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DIVA(LI)GAÇÕES

por EMonteiro Ferreira

É possível construir e destruir uma habitação, uma relação social, mercadorias ligadas à agricultura e tecnologias que se vão concentrando num território juridicamente aceite. Ou um país em nome de uma ideia. É também possível, com ou sem estratégia ponderada, construir ou destruir um texto, e, de modo complexo, produzir e conectar pensamentos livres já de si contraditórios.

Em quase tudo, construir dá trabalho, destruir nem tanto. Um país pode construir—se em séculos e destruir—se num segundo. Articulando hábitos de grupo e blocos sociais envolventes, pode—se querer ligar temas, à partida nada parecendo terem em comum.

E, de repente, pode fraccionar—se o mundo em nome das desgraças. Ou até se pode—se inventar harmonia, cheia de ritmos que quiseram impôr o esquecimento da melodia, e como resultado, no âmbito da revolução técnico—científica desde há 60 anos a transformar a Ordem estabelecida, qualquer ligação para mim integradora, vira reducionismo primário, em nome da exclusiva «correlação de forças». 

Comecei por referir o que acabei de aprontar: uma 2.ª, edição de um trabalho, difundido pela 1.º, vez em 1989 em Angola, sobre Custódio Bento de Azevedo, um intelectual rural que lutou contra o liberalismo imposto no hinterland de Loanda nos anos 10 do século XX. Prossegui: tinha descoberto que este conterrâneo trocara correspondência com um estadunidense a viver em Paris chamado Clay Burton Vance. Depois, consegui saber que as referências a este, astrólogo, nos primeiros decénios do seculo XX eram muitas em vários países. França, EUA, Brasil, Espanha, Itália, Inglaterra, etc.

Ao deambular pela verdadeira maravilha que passou a ser a base documental na internet, reparei que Clay Burton Vance aparecia também em Portugal em jornais do Algarve, de Lisboa e no Montijo. Aqui, em publicação de 4 páginas, chamada «O Domingo», semanário republicano radical, de 14 de Fevereiro de 1915, no 15 º ano, com o número 710, tendo como redactor e proprietário, José Augusto Saloio, aparecia um artigo, ocupando quase três quartos da página 3. Nele se abordavam as «Predições de 1915» feitas pelo «celebrado astrólogo parisiense Clay Burton Vance». Este defendia que nesse ano haveria «cousas sombrias e muitos naufrágios» como resultado do «titânico conflito entre as nações», prevendo que na Europa e na Ásia «haverá peste, fome, miséria e tribulações». E que «as forças superiores» destruiriam o «militarismo prussiano» que «ameaçava aniquilar os direitos e liberdades da democracia».

Noutro relampejar de esperança — os EUA entrariam na guerra nesse ano — dizia que (a) «as relações internacionais melhorarão muito e com unânime acordo as classes operárias europeias dedicar—se-hão a trabalhos pacíficos e industriais»; (b) haverá «grandes mudanças e profundas reformas na Europa Oriental», excitando «as tendências revolucionárias e tenderá a minar o poder monárquico», emergindo «uma nova era…de brilhantes promessas para os povos da Grã-Bretanha, da França e da Rússia», com mudanças nas 2 últimas «nações»; (c) prevendo a destruição da «flor da varonilidade» dado o número de mulheres, entre «certas classes ricas poderá aparecer um movimento religioso similar ao «mormonismo». Entretanto, falava nos que «estão expostos aos golpes da desgraça» como a África do Sul.

E dizia que Portugal e Turquia iam passar «por grandes transtornos», e que nos EUA haveria a morte de uma ou várias «pessoas eminentes…das altas esferas». No final, particularizava o futuro para cada signo. Querendo continuar o meu círculo desenhado, foi possível, no mesmo jornal e na página seguinte, fazer nova ligação. Entre anúncios sobre Justiça, venda de prédios, editais, publicidade alimentar, médicos, aprendizagem da língua francesa, ou medicina vegetal, aparecia um com duas ligações para mim não acessórias. A primeira tinha a ver com o mundo da reflexão que, 100 anos depois, em Portugal,se retrata, entre outras, na Associação Promotora do Livre Pensamento. Porquê? Porque o título do anúncio, na página 4, era «O Livre Pensamento».

E no sub-título era anunciado em livro um «trabalho de alta transcendência filosófica» sobre a «verdade, a razão e a ciência esmagando os preconceitos bíblicos e os dogmas absurdos das religiões que têem dominado o mundo e entravado o progresso». O anúncio defendia ainda «a luz iluminando uma nova era libertando o espírito da mulher e da criança».

Depois resumia, entre outros, capítulos como «Onde principia e onde acaba Deus», «O dilúvio dos hebreus», «O egito histórico até ao êxodo do povo de Moyses», «Autos de fé, tormentos, morticínios, e assassínios em nome de Deus cristão», ou a «A separação da Igreja do Estado». O seu preço era de 200 réis (300 reis se fosse encadernado).

A obra era dedicada a Afonso Costa e a Magalhães Lima, estava à venda em todas as livrarias, e em referência a pedidos de assinatura, revenda ou encomendas dava—se o endereço de Luiz Pereira, Jogo da Bola, Óbidos. A outra ligação, era o autor da obra: assinava A.E. de Vitória Pereira. Foi aqui que achei por bem terminar a minha experiência. 

Porque, para quem investigar ligações, por exemplo no âmbito do espaço imperial antigo, o apelido Vitória Pereira aparecerá visível em Angola, menos na imagem, mais no protagonismo. Via música (onde sobressaiu,no conjunto «Ouro Negro», Milo Vitória Pereira), na política, (onde sobressaíu o médico C.MacMahon Vitoria Pereira, e menos Anália V. P. ou a filha desta), e no sindicalismo e menos na música (onde se tem notado Manuel Vitória Pereira, elemento fundamental do Sindicato os Professores em Angola). 

Contrariando realistas e utópicos do passado de todo o mundo, este apelido liga–se à angolanidade, à independência e ao «fundador da nacionalidade».

Como?

Através de círculos obrigatórios mesmo não escolhidos por cada um de nós, tendo a ver, entre si, com temas contraditórios e ligações bem ténues. Ligar o desligado inventou—se, separar o agregado foi rápido, e o novo agregado vai demorar a consolidar: (a) tal como a harmonia, o ritmo e a melodia da ligação quadrilha – adufe – sanfona que, apesar da resistência, vai sendo «matada» pela aliança neo–anímista – divina — e realista, que, sem escrúpulos, lhe inventaram a sepultura e colocaram–lhe em cima da campaplanificada, o proto—musiquismo aborígene da kizomba, do rap e do jazz; e

(b) tal como o meu círculo que, para ficar completo, após começar por Angola, «misturar» Karl Marx, Democracia, Astrologia, EUA, França, Portugal,maçonaria, Livre pensamento, elites chamadas crioulas, e República, terminou, já vazio, em Angola. Via ligações improváveis, sempre contra o nacionalismo, o situacionismo, e o uniformismo.

Na defesa da laicidade, do maior aprofundamento de compromissos entre Liberdade e Igualdade, e da crença na Humanidade.

Foto de destaque: miroslav0108 on Visual Hunt / CC BY-NC-SA

Eugénio Monteiro Ferreira.21 de Março de 2019.

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