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Declarações de Mo Ibrahim surpreendem Oposição Angolana

por Nuno Rebocho
(Foto: World Economic Forum / Wikipedia)

Mo Ibrahim afirmou-se “muito surpreendido pelas mudanças em Angola”, acrescentando que “adoraria encontrar-se com o Presidente de Angola para tentar perceber como é que ele pensa e o que está a acontecer”. Para os partidos da oposição angolana, as declarações do milionário sudanês – entendendo que “mudar as moscas sem limpar a porcaria manterá vivo e intacto o putrefacto habitat no qual o MPLA se move como peixe na água” (expressão do jornal angolano “Folha 8”) – foram, no mínimo, inesperadas.

Atendendo, porém, ao pragmatismo do filantropo criador da Fundação Mo Ibrahim que, no passado promovera Pedro Pires (então Presidente cabo-verdiano) a paradigma africano, as suas declarações estão longe de surpreender. Retomando a leitura de René Dumont em 1962 (“l’Afrique est mal partie”), Mo Ibrahim denunciou as “falhas monumentais dos líderes africanos após as independências” e defendeu que, nos dias de hoje, a “boa governança” é fundamental, atalhando desse modo a corrupção imperante no continente negro. Foi essa a razão que o levou a “esquecer” a burla pela qual Pedro Pires foi “eleito” Presidente pela primeira vez (apesar de ter sido oficialmente reconhecido pelos tribunais que apenas obtivera a vitória com votos apócrifos) e apontar o então líder de Cabo Verde como um exemplo de democracia em toda a África.

Tendo como propósito promover a “boa governança” no continente africano, a Fundação criada por Mohamed Ibrahim em 2005, com os lucros resultantes da venda da sua Celtel (uma das “gigantes” das telecomunicações), instituiu um prémio anual de 5 milhões de dólares aos chefes de Estado desse continente que desempenhassem acções destacáveis nas áreas da segurança, direitos à saúde, educação e desenvolvimento económico e político. Dado o manifesto apego ao Poder dos dirigentes continentais, traduzido pela sua recusa em aceitar as regras da alternância democrática, a Fundação lançou o Prémio Mo Ibrahim para a Liderança de Excelência em África.

O caso angolano

A oposição angolana não interpretou por este prisma as afirmações do antigo magnata das telecomunicações que optou pela nacionalidade britânica. Pretendeu ver nelas uma opção entre “ditadores maus” e “ditadores bons”, esperando que dele viesse aval, mesmo que indirecto, à crítica por ela endereçada à Presidência de João Lourenço.

Os partidos da oposição angolana, incapazes de democraticamente desalojar o MPLA do governo de Angola, esperaria certamente que Lourenço não se conformasse com afastar do Poder a clique oligárquica reunida em torno de José Eduardo dos Santos e antes tomasse a iniciativa de arredar o seu partido da governação do país ou mesmo que o dissolvesse. Por isso, se dizem “surpreendidos” com as declarações de Mo Ibrahim.

Queira-se ou não, o decidido rumo tomado por João Lourenço, independentemente das limitações que lhe sejam reconhecidas, é importante passo para “esvaziar” a corrupta oligarquia angolana, não sendo apenas mero “mudar as moscas sem limpar a porcaria” ou acreditar que “o jacaré se tornou vegetariano só porque o disse”. Fundamentadamente, deseja-se e espera-se que as medidas tomadas pela actual Presidência de Angola vão mais além do que já foram e que encaminhem o país para a democracia que até à data lhe foi recusada. Mas negar o que de positivo já demonstrou e é reconhecido pela maioria dos observadores, é fechar os olhos à evidência e renunciar a um decidido apoio aos esforços para uma verdadeira democratização, podendo mesmo ajudar a comprometer o caminho já encetado. Claro que cabe aos angolanos optar pelos caminhos a seguir por si, mas os observadores não podem fechar os olhos para os caminhos que vão sendo optados.

Nuno Rebocho

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