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Venezuela: tempo de impasse

por Nuno Rebocho

Como que esgotados, Nicolás Maduro e Juan Guaidó medem-se atentamente antes de avançar com novas iniciativas. É sabido: não podem dar passos em falso e devem pensar cuidadosamente o que cada protagonista se propõe fazer. Enquanto o povo sofre as estopinhas de um regime sem soluções, a Venezuela vive o impasse. Até quando, eis a pergunta.

Com a falange das milícias “bolivaristas” aumentadas de efectivos, de dois para três milhões, a ditadura de Maduro resiste às investidas dos que a contestam. Uma após outra, as propostas oposicionistas fracassam e o ditador permanece como um “sempre-em-pé” incapaz de desferir qualquer golpe que, definitivamente, derrote a Oposição. Na prática, parece que Maduro e Guaidó dependem um do outro para se manterem e que ambos se sentem impotentes para lançar o que possa ser um golpe eventualmente decisivo, o que evidencia algum equilíbrio das forças nos campos em presença, cada uma incapaz de resolver a situação em seu benefício.

Há muito que cada um deles está definido: de um lado, o da Assembleia Nacional, a maioria que sofre a penúria, a falta de energia e de alimentos, de medicamentos e a espectacular inflação; do outro, o do Governo, o suporte (ainda massivo) do que resta do regime chavista, na sua forma caricatural, a nomenclatura militar venezuelana (que registando, embora, alguns perigosos abanões parece sobreviver ao “mau tempo”) e a aristocracia petroleira, corrupta, envelhecida e escorregadiça, que serve de carne para canhão para a sobrevivência de um regime.

Guaidó até ensaiou algumas jogadas que poderiam ter sido, em si, bons trunfos políticos – o recurso à eventual solidariedade da comunidade internacional para com um povo de tudo carente seria aparentemente uma ideia positiva… se tal solidariedade se traduzisse em algo de concreto e entrasse pelas fonteiras venezuelanas. Todavia, a esperada solidariedade ficou-se nas encolhas, não acorreu ao país e, para cúmulo, Maduro e a Cruz Vermelha Internacional fizeram acordo para aterrar na Venezuela alguma “ajuda humanitária”. No passado dia 15, um avião poisou em Caracas, transportando catorze geradores de energia, medicamentos e instrumentos cirúrgicos, e o chavismo capitalizou em seu favor a bandeira dessa “ajuda”.

Guaidó procurou, num périplo além-fronteiras, que o regime interditasse o seu regresso ao país. O modo como seguiu a viagem pelos países vizinhos não disfarça o seu desafio ao regime. No entanto, Nicolás Maduro não caiu na tentação de resvalar para o que poderia ser perigosa armadilha e deixou-o retornar sem levantar qualquer obstáculo. A proibição de Guaidó voltar à Venezuela poderia abrir as portas para o despoletar uma prolongada guerrilha… que Maduro, nas actuais condições, corria riscos de não dominar e Guaidó riscos de não vencer.

A intervenção estrangeira na pátria de Hugo Chavez é pesadelo que os dois campos temem. Para Nicolás Maduro, essa intervenção estrangeira pode pôr em evidência possíveis debilidades das suas forças armadas. Para Juan Guaidó, uma investida estrangeira poderia empurrar a maioria popular para o campo de Maduro. Do estrangeiro, não se vê que alguém se disponha a atravessar um rubicão de consequências imprevisíveis. Sequer os Estados Unidos de Trump parecem interessados em trocar a irritante Venezuela por um mais sério confronto com a Rússia de Putin, apoiante declarado do regime venezuelano.

Perante o equilíbrio de forças, receando as partes em confronto ousar algum passo mais arriscado, as ruas enchem-se com as duas massas de apoiantes gritando raivas e protestos. Até que a situação apodreça para algum dos lados, que algum deles congemine um novo acto ou que, no cenário, surja terceira alternativa (por enquanto, hipótese muito longínqua) que a desbloqueie. Enquanto a ditadura de Maduro sobrevive e aumenta o número de prisões (a Amnistia Internacional fala em largas centenas), Guaidó confere que a situação não pode prolongar-se por muito mais tempo… sem que o seu tempo se esgote. Ambos têm consciência de que o impasse não seja infinito, mas nenhum (por enquanto) descobre como lhe sobreviver.

Nuno Rebocho

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