Home Cidadania ARISTIDES DE SOUSA MENDES (03 DE ABRIL 1954 / 2017)

ARISTIDES DE SOUSA MENDES (03 DE ABRIL 1954 / 2017)

por Teresa Pedro

LEGADO DE CORAGEM E NOBREZA

No dia 3 de abril de 1954, morreu Aristides de Sousa Mendes, pelas 14 horas da tarde de um sábado aos 68 anos.

“Morreu em Lisboa. Tinha sido admitido no Hospital de São Francisco, à qual pertencia, tal como o irmão César, e aí acabou por sucumbir ao fim de três dias.” (1)

O seu corpo foi envolto no hábito de S. Francisco e a sua urna enviada para o jazigo de família em Cabanas de Viriato, onde era aguardado por vários parentes, entre eles César, o seu irmão gémeo, que apenas sobreviveu um ano à morte do irmão.

“Quando o meu avô morreu, em 1954, a família estava destroçada e espalhada por vários continentes. Mas todos os descendentes transportavam dentro de si o sentimento de que a injustiça cometida contra os seus pais tinha de ser reparada. Esse sentimento era tão forte que os meus tios, filhos de Aristides, o transmitiram aos seus próprios filhos como parte do ADN da família.” (1)

UM VISTO PARA A VIDA – “OPERAÇÃO DE SALVAMENTO” (2)

Curiosamente, Aristides de Sousa Mendes resistiu internado, tantos dias quantos os que entre 17 e 19 de junho de 1940 coadjuvado pelos seus dois filhos mais velhos, se dedicou exaustivamente a salvar vidas do jugo de Hitler, tendo concedido cerca de 30 000.

“A partir de agora, darei vistos a toda a gente, já não há nacionalidades, raça ou religião. Se há que desobedecer, prefiro que seja a uma ordem dos homens do que a uma ordem de Deus.” (3)

Estas foram as palavras que, de acordo com testemunho escrito do seu filho Pedro Nuno, Aristides de Sousa Mendes (1885-1954) declarara no dia 17 de junho de 1940, na residência consular em Bordéus, onde exercia as funções de Cônsul Geral (1938-1940).

Poucos dias depois, no dia 24 de junho, recebeu de Salazar um telegrama a intimá-lo a regressar a Lisboa pelo ato abusivo de indisciplina.

O governo português chefiado por Salazar, emitira a Circular nº 14 em 1939, proibindo a concessão de vistos a cidadãos apátridas, russos, estrangeiros sem meios de subsistência e em particular a judeus expulsos dos seus países de origem ou de países de onde eram cidadãos, o que, na prática significaria uma sentença de morte com destino aos campos de concentração e eventualmente campos de morte, para milhares de refugiados.

Consequentemente, colocaria em risco a sua carreira diplomática e a sobrevivência da sua numerosa família.

A sua coragem, integridade e abnegação impediram-no de equacionar outra alternativa.

Um imperativo de consciência guiava as suas ações, efetivamente, após a invasão de França por Hitler em 1940, Aristides afirmou: “Não participo em chacinas, por isso não obedeço a Salazar”.


Tal como Aristides, o seu gémeo César, foi penalizado, por ter apoiado o irmão, por se ter denunciado diretamente a Salazar, invocando a mesma razão que Aristides iria apresentar no processo disciplinar, conforme o atesta uma carta redigida por César destinada a Salazar.

“César de Sousa Mendes era ministro de Portugal em Varsóvia, quando a Polónia foi invadida pelos nazise a família viveu tempos de grande aflição sem nenhumas notícias do gémeo de Aristides. César também passou vistos a judeus e disse-o a Salazar em defesa do irmão.” (1)

Salazar, antecipou-se e no outono de 1940, enviou César de regresso para Mangualde onde permaneceu quase cinco anos em inatividade, nomeando-o em janeiro de 1945 (com a Alemanha nazi praticamente derrotada) como ministro plenipotenciário no México.

Destituído do cargo e impedido de exercer outros, condenado sem julgamento, deliberações regidas por ilegalidades e incumprimentos, Aristides de Sousa Mendes viu repetidamente ignorados os seus pedidos de reabilitação de cidadania, foi abandonado por muitos amigos e ficou sem meios de sustentar a sua família que se dispersou por serem detentores dos seus apelidos. Um refugiado na sua pátria, até morrer.

Ainda assim nunca se arrependeu.

Quando vinha a Lisboa no verão de 1940, em conversas com o rabino Kruger que ao saber que Aristides enfrentava a raiva de Salazar, terá lamentado: «Tudo o que está a sofrer agora por nossa causa!», e Aristides, que procurava dar-lhe algum consolo por tanto infortúnio, respondeu-lhe: “Se milhares de judeus estão a sofrer por causa de um católico – Hitler -,  então é compreensível que um católico – Aristides – possa sofrer por causa de tantos judeus. Eu não podia ter agido de outro modo, por isso aceito, com amor, tudo o que me aconteceu e poderá vir a acontecer por causa do meu gesto.“» (1)

Após todas as provações e ilegalidades infligidas a ambos os gémeos e sobretudo ao Cônsul “Desobediente”, Salazar enviou um cartão de condolências que a família guardou, apesar da inqualificável hipocrisia demonstrada, semelhante ao agradecimento com que foi agraciado pelos Aliados por ter permitido a ação de Aristides de Sousa Mendes.

O RECONHECIMENTO PÓSTUMO

Detentor de uma brilhante carreira diplomática, Aristides de Sousa Mendes, aos 55 anos de idade, quando afastado por Salazar, de três décadas com o exercício de funções em quatro continentes (sempre acompanhado pela família), trabalhou ao serviço de D. Manuel II, dos sete primeiros Presidentes da República, da ditadura militar (entre 1926 e 1932) e, por fim, durante o Estado Novo até 1940.

O primeiro reconhecimento do seu ato heroico veio de Israel em 1966 pelo Yad Vashem, autoridade judaica para a Memória do Holocausto, nomeia os primeiros Justos Entre as Nações, à época, apenas dois diplomatas, um deles Aristides de Sousa Mendes.

À esquerda, o Major Álvaro de Alpoim Sousa Mendes acompanhado de seu primo, à direita, Dr. António De Moncada Sousa Mendes,num reconhecimento de Yad Vashem

Em Portugal, apenas no dia 18 de março de 1988, 22 anos depois, a Assembleia da República reunida em sessão especial, aprovou por unanimidade e aclamação, a reintegração na carreira diplomática, a título póstumo, de Aristides de Sousa Mendes, com promoção ao grau de Embaixador.

Em 1995, o então Presidente da República Mário Soares agraciou postumamente Aristides de Sousa Mendes com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo.


Em 2017, 22 anos depois, no 63º aniversário da sua morte, na Casa do Passal (casa da família finalmente restaurada no exterior) , em Cabanas de Viriato, o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa distinguiu-o com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, honrando-o por ter dado primazia ao “valor supremo da pessoa humana e à sua intocável dignidade” (4)


Neste dia, Aristides de Sousa Mendes é relembrado e homenageado em todo o mundo pelo seu imperativo de consciência com plena lucidez das suas consequências desobedecendo em plena II Guerra Mundial.

Neste dia, apenas 79 anos após o seu feito, em tempos gravemente conturbados questionando a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Dignidade da Pessoa Humana, com a propagação clara e visível da disseminação do ódio, da liberdade de circulação, da violação dos deveres para com os refugiados, faz todo o sentido relembrar Aristides de Sousa Mendes, alertar as consciências, restabelecer o “olhar o outro” como parte de um todo na sua unicidade parte integrante da Humanidade, abraçando testemunhos como o do Cônsul de Bordéus, honrando-o não somente com palavras e homenagens…

Neste dia, importa estudar (5), relembrar e abraçar a inevitabilidade de não só disseminar o exemplo de Aristides de Sousa Mendes, mas sobretudo, honrá-lo agindo como ele (que marcou a vida de mais de 30 000 pessoas) descartando egos, interesses individuais e juntos lutar pela Paz e pelo respeito integral da Pessoa Humana.

Só assim seremos dignos de soletrar o seu nome… o do JUSTO ENTRE AS NAÇÕES.

Teresa Pedro

_____

Notas:

(1) Citação retirada do livro Aristides de Sousa Mendes – Memórias de Um Neto, da autoria do Dr. António De Moncada Sousa Mendes, Edição Desassossego, outubro de 2017, ISBN: 978-989-99875-4-8

(2) Título retirado da Introdução do livro mencionado na Nota (1) e do Capítulo VII, respetivamente.

(3) Palavras de Aristides de Sousa Mendes.

(4) Palavras proferidas pelo Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa no seu discurso no dia 3 de abril de 2017.

(5) Ler antes de tudo, o livro mencionado em (1), analisar documentação do Instituto Diplomático Português do MNE, entre outras entidades oficiais devidamente creditas.

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