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Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

por Joffre Justino

Este feriado nacional de 10 de junho, que alguns continuam a teimar em relacionar ao colonial fascismo salazarento é na verdade uma homenagem a um grande poeta Luís Vaz de Camões, autor d´Os Lusíadas, a maior obra épica de Portugal mais claramente do Império português.

E Camões ao contrário do transformado pelo salazarentismo era um opositor ao totalitarismo absolutista e possivelmente muitas das refregas em que se envolveu ao tempo antes de ser na verdade expulso de Portugal, poderá ter sido por se opor à parte da corte que fazia de Portugal um país retrógrado resultante de uma Inquisição instalada desde 1536. 

Era ela que controlava a Censura que  funcionava em pleno com os livros a serem submetidos à leitura prévia e a só poderem ser impressos e postos a circular depois da autorização do Santo Oficio, imposto via as Espanhas e o Vaticano como aconteceu, em 1572, com Os Lusíadas sendo que  Sousa Viterbo e Aquilino Ribeiro analisaram hipóteses do que terá sido truncado no manuscrito como se pronunciaram acerca de intervenções do censor – em cumplicidade negociada com o Poeta que queria ver publicada sua obra e aliás com ela sobreviver  fabricando versos atribuídos a Camões, para deixar passar outros.

Mas, em sucessivas estrofes d’ Os Lusíadas,constatamos o sentido crítico não poucas vezes até libertário em torno de questões teológicas, politicas e sociais com o incentivo contínuos para a urgência da liberdade e justiça para uma sociedade construída nos princípios da honra e nos valores da solidariedade.

 Os Lusíadas acompanharam claro o sebastianismo e a resistência ao domínio filipino, assim como as lutas liberais no século XIX, e até a formação do Partido Republicano, fortemente ligados, segundo Jaime Cortesão, aos valores democráticos em Portugal, ao humanismo universalista dos portugueses, á abertura para o mundo e a invenção da modernidade. 

É esta potencial, imaginada ou real, mas a lenda tem sempre valor de realidade se motivadora, é esta energia cívica que levou ao entusiasmo de Teófilo Braga, que se lançou numa campanha de opinião pública, para que se celebrasse, em todo o País, o IIIº centenário da morte de Camões, a contragosto da corte e do dito rei. 

Segundo o que então se sabia entre os grupos radicais maçónicos e carbonários que continuavam as Lutas Liberais o dia 10 de Junho seria a data da morte de Camões e essa data foi a que impôs em 1880, as comemorações desse III Centenário, com a participação de intelectuais e políticos e uma enorme mobilização popular em Portugal e no Brasil sendo memoráveis as cerimónias que decorreram em Lisboa que na verdade estiveram na base da criação de um Partido Republicano com impato social e onde se reconciliaram as tendências e os grupos dispersos no pensamento e na ação republicana.

A República, a 5 de Outubro de 1910, proclama-se a Republica e o Governo Provisório, presidido por Teófilo Braga, também para afirmar a separação do poder civil sobre o poder religioso, deixou de reconhecer os dias santificados inscritos no calendário litúrgico e decretou, logo a 12 de Outubro, os seguintes feriados nacionais e assim designados: 1 de Janeiro, consagrado à Fraternidade Universal, o 31 de Janeiro, consagrado aos percursores e aos Mártires da República o 5 de Outubro, consagrado aos Heróis da República o 1 de Dezembro, consagrado à autonomia e independência e restauração da Pátria o 25 de Dezembro, consagrado à Família e claro além destas efemérides cada município, segundo o critério das respetivas Câmaras, podia assinalar o seu feriado sendo que Lisboa escolheu o 10 de Junho que, sob a égide de Camões, em 1880, uniu o Partido Republicano.

Com o salazarentismo a Constituição de 1933 revogou a legislação existente mas Salazar manteve o 10 de Junho como o dia da raça, uma das expressões salientadas no discurso proferido na inauguração do Estádio Nacional do Jamor, em 1944, ainda em plena Guerra Mundial, quando os ódios raciais continuavam a enviar judeus para os campos de concentração. 

A partir de 1963, Salazar transformou o 10 de Junho no Dia de Portugal para exaltar as Forças Armadas e prosseguir a Guerra Colonial e Marcelo Caetano manteve a tradição com  o Terreiro do Paço, a ser o palco do espetáculo da entrega das condecorações a vivos e mortos que se teriam distinguido nas operações militares na Guerra Colonial o que afastou uma parte essencial da Juventude desta data ainda hoje marcada por tal. 

Com o 25 de Abril, e com as Independência que chegaram historicamente atrasadas gerando traumas em todos os países envolvidos Portugal inclusive, o 10 de Junho ficou a chamar-se não só Dia de Portugal, mas também de Camões e das Comunidades Portuguesas.

Este ano as comemorações do Dia de Portugal começam no domingo, em Portalegre, com o içarda bandeira nacional, e terminam em Cabo Verde, onde Presidente da República e primeiro-ministro estarão entre segunda e terça-feira.

Na segunda-feira de manhã, o chefe de Estado, Marcelo Rebelo de Sousa, preside à Cerimónia Militar Comemorativa do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, em Portalegre, onde fará o seu primeiro discurso no 10 de Junho, na presença do presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, e do primeiro-ministro, António Costa.

Antes, haverá uma intervenção do presidente da comissão organizadora desta edição das comemorações do Dia de Portugal, o jornalistadireitista que é  João Miguel Tavares, natural de Portalegre.

Teremos este ano a  presença do Presidente da República de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, e no desfile militar haverá finalmente uma representação cabo-verdiana a participar juntamente com as Forças Armadas Portuguesas.

A seguir, Marcelo Rebelo de Sousa viajará para a Cidade da Praia com o primeiro-ministro, António Costa, e com o Presidente de Cabo Verde, onde falará perante representantes da comunidade portuguesa neste país, que é composta, no total, por cerca de 21 mil pessoas, dispersas por várias ilhas cabo-verdianas.

Em Cabo Verde, além do chefe de Estado e do primeiro-ministro, estarão os ministros da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, da Defesa Nacional, João Gomes Cravinho, e o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Luís Carneiro, e os deputados Feliciano Barreiras Duarte, do PSD, Carlos Pereira, do PS, Maria Manuel Rola, do BE, Pedro Mota Soares, do CDS-PP, e João Dias, do PCP.

O arranque oficial das comemorações do Dia de Portugal será no domingo de manhã, com o içar da bandeira nacional junto ao Monumento aos Mortos da Grande Guerra, em Portalegre. Depois, o chefe de Estado e Comandante Supremo das Forças Armadas irá visitar as atividades militares complementares.

Em Cabo Verde, as comemorações terão lugar na Cidade da Praia, na ilha de Santiago, e no Mindelo, na ilha de São Vicente, onde Presidente da República e primeiro-ministro terão uma agenda intensa, na terça-feira.

O programa no Mindelo inclui uma visita a uma exposição de arte contemporânea, um passeio a pé e um convívio com jovens desportistas na companhia do futebolista Eliseu, ex-jogador do Benfica, que integrou a seleção nacional campeã da Europa em 2016 e que tem dupla nacionalidade, portuguesa e cabo-verdiana.

No Mindelo, haverá ainda um almoço com autoridades locais numa fragata da Marinha Portuguesa e um desfile militar das Forças Armadas de Cabo Verde que integrará uma representação de Portugal. As comemorações do Dia de Portugal terminam com uma receção à comunidade portuguesa, num hotel do Mindelo, na terça-feira ao fim do dia.

Como é evidente nós no Estrategizando mantemos a ideia de fazer do 10 de Junho o Dia de Camões das Comunidades de Língua Portuguesa e de Portugal recordando como o Brasil, na altura o único país de Lingua Portuguesa além de Portugal e sobretudo a sua vertente progressista e Republicana esteve presente e ativa nas Comemorações do III Centenário de Camões.

Foto de destaque: cultura.pe.gov.br ( Monumento a Luís Vaz de Camões na cidade do Porto)

Joffre Justino

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