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POR UM MEMORIAL A ARISTIDES DE SOUSA MENDES

por Teresa Pedro


Abril! Quarenta e cinco anos após o 25 de abril,  Portugal comemorou uma vez mais o dia da conquista da Liberdade, relembrando Sophia de Melllo Breyner Andresen:

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio 
E livres habitamos a substância do tempo.

No dia 17 de abril, no âmbito do Orçamento Participativo de Lisboa, o arquiteto Luís De Azevedo Monteiro apresentou o seu projeto para um Monumento a Aristides de Sousa Mendes (1).

Salazar e Aristides de Sousa Mendes… dois nomes que a História juntou no tempo e nos desafios, ainda que em absoluta dissonância assumida com frontalidade, determinação, e coragem pelo Cônsul de Bordéus, porém, dissimuladamente por Salazar….

O ditador que perseguiu o Humanista Aristides de Sousa Mendes até à morte, sem qualquer pudor de tão implacável, desumano e recorrendo inclusivamente a expedientes ilegais, como se comprovou.

25 de abril de 2019, dia da celebração da “Revolução dos Cravos”, é inaugurado na Estação de Metro Baixa – Chiado, o “Memorial dos Presos e Perseguidos Políticos” da mais longa ditadura europeia…de Salazar.
30 000 nomes inscritos. (2)
Uma vez mais, de modo incontornável, os dois homens, Salazar e Aristides de Sousa Mendes!
30 000 nomes inscritos no Mural como “presos e perseguidos” pelo regime de Salazar.
30 000 vistos passados pelo punho de Aristides de Sousa Mendes contra a vontade do ditador.

Não participo em chacinas, por isso desobedeço a Salazar.

Aristides Sousa Mendes

O arquiteto Luís De Azevedo Monteiro, apresentou o projeto para um Monumento a Aristides de Sousa Mendes, sonho há muito tempo por si acalentado, contando com a presença do Dr. António De Moncada Sousa Mendes. (3)
Nas suas palavras, que gentilmente partilhou:

A IDEIA ?

Posso dizer que, já me persegue há mais de 10 anos … e foi fazendo o caminho das pedras…
Lancei-a inicialmente em 2009 no âmbito do ano europeu da criatividade e inovação, num concurso de ideias chamado CRIAR 2009 lançado pelo gabinete cordenador do QREN através de umaapresentação em vídeo.
Não teve grande seguimento, e em 2010 resolvi publicar o vídeo no “youtube” no sentido de facilitar a sua divulgação. 
Mas continuava a ser uma “agulha num palheiro”. 
Mais tarde em 2011 resolvi lançar também a publicação no Facebook (coincidentemente a 27 de abril…).
Mas se calhar “ser viral” não é realmente para todos…
Entretanto vi o símbolo dos Jogos Olímpicos de Londres de 2012 serem concebidos em torno de uma solução técnica semelhante…
Por fim, resolvi no ano passado, retomar a ideia do projeto abordando diversas instituições, individualidades, diversos arquitectos de renome, desde o Ministério dos Negócios Estrangeiros, a Câmara Municipal do Porto (que possui geminação com Bordéus), até à  Presidência da Republica, entre outros.
Contudo, foi Lisboa quem de facto apresentou uma oportunidade de o propor, não a uma individualidade ou a um colégio burocrático, mas diretamente à própria população.
E é pela espantosa adesão espontânea que tenho observado nos cidadãos comuns que acabo por consolidar a minha esperança.”

https://m.youtube.com/watch?v=O7yNU2UHoN8 (4)

O CONCEITO ?

Foi uma fascinação.O facto de poder ser a própria assinatura (que assegurou o salvo conduto para todas aquelas pessoas) a desenhar um objecto ao mesmo tempo tão abstracto e plasticamente interessante.  
E o facto de que também a caligrafia pode realmente caracterizar o carácter (passe o pleonasmo) de alguém. 
Para além disso, a possibilidade de definir uma forma distinta de estatuária que não resultará na fisionomia de um rosto, ou na efígie de uma face, mas antes no “busto de uma alma”.
A recente classificação atribuída pela UNESCO (5) ao seu Livro de Registo de Vistos no Consulado de Bordéus, converte de certa forma a própria assinatura do Cônsul em Património da Humanidade, Memória do Mundo, que aqui também o converte no verdadeiro artista, no verdadeiro autor.
Capaz de esculpir não só toda aquela fascinante plasticidade, mas ao mesmo tempo, tantas novas vidas.
E então, à profunda admiração pelo que representa para mim a personalidade do Cônsul, juntei também a obsessão de conseguir ver este objecto erigido, numa peça fisicamente apreensível.”

Penso na fronteira como o único ponto da terra que contém todos os outros ligares dentro de si


José Tolentino Mendonça (6)

Conversando com o neto de Aristides de Sousa Mendes, Dr. António De Moncada Sousa Mendes, este, reforçou as palavras supracitadas do arquiteto Luís De Azevedo Monteiro, que não hesitou ao afirmar:

“No pressuposto de que “quem salva uma vida salva a Humanidade”, a assinatura do meu avô ao desenhar-se nos passaportes em 1940 já é por si só o esculpir-se de um Monumento mundialmente reconhecido como tal.Ao escrever a sua assinatura, imprimiu esse gesto intemporal, porém para nós homens, é tempo de no seu país, Aristides de Sousa Mendes ser homenageado com um Monumento de reconhecimento do seu acto de Humanidade.”

Teresa Pedro
Com a colaboração sempre disponível do Dr. António De Moncada Sousa Mendes e a do arquiteto Luís De Azevedo Monteiro, a quem o Estrategizando agradece e manifesta a sua profunda gratidão.

_____Notas:
(1) Votação em curso até ao dia 28 de abril, projeto 120;
(2) Constará no Mural o nome de Aristides de Sousa Mendes como “Perseguido”?
(3) Neto de Aristides de Sousa Mendes e seu irmão gémeo César de Sousa Mendes, autor do livro “Aristides de Sousa Mendes – Memórias de Um Neto”, Desassossego, s.l.,outubro de 2017;
(4) Vídeo da autoria do arquiteto Luís De Azevedo Monteiro, para apresentação do projeto no OP de Lisboa;
(5) 30 de outubro de 2017;
(6) José Tolentino Mendonça, no seu recente livro “Teoria da Fronteira”, Edição da Assírio & Alvim.

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