamente “Conversar com amigos (as)” (4.50±0.88), ”Fazer trabalhos da escola” (4.41±0.93), ”Ajudar nos trabalhos domésticos” (4.28±1.08), ”Ouvir música” (4.24±1.01) e ”Ver televisão ou vídeo” (4.19±1.04). Por outro lado, e relativamente às três actividades que foram atribuídas menor pontuação os resultados destacam os seguintes hábitos de lazer: “Trabalhar para ganhar algum dinheiro” (2.17±1.35) e “Participar em actividades de Arte e Expressão” (2.20±1.22) e “Ir à festa/discoteca (bares/restaurantes/barracas)” (2.33±1.19).

É curioso e interessante, entretanto, notar que a participação no “desporto não orientado” (3.29±1.31) e no “desporto orientado ou de competição” (2.88±1.34), são indicadas em 10° e 14° lugares, respectivamente. Estes resultados, na sua generalidade, espelham claramente que as práticas de actividades físicas e desportivas não fazem parte do tempo livre e de lazer no quotidiano dos adolescentes e jovens das províncias da região sul de Moçambique.

Tabela 1: Resultados descritivos referentes à generalidade da amostra

  Rank   Práticas de Lazer Globalidade (N=2517) M±DP
Conversar com amigos(as) 4.50 ± 0.88
Fazer trabalhos da escola 4.41 ± 0.93
Ajudar nos trabalhos domésticos 4.28 ± 1.08
Ouvir música 4.24 ± 1.01
Ver televisão ou vídeo 4.19 ± 1.04
Ler (livros, revistas, banda desenhada) 3.91 ± 1.31
Ir à Igreja 3.74 ± 1.29
Visitar parentes ou pessoas conhecidas 3.60 ± 1.10
Tocar música ou cantar 3.44 ± 1.40
10ª Praticar desporto não orientado (correr, jogar a bola,…) 3.29 ± 1.31
11ª Estar só (relaxar, pensar) 3.23 ± 1.24
12ª Assistir a acontecimentos desportivos 3.09 ± 1.22
13ª Fazer compras ou ver montras 3.01 ± 1.14
14ª Praticar desporto orientado/competição (treinos/jogos) 2.88 ± 1.34
15ª Jogar: cartas, vídeo game ou computador 2.77 ± 1.21
16ª Namorar, estar com namorado(a) 2.68 ± 1.28
17ª Realizar trabalhos de solidariedade social 2.42 ± 1.22
18ª Participar em associações/movimentos juvenis 2.36 ± 1.30
19ª Ir à festa/discoteca (bares/restaurantes/barracas) 2.33 ± 1.19
20ª Participar em actividades de arte e expressão 2.20 ± 1.22
21ª Trabalhar para ganhar algum dinheiro 2.17 ± 1.35

Comparação em função do sexo

Os resultados da comparação dos valores médios da pontuação atribuída a cada actividade de lazer em função do sexo, revelam que, à excepção das práticas de lazer “Ouvir música”, “Realizar trabalhos de solidariedade social“, “Ir à festa/discoteca (bares, restaurantes, barracas)“ e “Participar em associações/movimentos juvenis“, em que a pontuação média atribuída não difere entre os dois sexos (p> 0.05), nas restantes práticas de lazer existem diferenças estatisticamente significativas. De facto, as meninas, por exemplo, lêm significativamente muito mais que os rapazes (p<0.001); por conseguinte, estes jogam mais cartas, vídeo game ou computador; namoram mais e conversam e despendem mais tempo com as namoradas em relação às raparigas (p<0.001). Estes resultados permitem ainda constatar que a prática de lazer “Fazer trabalhos da escola” é a mais valorizada pelos dois sexos, se bem que as meninas levam a maior (p<0.001). Por outro lado, as meninas despendem maior tempo visionando a televisão (p<0.001) em relação aos meninos, verificando-se o inverso na prático do desporto, quer orientado, quer não orientado, onde os rapazes se envolvem mais que as raparigas (p<0.001). Refira-se, também, que as meninas despendem mais tempo a “Ajudar nos trabalhos domésticos” do que os seus pares do sexo oposto (p<0.001).

Tabela 2: Resultados da comparação dos valores médios da pontuação atribuída a cada actividade de lazer em função do sexo

  Práticas de Lazer Sexo
Masculinos (N=1173) Femininos (N=1344) t p
Ler (livros, revistas, banda desenhada) 3.81 ± 1.10 4.01 ± 1.45 3.880 0.000
Jogar: cartas, vídeo game ou computador 2.99 ± 1.25 2.57 ± 1.14 – 9.012 0.000
Namorar, estar com namorado(a) 2.81 ± 1.28 2.56 ± 1.27 – 4.948 0.000
Conversar com amigos(as) 2.54 ± 0.82 4.46 ± 0.93 – 2.070 0.039
Trabalhar para ganhar algum dinheiro 2.43 ± 1.37 1.94 ± 1.29 – 9.371 0.000
Ver televisão ou vídeo 4.08 ± 1.08 4.29 ± 0.99 5.021 0.000
Tocar música ou cantar 3.30 ± 1.44 3.56 ± 1.35 4.681 0.000
Praticar desporto orientado/competição (treinos/jogos) 3.20 ± 1.34 2.59 ± 1.27 – 11.702 0.000
Fazer trabalhos da escola 4.32 ± 0.98 4.49 ± 0.87 4.780 0.000
Participar em actividades de Arte e Expressão 2.26 ± 1.27 2.14 ± 1.17 – 2.569 0.010
Ouvir música 4.26 ± 0.99 4.22 ± 1.03 – 0.767 0.443
Fazer compras ou ver montras 2.76 ± 1.14 3.22 ± 1.10 10.102 0.000
Ir à Igreja 3.57 ± 1.35 3.88 ± 1.23 6.146 0.000
Assistir a acontecimentos desportivos 3.44 ± 1.21 2.79 ± 1.14 – 13.763 0.000
Estar só (relaxar, pensar) 3.17 ± 1.23 3.28 ± 3.25 2.196 0.028
Realizar trabalhos de solidariedade social 2.46 ± 1.24 2.38 ± 1.20 – 1.527 0.127
Ir à festa/discoteca (bares/ restaurantes/ barracas) 2.37 ± 1.19 2.28 ± 1.20 – 1.904 0.057
Ajudar nos trabalhos domésticos 4.10 ± 1.14 4.42 ± 1.01 7.468 0.000
Praticar desporto não orientado (correr, jogar a bola..) 3.65 ± 1.24 2.99 ± 1.29 – 13.040 0.000
Visitar parentes ou pessoas conhecidas 3.50 ± 1.10 3.68 ± 1.10 3.906 0.000
Participar em associações/movimentos juvenis 2.35 ± 1.23 2.38 ± 1.32 0.613 0.540

Comparação em função da idade

No que se refere aos resultados em função da idade, tanto nos adolescentes como nos jovens, não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas (p> 0.05) nas práticas “Fazer trabalhos da escola”, “Conversar com amigos (as)”, “Ler“, “Visitar parentes ou pessoas conhecidas”, “Trabalhar para ganhar algum dinheiro”, “Tocar música ou cantar”, “Praticar desporto orientado/competição”, “Participar em actividades de Arte e Expressão”, “Ouvir música”, “Estar só”, “Realizar trabalhos de solidariedade social”, “Ajudar nos trabalhos domésticos”, “Praticar desporto não orientado” e “Jogar: cartas, vídeo game ou computador”, observando-se diferenças significativas nas restantes práticas. Por outro lado, os jovens na sua globalidade namoram e ficam mais tempo com namorado(a) (p<0.001) e visionam mais tempo a televisão ou vídeo (p<0.05) em relação aos adolescentes. Na mesma óptica, os jovens fazem mais trabalhos da escola e fazem compras ou vêm montras (p<0.05) em relação aos adolescentes. Por seu turno, os adolescentes assistem mais os acontecimentos desportivos e vão mais às festas/discotecas (p<0.05) em relação aos jovens, enquanto estes participam mais em actividades religiosas e em associações e movimentos juvenis (p<0.05) em relação aos adolescentes.

Tabela 3: Resultados da comparação dos valores médios da pontuação atribuída a cada actividade de lazer em função da idade

  Práticas de Lazer Idade
Adolescentes 12 – 18 anos (N = 1789) Jovens 19 – 24 anos (N = 728)   f   p
Ler (livros, revistas, banda desenhada) 3.91 ± 1.40 3.92 ± 1.04 2.324 0.128
Jogar: cartas, vídeo game ou computador 2.81 ± 1.23 2.67 ± 1.16 2.107 0.147
Namorar, estar com namorado(a) 2.54 ± 1.30 3.01 ± 1.16 85.722 0.000
Conversar com amigos(as) 4.50 ± 0.89 4.48 ± 0.86 0.037 0.847
Trabalhar para ganhar algum dinheiro 2.10 ± 1.35 2.32 ± 1.34 0.086 0.770
Ver televisão ou vídeo 4.16 ± 1.05 4.27 ± 1.00 4.210 0.040
Tocar música ou cantar 3.47 ± 1.39 3.35 ± 1.43 1.881 0.170
Praticar desporto orientado/competição (treinos) 2.95 ± 1.35 2.70 ± 1.30 0.110 0.740
Fazer trabalhos da escola 4.40 ± 0.94 4.45 ± 0.90 4.207 0.040
Participar em actividades de Arte e Expressão 2.22 ± 1.23 2.13 ± 1.19 3.554 0.060
Ouvir música 4.24 ± 1.03 4.24 ± 0.98 2.688 0.101
Fazer compras ou ver montras 2.96 ± 1.13 3.11 ± 1.18 4.621 0.032
Ir a Igreja 3.72 ± 1.31 3.78 ± 1.26 6.314 0.012
Assistir a acontecimentos desportivos 3.12 ± 1.23 3.02 ± 1.19 6.006 0.014
Estar só (relaxar, pensar) 3.19 ± 1.25 3.32 ± 1.21 0.102 0.749
Realizar trabalhos de solidariedade social 2.39 ± 1.22 2.48 ± 1.22 0.153 0.696
Ir a festa/discoteca (bares/ restaurantes/ barracas) 2.34 ± 1.21 2.28 ± 1.16 5.832 0.016
Ajudar nos trabalhos domésticos 4.26 ± 1.10 4.31 ± 1.05 3.729 0.054
Praticar desporto não orientado (correr, jogar a bola) 3.33 ± 1.31 3.21 ± 1.32 0.007 0.933
Visitar parentes ou pessoas conhecidas 3.59 ± 1.11 3.62 ± 1.08 2.632 0.105
Participar em associações/movimentos juvenis 2.29 ± 1.28 2.55 ± 1.33 4.176 0.041

Comparação em função da província (proveniência)

Em relação aos resultados da comparação dos valores médios da pontuação atribuída a cada prática de lazer em função da proveniência, podemos constatar que não existem diferenças estatisticamente significativas (p> 0.05) entre as quatro províncias em análise no que se refere às práticas “Conversar com amigos (as) ”, “Estar só (relaxar, pensar)” e “Praticar desporto não orientado”, contrariamente às diferenças observadas nas restantes práticas de lazer. No entanto, nota-se que os adolescentes e jovens das províncias de Inhambane e Gaza lêm mais (p<0.001) que os seus pares da Cidade e Província de Maputo. De facto, com a excepção dos adolescentes e jovens da província de Inhambane, os seus pares das restantes províncias em análise jogam mais cartas, vídeo game ou computador e visionam mais a televisão (p<0.001). Por sua vez, “Namorar ou estar com namorado(a)”, “Ouvir música” (p<0.001) e “Fazer compras ou ver montras” (p<0.01) são mais indicados pelos adolescentes e jovens da Cidade e Província de Maputo  em relação aos seus pares das restantes províncias em análise. Por outro lado, os adolescentes e jovens das províncias de Gaza e de Inhambane, despendem mais tempo participando em associações/movimentos juvenis, actividades religiosas, trabalhos de solidariedade social, visitas a parentes ou pessoas conhecidas e em trabalhos da escola (p<0.001) em relação aos seus pares das províncias da Cidade e Província de Maputo. Os adolescentes e jovens da Província de Inhambane participam mais na assistência aos acontecimentos desportivos (p<0.01), em actividades de arte e expressão (p<0.001) e na prática do desporto orientado/competição (p<0.01) em relação aos seus pares das restantes províncias em estudo. Porém, “Ir à festa/discoteca (bares, restaurantes,…)” é mais indicado pelos adolescentes e jovens da Cidade de Maputo (p<0.001). A participação nos trabalhos domésticos é mais indicada pelos adolescentes e jovens das províncias de Maputo e Gaza (p<0.001). “Tocar música ou cantar” é mais indicado pelos inquiridos da Província de Gaza (p<0.001). Refira-se também que, com a excepção das províncias de Maputo e Gaza, os adolescentes e jovens das províncias de Inhambane e Cidade de Maputo participam mais em actividades remunerativas com vista a ganharem algum dinheiro (p<0.001).

Tabela 4: Resultados da comparação dos valores médios da pontuação atribuída a cada actividade de lazer segundo a província

  Práticas de Lazer Províncias
Cid Maputo (N = 659) P. Maputo (N = 625) P. Gaza (N = 614) P. I’mbane (N = 619) f p
Ler (livros, revistas, banda desenhada) 3.61 ± 1.11 3.81 ± 1.83 4.12 ± 0.99 4.14 ± 1.04 25.278 0.000
Jogar: cartas, vídeo game ou computador 2.94 ± 1.29 2.78 ± 1.19 2.85 ± 1.16 2.47 ± 1.15 17.946 0.000
Namorar, estar com namorado(a) 2.83 ± 1.34 2.87 ± 1.22 2.70 ± 1.21 2.30 ± 1.26 27.152 0.000
Conversar com amigos(as) 4.47 ± 0.89 4.46 ± 0.91 4.50 ± 0.88 4.56 ± 0.84 1.574 0.194
Trabalhar para ganhar algum dinheiro 2.11 ± 1.30 1.96 ± 1.28 1.99 ± 1.27 2.61 ± 1.46 31.738 0.000
Ver televisão ou vídeo 4.29 ± 1.02 4.28 ± 0.99 4.23 ± 0.99 3.94 ± 1.11 16.183 0.000
Tocar música ou cantar 3.48 ± 1.43 3.43 ± 1.35 3.65 ± 1.32 3.18 ± 1.44 11.752 0.000
Praticar desporto orientado/competição 2.76 ± 1.37 2.89 ± 1.38 2.83 ± 1.25 3.04 ± 1.34 5.079 0.002
Fazer trabalhos da escola 4.21 ± 0.97 4.36 ± 1.01 4.57 ± 0.80 4.53 ± 0.88 20.877 0.000
Participar em actividads de Arte e Expressão 2.00 ± 1.12 2.23 ± 1.19 2.17 ± 1.19 2.39 ± 1.34 11.147 0.000
Ouvir música 4.40 ± 0.92 4.30 ± 1.10 4.10 ± 1.07 4.15 ± 1.04 11.709 0.000
Fazer compras ou ver montras 3.12 ± 1.09 3.05 ± 1.10 2.96 ± 1.15 2.88 ± 1.22 5.381 0.001
Ir a Igreja 3.61 ± 1.32 3.60 ± 1.31 3.95 ± 1.19 3.79 ± 1.31 10.769 0.000
Assistir a acontecimentos desportivos 3.00 ± 1.24 3.05 ± 1.26 3.09 ± 1.17 3.23 ± 1.18 4.298 0.005
Estar só (relaxar, pensar) 3.29 ± 1.23 3.22 ± 1.21 3.24 ± 1.22 3.15 ± 1.30 1.486 0.216
Realizar trabalhos de solidariedade social 2.24 ± 1.16 2.39 ± 1.15 2.50 ± 1.22 2.55 ± 1.32 8.279 0.000
Ir a festa/discoteca (bares, restaurantes,…) 2.48 ± 1.21 2.32 ± 1.18 2.14 ± 1.11 2.35 ± 1.25 9.272 0.000
Ajudar nos trabalhos domésticos 4.10 ± 1.20 4.36 ± 0.99 4.36 ± 1.10 4.29 ± 1.10 8.232 0.000
Praticar desporto não orientado (correr,correr) 3.24 ± 1.33 3.40 ± 1.27 3.24 ± 1.31 3.30 ± 1.35 1.891 0.129
Visitar parentes ou pessoas conhecidas 3.47 ± 1.13 3.55 ± 1.09 3.64 ± 1.08 3.74 ± 1.09 7.496 0.000
Participar em associações/movimentos juvenis 2.17 ± 1.25 2.30 ± 1.27 2.49 ± 1.31 2.52 ± 1.32 10.625 0.000

Comparação em função da Zona Sociogeográfica

São notórias as semelhaças (p> 0.05) entre as zonas urbana e rural nos hábitos “Conversar com amigos (as) ”, “Tocar música ou cantar”, “Fazer compras ou ver montras”, “Ajudar nos trabalhos domésticos” e “Ir a festa/discoteca (bares/ restaurantes/barracas) ”, havendo diferenciação nas restantes práticas. Os adolescentes e jovens da zona urbana dedicam mais tempo para “Namorar, estar com namorado(a)”, “Estar só (relaxar, pensar) (p<0.05)”, “Ver televisão ou vídeo”, “Ouvir música” e “Jogar: cartas, vídeo game ou computador” em relação aos seus pares da zona rural (p<0.001). Porém, os adolescentes e jovens das zonas rurais participam mais em “leituras (livros, revistas, banda desenhada) ”, “realização de trabalhos da escola” (p<0.01), “em associações/movimentos juvenis”, “em actividades de Arte e Expressão”, “Ir à Igreja” (p<0.01), “trabalhos de solidariedade social”, “assistência aos acontecimentos desportivos”, “Visitar parentes ou pessoas conhecidas” e “em trabalhos para ganhar algum dinheiro” em relação aos seus pares das zonas urbanas (p <0.001). Por seu turno, os inqueridos da zona urbana mostram-se serem mais activos em relação aos seus pares da zona urbana, pois, praticam mais tanto o “desporto não orientado (correr, jogar a bola,)” como o “desporto orientado/competição” (p<0.001).

Tabela 5: Resultados da comparação dos valores médios da pontuação atribuída a cada actividade de lazer em função da Zona Sociogeográfica

  Práticas de Lazer Zona Sociogeográfica
Zona Urbana (N = 1279) Zona Rural (N = 1238) t p
Ler (livros, revistas, banda desenhada) 3.75 ± 1.49 4.09 ± 1.05 – 6.570 0.000
Jogar: cartas, vídeo game ou computador 2.88 ± 1.22 2.65 ± 1.19 4.754 0.000
Namorar, estar com namorado(a) 2.87 ± 1.22 2.48 ± 1.30 7.850 0.000
Conversar com amigos(as) 4.51 ± 0.87 4.49 ± 0.89 0.582 0.561
Trabalhar para ganhar algum dinheiro 1.94 ± 1.24 2.40 ± 1.42 – 8.735 0.000
Ver televisão ou vídeo 4.32 ± 0.97 4.06 ± 1.09 6.352 0.000
Tocar música ou cantar 3.42 ± 1.43 3.45 ± 1.37 – 0.483 0.629
Praticar desporto orientado/competição (treinos) 2.68 ± 1.35 3.08 ± 1.30 – 7.402 0.000
Fazer trabalhos da escola 4.36 ± 0.97 4.46 ± 0.89 – 2.765 0.006
Participar em actividades de Arte e Expressão 2.03 ± 1.15 2.37 ± 1.26 – 6.958 0.000
Ouvir música 4.35 ± 0.95 4.12 ± 1.07 5.629 0.000
Fazer compras ou ver montras 3.04 ± 1.12 2.97 ± 1.17 1.655 0.098
Ir a Igreja 3.66 ± 1.29 3.82 ± 1.29 – 3.171 0.002
Assistir a acontecimentos desportivos 2.98 ± 1.22 3.21 ± 1.20 – 4.739 0.000
Estar só (relaxar, pensar) 3.28 ± 1.20 3.17 ± 1.28 2.183 0.029
Realizar trabalhos de solidariedade social 2.33 ± 1.16 2.51 ± 1.27 – 3.692 0.000
Ir a festa/discoteca (bares/ restaurantes/ barracas) 2.35 ± 1.21 2.30 ± 1.17 1.146 0.252
Ajudar nos trabalhos domésticos 4.31 ± 1.06 4.24 ± 1.10 1.507 0.132
Praticar desporto não orientado (correr, jogar a bola,) 3.20 ± 1.30 3.39 ± 1.32 – 3.487 0.000
Visitar parentes ou pessoas conhecidas 3.50 ± 1.08 3.70 ± 1.12 – 4.563 0.000
Participar em associações/movimentos juvenis 2.18 ± 1.23 2.56 ± 1.33 – 7.412 0.000

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Conforme foi referido anteriormente, estudos sobre as práticas de ocupação dos tempos livres realizados com adolescentes e jovens moçambicanos são inexistentes. Em face deste facto, e dada a natureza pioneira do presente estudo, o alcance da discussão dos seus resultados será limitado. Contudo, e em ordem a minorar esta situação e tornar mais compreensível a interpretação dos seus resultados, optamos em discuti-los sequencialmente da seguinte forma: em primeiro lugar, são discutidos os resultados referentes à globalidade da amostra e, seguida e sucessivamente, os resultados da comparação em função do sexo, da idade, da província e da zona sociogeográfica. A discussão flui procurando manter o acento tónico, ora sobre as práticas de lazer activo, ora sobre as práticas de lazer sedentário.

Resultados da amostra geral

No que se refere à globalidade da amostra, os adolescentes e jovens avaliados no âmbito da presente pesquisa atribuem maior importância às práticas Conversar com amigos (as)” e “Fazer trabalhos da escola”, hábitos de lazer de natureza eminentemente sedentária. Estes resultados estão na linha dos encontrados por ESCULCAS & MOTA (2005) num estudo realizado com alunos do 6° a 12° anos na Cidade de Porto e por BURGOS et al., (2009), também com adolescentes e jovens, desta feita da região sul do Brasil. Tratando de três contextos diferentes, era razoável esperar encontrar diferenças entre adolescentes e jovens portugueses, brasileiros e moçambicanos, tendo em conta sobretudo as diferenças de carácter socioeconómico e culturais existentes entre estes países. De todo o modo, esta similitude reflectida nos resultados encontrados parece testemunhar que o fenómeno do lazer e das suas práticas, nos dias de hoje, parece não oferecer grande contestação, pois elas não representam um privilégio de uma minoria ou de uma determinada realidade contextual.

Em relação à participação em actividades físicas e desportivas, no cômputo geral, os resultados encontrados no presente estudo dão conta de uma maior preferência da globalidade da amostra pelas práticas de lazer sedentário em detrimento dos hábitos de lazer activo. Quer dizer, no contexto da amostra deste estudo, a prática de actividades físicas e desportivas, quer orientadas, quer espontâneas, não constitui parte relevante de comportamentos que dominam as experiências de vida destes adolescentes e jovens. Estes resultados e constatações corroboram os reportados em alguns estudos portugueses (ESCULCAS & MOTA, 2005; LEITE, 2007; SANTOS et al., sd). De facto, os resultados espelham claramente que este tipo de actividades, ao serem indicadas pela maioria da amostra entre 10º e 14º lugares, que para estes adolescentes e jovens, estas actividades são secundariamente praticadas como forma de ocupação dos seus tempos livres, facto igualmente constatado por ESCULCAS & MOTA (2005).

Estes resultados não deixam de ser preocupantes, na medida em é do conhecimento geral que se os adolescentes e jovens praticarem actividades físicas e desportivas como sua forma privilegiada de ocupar os seus tempos livres, e essa prática se constituir numa experiência positiva ou divertida, então com mais probabilidade, os jovens manterão esse tipo de actividade, prática ou hábito para o resto da sua vida (MARTENS, 1996). Neste sentido, e perante o quadro de resultados do presente estudo, urge encorajar os adolescentes e jovens, em particular, e porque não as pessoas em geral, a adoptarem hábitos de lazer activo ou simplesmente a serem activos ao longo da vida, na medida em que a ênfase dos resultados reflecte-se nos benefícios em termos de qualidade de vida, longevidade e bem-estar.

Comparação em função do sexo

Os resultados da comparação dos valores médios atribuídos a cada prática de lazer em função do sexo revelam que, tanto nos rapazes, assim como nas raparigas, o hábito “Fazer trabalhos da escola” foi a prática mais valorizada, se bem que as raparigas apresentem médias superiores em relação aos rapazes, acontecendo o mesmo em relação ao tempo despendido no visionamento televisivo. Estes resultados assemelham-se aos encontrados no estudo de ESCULCAS & MOTA (2005) referentes à globalidade da amostra de uma pesquisa realizada com adolescentes em idade escolar da cidade do Porto, em Portugal.

Relativamente à participação no “desporto orientado/competição” e no “desporto não orientado”, os resultados mostram que estas práticas são sobremaneira privilegiadas pelos rapazes do que pelos seus pares do sexo feminino. Resultados que apotam para uma maior valorização da prática de desporto, quer orientado, quer não, também foram reportados por BURGOS et al., (2009), LEITE (2007), NOBRE et al. (2009) e PINTO & PINHEIRO (sd). Resultados semelhantes também foram encontrados em adolescentes e jovens da Hungria, num estudo conduzido por KERESZTES et al., (2008), em que constataram que os meninos (69,6%) praticam mais actividades físicas e desportivas do que as meninas (67,1%), tendo ainda verificado que as meninas eram muito influenciadas à prática desportiva por variáveis sociais, tais como amigos, colegas e namorados. Do mesmo modo, SEABRA et al. (2008) confirmam, num estudo realizado com adolescentes portugueses, que os meninos são mais activos do que as meninas, apresentando essa maior propensão à prática desportiva, quando suas mães também praticam desportos. Estudo de EPSTEIN et al., (2005), com crianças e adolescentes norte-americanas, também confirma que as meninas são mais inactivas que os rapazes. Adicionalmente, o mesmo estudo relata, ainda, que as crianças obesas são mais sedentárias que os seus pares não obesas.

A maior prevalência de rapazes que praticam actividades físicas e desportivas sem orientação profissional pode sugerir que as raparigas apresentam uma maior dependência para realizar estas actividades, o que pode estar associado à baixa percepção de competência para realizar actividades físico-desportivas sozinhas ou de não se sentirem confiantes para realizá-las em grupo (VALENTINE & TOIGO, 2006). Por outro lado, a menor adesão das raparigas à prática do desporto orientado, pode ser consequência de uma concepção inferior do corpo, das capacidades para as actividades desportivas e de uma atitude também inferior face às actividades físicas (MALINA, 1996).

Assim, numa revisão da literatura efectuada por FINE et al. (1990), os autores verificara m que o género é repetidamente referido como um preditor significativo das diferenças nas actividades de lazer dos adolescentes. Parece, então, e segundo afirmação de ESCULCAS & MOTA (2005) que os rapazes participam mais em actividades de risco, tais como actividades exteriores e desportos, enquanto as raparigas revelam uma maior participação em actividades de lazer com ênfase em características culturais, sociais e educacionais.

Comparação em função da idade

Os resultados da comparação dos resultados em função da idade, i.e., adolescentes (12-18 anos) vs jovens (19-24 anos), revelam que a prática Conversar com amigos (as)” é a mais pontuada pelos dois sexos, sem no entanto apresentar nenhuma diferença significativa entre os dois sexos (p>0.05), não obstante os adolescentes apresentarem uma média marginalmente superior em relaçao aos jovens. A prática de lazerFazer trabalhos da escola”, em que os jovens dedicam mais tempo ocupados com esta tarefa em relação aos seus pares adolescentes (p<0.05) surge em segundo lugar como das mais valorizadas. Estes resultados corroboram os documentados por ESCULCAS & MOTA (2005) e BURGOS et al. (2009), em que adolescentes e jovens portugueses e brasileiros, respectivamente indicaram estes dois hábitos de lazer como sendo as práticas mais valorizadas.

As outras práticas de lazer que obtiveram médias a seguir às duas mais valorizadas incluem Ver televisão ou vídeo”, em que os jovens despendem mais tempo (p<0.05); “Ouvir música”, onde os dois grupos etários não diferem significativamente (p>0.05) e “Ajudar nos trabalhos domésticos”, com os jovens a engajarem-se mais nesta prática em relação aos adolescentes (p=0.05). Por conseguinte, as práticas de lazer “participação em actividades de arte e expressão” e Trabalhar para ganhar algum dinheiro são dadas, de forma semelhante (p>0.05), como sendo as menos frequentes em ambas as faixas etárias, reforçando os resultados aludidos por LEITE (2007). De todo o modo, é interessante observar que nas práticas em que os dois grupos etários diferem significativamente entre si, os jovens tendem a levar vantagem, o que parece denotar um maior sentido de identidade neste grupo etário em particular.

Relativamente às práticas de lazer activo, i.e., a participação destes adolescentes e jovens em actividades físicas e desportivas, os resultados encontrados permitem observar que, tanto no desporto orientado/competição”, como no desporto não orientado”, ainda que sem diferenças significativas (p>0.05), os adolescentes mostram-se ligeiramente mais activos em relação aos jovens. Este facto não pode deixar de constituir uma preocupação, na medida em que este declínio que se verifica entre adolescentes e jovens, as evidências documentadas, dão conta que, em comparação com os adultos, as crianças e os adolescentes são fisicamente mais activas, embora o facto de participarem pouco em exercício estruturado e apresentarem declínio na actividade física com o avanço da idade indique que muitos estão em risco de se tornarem adultos sedentários, uma vez que os padrões de sedentarismo desenvolvidos na adolescência e juventude podem persistir no tempo (PATE et al., 1994).

Com efeito, e assumindo que JANZ et al. (2000), consideram que a actividade física estabiliza desde a infância até à adolescência, e por sua vez MALINA (1996) defende que este fenómeno ocorre durante a adolescência, da adolescência até ao estado adulto e ao longo das várias idades desta fase, parece lícito e pertinente que se desenhem e implementem estratégias e programas atractivos de ocupação activa dos tempos livres na adolescência e juventude, em ordem a inculcar hábitos de lazer activo nestas faixas etárias, para que possamos ter cidadãos activos na idade adulta.

Comparação em função da província (proveniência)

Conforme foi elucidado no capítulo da metodologia, o presente estudo foi realizado em quatro (4) províncias do sul de Moçambique, com características demográficas, socioeconómicas e culturais distintos. A comparação dos seus resultados segundo a província pretende aquilatar até que ponto essas características ou indicadores sociais reflectem-se no perfil de ocupação dos tempos livres de adolescentes e jovens. Neste sentido, os resultados mostram que à excepção das práticas de lazer “Conversar com amigos (as) “, “Estar só (relaxar, pensar) “; “Praticar desporto não orientado”, em que as províncias não diferem significativamente entre si, as restantes práticas evidenciam diferenças estatísticas altamente significativas, o que espelha perfis de lazer claramente distintos entre as províncias.

Com efeito, a prática “Ouvir música” “e muito valorizada por adolescentes e jovens da Cidade e Província de Maputo em relação aos seus pares das províncias de Gaza e Inhambane, sendo que os adolescentes e jovens de Inhambane escutam mais música que os seus pares de Gaza. Estes resultados indicam que a música para a cultura juvenil tem um grande valor simbólico, mesmo que esta seja somente barulho, e que não tem nenhum significado para os adultos, para o jovem é repleta de sentido, pois é, como afirma DAYRELL (2007), uma forma de manifestar seu pensamento sobre o mundo que está ao seu redor. Na óptica do mesmo autor, dentro da cultura, a música tem uma forte expressão de manifestar os principais valores de um determinado povo. No meio da juventude tem uma importância especial, por se tratar de uma forma de fuga da realidade, na medida em que quando esses jovens escutam as músicas dá uma sensação de poder e liberdade, em que esses jovens vão construindo a sua identidade (DAYRELL, 2007).

De entre as práticas de lazer que apresentam diferenças altamente significativas em função da província destacam-se Fazer trabalhos da escola”, em que as províncias de Gaza e Inhambane apontam mais esta prática em relaçao as demais províncias; Ver televisão ou vídeo”, onde as médias vão diminuindo à medida que se avança da Cidade de Maputo para a província de Inhambane; ”Ajudar nos trabalhos domésticos”, em que as províncias de Maputo e Gaza sobressaiem em relaçao à cidade de Maputo e Inhambane. As diferenças entre as províncias variam consoante o tipo de prática de lazer, porém nota-se uma tendência para uma maior propensão ao lazer sedentário no seio de adolescentes e jovens da Cidade de Maputo em relaçao às demais províncias do sul de Moçambique. Este facto parece dever-se à particulariade de a Cidade de Maputo ser a capital do país e, consequentemente, apresentar um nível de desenvolvimento socioeconómico maior em relação as outras províncias, o que permite maior acesso às facilidades tecnológicas associadas à hipocinésia.

Por outro lado, a prática de lazer que mereceu menor importância da parte das três províncias, foi “Trabalhar para ganhar algum dinheiro” e “Participar em actividads de Arte e Expressão”. É interessante notar que em ambas as práticas, a província de Inhambane evidencia médias relativamente mais elevadas em relação às outras províncias. Tratando-se de adolescentes e jovens, e uma vez que despendem maisd tempo ocupados com os trabalhos de escola, não parece estranho que tenham tempo nem formação que os habilite a desenvolver trabalhos remuneratórios ou de arte e expressão relevantes.

Em relação à prática de actividades físicas e desportivas, foram constatadas diferenças significativas ao nível da prática do desporto orientado, onde a província de Inhambane, seguida da província de Maputo, apresenta a média mais elevada. Estes resultados são um tanto ou quanto curiosos, tendo em conta que a cidade e província de Maputo têm um desporto de alto rendimento muito mais desenvolvido em relação as outras províncias, pelo menos a considerar número de clubes e equipas que participam em competições nacionais e internacionais, o que constituiria uma fonte de inspiração para que mais adolescentes e jovens dessas províncias se envolvessem na prática desportiva. De todo o modo, estes resultados chamam atenção para a necessidade de se difundir mais a importância da prática desportiva no seio de adolescentes e jovens.

É importante e interessante notar que, contrariamente ao observado na prática do desporto orientado, as quatro províncias não diferem entre si no que à prático do desporto não orientado diz respeito, se bem que a província de Maputo, seguida da de Inhambane, apresente média ligeiramente mais elevada. Esta semelhança espelhada pelas províncias no âmbito da prática do desporto não orientado parece reflectir a ideia de que não existem possibilidades diferenciadas em termos de prática desportiva não orientado entre as províncias do sul de Moçambique.

Comparação em função da zona sociogeográfica

Os resultados da comparação dos resultados de práticas de lazer de adolescentes e jovens entre as zonas rurais e urbanas, mostram que, apesar de não diferirem entre si, Conversar com amigos (as) ” é o hábito de lazer mais importante tanto para a zona urbana, como para a rural. Seguidamente, surge a prática de lazer “Fazer trabalhos da escola”, como sendo a mais valorizada, evidenciando diferenças significativas a favor da zona rual. Estas práticas de lazer também foram reportadas como sendo as com maior aderência no estudo de BURGOS et al., (2009), realizado no centro, na periferia e no meio rural da região Sul do Brasil.

Por outro lado, no presente estudo nota-se que no seio das práticas com maior aderência, as práticas de lazer “Ver televisão ou vídeo”, Ajudar nos trabalhos domésticos e “Ouvir música” revelam diferenças altamente significativas, favorecendo as duas primeiras a zona urbana e a terceira a zona rural. O acesso mais facilitado à televisão, vídeo e aparelhagens radiofónicas nas zonas urbanas em relação às zonas socioeconomicamente mais desfavorecidas justifica, no nosso entendimento, este quadro de resultados. Contudo, era de esperar que os adolescentes e jovens residentes em zonas rurais reportassem maior tempo despendido em actividades de apoio nos trabalhos domésticos, visto que é comum em comunidades que vivem nestes contextos dividirem os trabalhos domésticos pelos membros da família, tendo em conta o tipo, a natureza e a exigência de cada tarefa a realizar. Com efeito, este resultado contradiz-se com o facto de os adolescentes e jovens rurais referirem que despendem um tempo significativamente maior em trabalhos para ganhar algum dinheiro em relação aos seus pares urbanos. O facto de não existirem mais estudos sobre esta matéria realizados com adolescentes e jovens moçambicanos limita a interpretação destes resultados e justifica concomitantemente a necessidade de mais estudos em ordem a tornar este assunto mais inteligível. Quer como que seja, para qualquer análise deste facto, deve-se levar em conta a advertência avançada por OERTER & MONTADA (2002), segundo a qual a juventude não deve ser vista como uma população homogénea.

Em relação às práticas de lazer activo, os resultados permitem constatar que tanto para a prática do desporto orientado, quanto para a prática do desporto não orientado, os adolescentes e jovens rurais são significativamente mais activos. A maior oferta de facilidades para a prática desportiva, i.e., maior e diversificado parque desportivo, existem nas zonas urbanas justificaria um resultado diferente, pelo menos ao nível da prática do desporto orientado, o que não se verifica.

De facto, e como refere BURGOS et al. (2009), as zonas urbanas possuem maiores possibilidades de diversidades para as práticas de lazer activo e sedentário, em relação às rurais, permitindo a escolha nas preferências, o contrário das rurais onde as práticas prevalecentes são as modalidades desportivas colectivas, principalmente o Futebol. Estes resultados, se por um lado dão indicação do fraco aproveitamento de infra-estruturas desportivas por adolescentes e jovens urbanos, o que denota uma adopção de perfil de lazer eminentemente sedentário, por outro lado, confirma e enaltece a importância e necessidade de definir estratégias voltadas para a popularização da prática desportiva no seio adolescentes e jovens moçambicanos.

CONCLUSÕES

A partir do presente estudo, concluiu-se que a maioria de adolescentes e jovens de ambos os sexos das províncias do sul de Moçambique ocupam predominantemente os seus tempos livres com práticas de lazer sedentário em detrimento de lazer activo; Conversar com amigos (as) e fazer trabalhos da escola são as práticas com maior predomínio tanto no cômputo global da amostra, quanto ao nível de cada província, sendo mais evidente no seio das raparigas.

Os rapazes participam mais tanto no desporto orientado/competição como no desporto não orientado em relação às raparigas, com as províncias de Cidade de Maputo e de Inhambane a apresentarem, respectivamente, menores e maiores médias em relação às outras províncias; A participação no desporto não orientado foi mais significativa em relação ao desporto orientado/competição na totalidade da amostra. Porém, constatou-se, em ambos os sexos, uma maior participação dos adolescentes, quer no desporto orientado/competição, quer no desporto não orientado em relação aos jovens. Os adolescentes e jovens das zonas rurais participam mais, tanto no desporto orientado/competição, como no desporto não orientado em relação aos seus pares das zonas urbanas.

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CORRESPONDÊNCIAS

Paulo Tibério Armando Saveca

Escola Superior de Ciências do Desporto da Universidade Eduardo Mondlane

Maputo – Moçambique

paulo.saveca@uem.mz / ptiberio_saveca@ahoo.com.br

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