Home África ANGOLA: O FANTASMA DE SAVIMBI “GANHOU” UM CORPO

ANGOLA: O FANTASMA DE SAVIMBI “GANHOU” UM CORPO

por Nuno Rebocho

Finalmente houve acordo para ser feita com dignidade a transladação dos restos mortais de Jonas Savimbi. Morto em combate perto de Luena, no Moxico, com as forças das FAPLA (exército do MPLA) em 22 de Fevereiro de 2002, esteve até há pouco sepultado em lugar desconhecido. Exumados os seus ossos, foram transportados para os terrenos de um quartel militar em Andulo, no Bié, celebrando-se depois as exéquias em Lopitanga, também no Bié, estando presentes representantes da UNITA e da família de Savimbi.

Nascido em Munhango, no Bié, em 3 de Agosto de 1934, Jonas Malheiro Savimbi foi durante 30 anos o incontestado líder de um dos três movimentos independentistas de Angola, a UNITA. Estudou nos Estados Unidos e em Portugal, não concluindo o ensino secundário por se recusar a acompanhar as aulas de Organização Política e Administrativa da Nação, obrigatória no salazarismo. Para escapar à repressão pidesca, exilou-se na Suíça, onde lhe foram reconhecidas as necessárias habilitações secundárias e pôde frequentar a universidade em Ciências Sociais e Políticas.

Integrou primeiramente, no exílio, a FNLA (que, com o nome de UPA, iniciou os primeiros levantamentos independentistas em Angola), com ela rompendo para, com António da Costa Fernandes e outros, fundar a União Nacional para a Independência Total de Angola, UNITA, em 1966, na região do Moxico (Muangai). Em 25 de Dezembro desse ano, lançou os primeiros ataques contra as autoridades portuguesas, abrindo assim uma terceira frente de combate anticolonial na Angola ocupada.

Combinando a astúcia diplomática com a capacidade combativa, Savimbi adoptou o velho princípio de que “os inimigos dos nossos inimigos, nossos amigos são”, o que lhe deu azo a ser acoimado de entendimentos com os ocupantes. Tendo o apoio da etnia ovimbundo, à qual o próprio Savimbi pertencia, a UNITA implantou-se no Leste angolano, enquanto obtinha o apoio da China maoísta. Quando, em 1974, Portugal anuncia a decisão de se retirar, o MPLA declara (em 1975) a independência unilateral de Angola, com a capital em Luanda, enquanto a UNITA, aliada à FNLA, fazia o mesmo em Huambo.

Com os apoios americanos e da África do Sul do apartheid, a coligação combate as forças do MPLA apoiadas por Cuba, mas é derrotada, de imediato se desfazendo. Declarando Angola como um país de partido único e ilegais a FNLA e a UNITA, o MPLA de Agostinho Neto iniciou assim uma prolongada guerra civil, que durará até 2002.

UMA PROLONGADA GUERRA CIVIL

A UNITA enraíza-se em todas as etnias do Sul e Leste de Angola, controlando uma boa parte do território e obtendo largo apoio internacional. O combate do Galo Negro (assim conhecida a UNITA por ter na sua bandeira a figura de um galo negro) forçou o MPLA a adoptar, em 1990, uma Constituição aberta à democracia multipartidária, acordando a paz (em Alvor, no Algarve) com a UNITA e o FNLA, agora reconhecidas como legais, e realizando eleições supostamente livres. A organização liderada por Savimbi converteu-se então em partido político e concorreu ao escrutínio parlamentar de 1992. Derrotada a UNITA, declarou a existência de fraude eleitoral, mas apesar disso participou nas seguintes eleições presidenciais que, embora sem maioria absoluta, deram a vitória a José Eduardo dos Santos, obrigando a uma segunda volta que nunca se realizou, porque a UNITA retomou as actividades militares (este é o “pecado original” do regime de Eduardo dos Santos).

Apesar de envolta nos combates, a UNITA manteve os seus deputados no parlamento de Luanda. Depois de ocupar a cidade de Huambo, as forças do Galo Negro, sediadas na Jamba (na Huila), começaram a perder terreno para uma reforçada FAPLA, tanto em combatentes como em material bélico, dispondo para o efeito das grandes receitas provenientes da extracção de petróleo. Verificou-se, entretanto, uma dissidência, a “UNITA renovada”, liderada por Eugénio Manuvakola, que defendia que a organização deveria retirar-se da luta armada e virar-se somente para a luta política.

Em Fevereiro de 2002, apertando-se cada vez mais o cerco, Savimbi – depois de enfrentar diversas dissidências e exterminar várias oposições internas, foi morto em combate perto de Lucusse, no Moxico, sendo sepultado em lugar desconhecido, a fim de evitar romagens ao seu túmulo.

INTERMEDIAÇÃO DE JOÃO LOURENÇO

A exumação dos restos mortais de Savimbi, dezassete anos depois, foi feita à sorrelfa, desconhecendo-se ainda o lugar onde estiveram primeiro depositados. Foi a intermediação do próprio Presidente João Lourenço, em negociação com Isaías Samakuva (actual dirigente da UNITA), que permitiu que as suas exéquias fossem condignamente celebradas. O gesto é mais um importante passo para a destruição do autoritarismo do regime de Eduardo dos Santos, apontando cada vez mais para uma democracia efectiva.

Estão falecidos os três principais líderes dos movimentos independentistas angolanos. A exumação dos ossos do guerrilheiro, abre caminho para que, a prazo, tanto Savimbi, como Holden Roberto e Agostinho Neto, venham a ser oficialmente reconhecidos como “pais da pátria angolana”.

Nuno Rebocho

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