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Perfil Discriminante do Atleta de Basquetebol infanto-juvenil Moçambicano de dois Níveis Competitivos

por Editor

Autoria: Bernardo Matsimbe

Bernardo Matsimbe(1), César Milagres(3),  Leonardo Nhantumbo(2), Siomara Aparecida da Silva(3)
 (1)Faculdade de Educação Física e Desporto, Universidade Pedagógica,
Moçambique
(2)Escola Superior de Ciências do Desporto, Universidade Eduardo Mondlane,
Moçambique
(3)Laboratório de Metodologias de Ensino do Esporte, Universidade Federal de Ouro Preto, MG,
Brasil

Resumo. O estudo teve como objectivo identificar os atributos discriminantes em basquetebolistas infanto-juvenis moçambicanos de acordo com o nível competitivo de ambos os sexos.

Métodos. A amostra incluiu basquetibolistas da categoria infanto-juvenil em ambos os sexos (N=165), divididos em dois níveis competitivos: selecções nacionais moçambicanas (n=30) com idade 15,40 ± 0,49 anos e atletas não seleccionados (n=135) com idade = 15,66 ± 0,47 anos. Foram avaliados no perfil antropométrico (altura, peso, envergaduras vertical e horizontal), capacidades motoras (resistência cardiorespiratória, velocidade de deslocamento, flexibilidade, agilidade, força e resistência abdominal, força explosiva dos membros superiores, impulsão vertical estático e com contra movimento) e as habilidades desportivas lançamento, passe, drible e deslize defensivo. Para o efeito utilizou-se os protocolos sugeridos por BOSCO et al.,(1983) e GAYA (2015) e KIRKENDALL et al., (1987). As medidas dos dois grupos foram comparadas através do teste t de student para amostras independentes. Foi feita a análise da função discriminante tendo como variável dependente o nível competitivo (selecionados e não seleccionados) e como variáveis independentes as medidas recolhidas.

Resultados. A função discriminante identificou que apenas cinco variáveis apresentam um coeficiente de correlação de valor modular superior a 0.30 e uma previsão de sucesso em 87,9%. Nesta função, o coeficiente de correlação canônica foi de 0.651. Conclusões. Nos basquetebolistas infanto-juvenis moçambicanos a envergadura vertical é a medida morfológica mais determinante para se chegar à seleção nacional em contra partida, a envergadura horizontal, a força e resistência abdominal e a flexibilidade foram as variáveis caracterizadoras que menos relevância tem para se chegar ao nível de pestação.

Palavras-chave: Basquetebol; Capacidade motora; Habilidade desportiva.

Profile Discriminante do Athleta Mozambican Infante-Juvenile Basketball Player of Two Competitive Levels

ABSTRACT

Key words: Basketball. Motor capacity. Sport Skill

INTRODUÇÃO

Atualmente, o Basquetebol segundo PAES et al., (2010), se conceitua como uma modalidade desportiva e é caracterizado como um esporte coletivo (EC). Como tal, de acordo com os contextos pode se manifestar de varias formas: um campo de aplicação da ciência, uma disciplina de ensino curricular, um meio de treinamento para o alto rendimento, um meio de lazer, inclusão e etc. É um esporte dinâmico e complexo que concilia estruturas de movimento explosivas (sprints curtos, paragens bruscas ou momentâneas, mudanças rápidas de direcção, saltos verticais e acelerações) com diferentes habilidades motoras e específicas como o driblar, o passar, o lançar, entre outras (Coelho Silva et al., 2010; Carvalho et al., 2011; Santos e Janeira, 2012). Este quadro de relações restringe um modelo de tarefas motoras complexas, intermitentes e dinâmicas, demandando aos atletas elevadas habilidades motoras, capacidades motoras coordenativas e condicionais, notáveis capacidades táctico-técnicas e conhecimento estratégico do jogo (Tavares et al., 2006; Paes et al., 2010; Moreira et al., 2014; Tani e Corrêa, 2016).

De forma similar, dentro das categorias dos EC, o basquetebol é considerado um esporte de invasão e de circulação de bola apresentando características de interações entre ataque e defesa, nas quais as situações de cooperação e oposição são as características determinantes (Garganta, 2009). Entretanto, as características morfológicas dos jogadores, nomeadamos perfis antropométricos e os atributos físicos bem como técnicos, parecem ter relevância significativa no desempenho esportivo (Figueiredo et al., 2009; Coelho Silva et al., 2010; Carvalho et al., 2011; Malina et al., 2012), apesar do peso significativo que os factores psicológicos e sociais assumem no desenvolvimento da competência específica do jogo (Davids et al., 2000; Phillips et al., 2010; Coutinho e Mesquita, 2012).

Ao observarmos as diversas características dos atletas de alto nível, percebe-se a existência de atributos que discriminam um dos outros e essas diferenças estão presentes no plano das estruturas substantiva bem como temporal e são bem acentuadas dentro das capacidades de rendimento. No entanto, os perfis antropométricos, capacidades motoras e habilidades esportivas têm sido apontados na literatura como variáveis ideais para a predição do bom nível competitivo no basquetebol (Coelho Silva et al., 2008; Figueiredo et al., 2009). Todavia, alguns autores tem apontado também que o crescimento, a maturação e a menarca para o caso das meninas interferem no desempenho esportivo (Matsudo et al., 2007; Guedes, 2011; Malina, 2011).

Além de se conhecer o perfil específico das modalidades, o rápido progresso dos esportes de rendimento, tem exigido dos profissionais o conhecimento de características físicas específicas nas diferentes posições ou funções de jogo, dentro de uma mesma modalidade, buscando uma maior eficiência e direcionamento no treinamento específico (Marques et al., 2009).

O presente estudo tem sua relevância na medida em que possibilita a identificação de parâmetros que definem o perfil do atleta de alto nível na categoria infanto-juvenil, auxiliando o processo de encaminhamento destes às diversas seleções nacionais, um desafio para os estudiosos e profissionais do esporte. Assim, as medidas de avaliação destes perfis têm uma significativa expressão na elaboração do processo de ensino-aprendizagem-treinamento (EAT). Entretanto, a literatura na área do basquetebol aponta uma carência de estudos que retratam essas variáveis em categorias competitivas iniciais, devido a uma forte tendência de análise das categorias adultas (Greco e Benda, 2006; Carvalho et al., 2011; Moreira et al., 2014).

Face ao exposto, este estudo tem como objetivo fundamental identificar os atributos discriminantes na seleção do basquetebolista infanto-juvenil moçambicano de acordo com o nível competitivo em ambos os sexos.

MATERIAIS E MÉTODOS

. O presente estudo foi conduzido em conformidade com os parâmetros éticos e aprovado pelo colegiado da escola doutoral da Faculdade de Educação Física e Desporto da Universidade Pedagógica

Amostra

A amostra foi composta por 165 atletas do sexo feminino e masculino, com idade entre 15 e 16 anos, dividida em dois níveis competitivos, nos quais, 30 foram convocados para as seleções moçambicanas de sub 16, sendo 15 masculinos e 15 femininos e 135 que não faziam parte das seleções nacionais. Os dois grupos selecionados e não selecionados são atletas federados inscritos na Associação de Basquetebol da cidade de Maputo e estavam no período básico e inicial de treinamento no momento de realização do presente estudo.

Protocolos

Os protocolos para avaliação das medidas antropométricas e das capacidades motoras condicionantes foram sugeridos por BOSCO et al.,(1983) e GAYA (2015). As habilidades técnicas de basquetebol foram avaliadas com recurso ao protocolo de KIRKENDALL et al., (1987), nos seguintes parâmetros (i) precisão e velocidade de execução do lançamento ao cesto medida através do número máximo de pontos convertidos, (ii) precisão e velocidade de execução do passe contra a parede também medida pelo número máximo de pontos, (iii) precisão e velocidade de execução do drible (condução da bola com as mãos) com mudanças de direção medido em segundos e (iv) precisão e velocidade de execução dos deslocamentos lateral em deslizamento defensivo também avaliado em segundos.

Tratamento Estatístico

Os pressupostos da normalidade da distribuição dos dados foram verificados através do teste de Kolmogorov-Smirnov. Foi efetuada a análise discriminante. A função discriminante foi construída com base no perfil das capacidades motoras e coordenação com bola das habilidades técnicas assumindo variáveis independentes (preditoras) e o nível competitivo (selecionados e não seleccionados) foi assumido como variável dependente. Todos os cálculos comparações, correlações e associações foram efectuados no programa estatístico SPSS, versão 23.0, a significância adotada foi de  p < 0,05.

RESULTADOS

Na tabela 1 são apresentados valores descritivos do perfil antropométrico, perfil motor bem como do perfil das habilidades técnicas específicas. A comparação entre os grupos (selecionados e não selecionados) demonstrou que ao nível do perfil antropométrico apenas o peso e a envergadura horizontal não apresentaram diferenças estatísticas significantes. No perfil motor somente a flexibilidade, a impulsão vertical e a velocidade de deslocamento não revelaram nenhum poder de diferenciação e ao nível do perfil das habilidades técnicas somente o deslize defensivo não evidenciou diferenças sinificativas do ponto de vista estatistico.

Tabela 1. Valores médio e desvio padrão (Dp) para o perfil antropométrico, capacidades motoras e habilidades técnicas do basquetebol dos atletas infanto-juvenis nos dois níveis competitivos.

  Seleccionados   30 Não Seleccionados 135
Variáveis         M±DP               M±DP
Lançamento (pontos) 25,60±12,46* 12,61±6,15 *
Passe (pontos) 41,77±22,75 * 29,70±17,33*
Deslize lateral (seg) 10,69±0,63 12,49±4,44
Drible (seg) 9,48±0,67 * 10,38±3,46*
Peso (kg) 62,43±10,87 63,47±8,97
Altura (m) 1,80±0,09* 1,75±0,09*
Envergadura vertical (cm)               235,56±14,54* 203,06±21,11*
Envergadura horizontal (cm) 189,60±12,33 181,88±10,95
Flexibilidade (cm) 31,63±8,39 33,95±7,41
Agilidade (seg) 6,12±0,55* 6,46±0,88*
Força Explosiva dos Membros superiores (cm) 7,95±1,81* 6,49±1,56*
Força Resistencia Abdominal (rep) 29,30±5,70* 35,45±11,66*
Impulsão Vertical Estático (cm) 38,17±6,82 36,27±9,53
Impulsão Vertical com contra movimento (cm)    42,16±10,87 42,15±9,83
Velocidade de deslocamento (seg)         3,59±049 3,71±0,61
Resistência Cardiorespiratória (m)           1352,33±333,91*          118,18±246,57*

*diferenças significativas entre os dois níveis competitivos (seleccionados e não-seleccionados) para p<0.05.

Quando aplicada à função discriminante entre os grupos, no perfil antropométrico e nas capacidades motoras, verificou-se a existência de uma função estatísticamente significativa (p<0,05), que consegue discriminar os dois grupos. Das 12 variáveis encontradas como preditoras do nível de prestação apenas cinco dessas variáveis apresentam um coeficiente de correlação de valor modular superior a 0.30 e uma previsão de sucesso em 87,9%. Nesta função, o coeficiente de correlação canônica foi de 0.651 (ver tabela 2). Esta correlação canônica mostra o quanto a função está relacionada aos grupos, ou seja, estamos perante uma relação positiva a forte que discrimina bem os grupos. Neste caso, a envergadura vertical aparenta maior importância para discriminar os dois grupos, seguido das variáveis resistência cardiorespiratória, impulsão vertical com contra movimento, velocidade de deslocamento e impulsão vertical respectivamente.

Tabela. 2: Matriz estrutural da correlação canônica e demais resultados da função discriminante do perfil antropométrico e capacidades motoras

Variáveis na função Coeficiente de correlacção
Envergadura vertival 0,872*
Resistência cardiorespiratória 0,437*
Impulsão vertical (SCM) -0,417*
Velocidade de deslocamento -0,327*
Impulsão vertical (SE) 0,322*
Força explosiva dos membros superiores 0,293
Peso -0,275
Agilidade -0,221
Altura -0,106
Flexibilidade -0,097
Força resistência abdominal -0,080
Envergadura hoirzontal -0,026
Lambda de wilks 0,577
Qui quadrado 86,417
p 0,000
Eigenvalue (auttovalor) 0,734
Correlação canônica 0,651

Legenda: SCM= salto com contra movimento; SE= salto estático; p= significado estatístico, *valores de correlação acima de 0,30.

No concernente ao perfil das habilidades técnicas, verificou-se à semelhança do perfil antropométrico e capacidades motoras a existência de uma função significativa de ponto de vista estatístico (p<0,05), quer dizer que esta função discrimina os dois níveis competitivos. O resultado da análise da função discriminante (tabela 3) indicou uma função linear de quatro variáveis – lançamento, deslize defensivo, passe e drible que previu com sucesso 89,1%, portanto. Parece que estamos perante uma boa função para discriminar os atletas dos dois níveis competitivos. Esta percentagem de predição quando comparada a percentagem do perfil antropométrico e das capacidades motoras (87,9%) parece ligeiramente superior. Analisando os coeficientes estruturais, constatam-se quais as varáveis que melhor relacionam com a função ou que mais contribuem relativamente para discriminar os dois grupos. Segundo Pedhazur e Schmelkin,(2003), são consideradas variáveis mais importantes àquelas que apresentam coeficientes iguais ou superiores a (0,30).  

Tabela 3: Matriz estrutural da correlação canônica e demais resultados da função discriminante das habilidades técnicas

Variáveis na função Coeficiente de correlacção
Lançamento 1,078
Deslise defensivo -0,197
Passe -0,185
Drible -0,118
Lambda de wilks 0,665
Qui quadrado 65,615
p 0,000
Eigenvalue (auttovalor) 0,503
Correlação canônica 0,579

Legenda: p= significado estatístico.

DISCUSSÃO

Muitos estudos têm sido realizados com o objetivo de identificar e descrever as diferentes características “perfis” de indivíduos nas mais diversas modalidades esportivas. Tais estudos têm a preocupação de delimitar os diversos atributos associados aos diferentes níveis de rendimento esportivo, ao sexo, às diferentes modalidades e às diferentes posições táctico-técnicos.

Para Maia (1993), o interesse dos pesquisadores por este campo de estudo ocorre pelo fato do fenômeno esportivo, sobretudo no alto nível de rendimento, exigir o máximo das diferentes capacidades que determinam o rendimento esportivo. Além disso, há a expectativa das funções que o atleta desempenha no jogo, em que estão associadas à estrutura de exigência da modalidade em questão. Nesta perspectiva o recurso da estatística da análise da função discriminante foi utilizado para verificar as correlações entre as variáveis preditoras e a função discriminante (coeficientes estruturais), foi possível identificar quais são os indicadores que apresentam maior poder em discriminar os dois grupos de atletas.

Assim, no âmbito da análise da função discriminante estabelecida como uma das estratégias metodológicas neste estudo, é possível observar que na seleção dos atletas em ambos os sexos, destacam-se como indicadores de seleção, a variável envergadura vertical, resistência cardiorespiratória, impulsão vertical (SCM), velocidade de deslocamento, impulsão vertical (SE), força explosiva dos membros superiores, peso e lançamento da bola ao cesto.

Utilizando técnicas estatísticas multivariadas, Gonçalves Da Silva e Gaya (2002), com uma amostra de 128 indivíduos do sexo masculino com idades entre 14 e 16 anos, divididas em dois grupos conforme o nível de prestação desportiva (G1= 68 escolares e G2 = 60 atletas de handebol de nível nacional) foi avaliado a estatura, envergadura, massa corporal, flexibilidade, força resistência abdominal, força explosiva dos membros superiores e inferiores bem como a agilidade. Os resultados deste este estudo indicaram uma função discriminante com grande poder discriminatório e significativo (Wilk’s Lambda = 0,268: Correlação Canônica = 0,856 e p= 0,000). Outrossim, a análise da função discriminante evidenciou a relevância das variáveis: força explosiva dos membros superiores e inferiores e agilidade, envergadura, estatura e massa corporal. Estes autores, concluíram que para a função discriminante, 93,8% dos casos foram correctamente classificados em seus grupos originais e dos 68 escolares avaliados, 3 (4,4%) foram classificados como handebolistas, constituindo-se em potenciais talentos para o handebol.

Erčulj et al.,(2009), também apresentaram um estudo realizado com uma amostra de 65 basquetebolistas do sexo feminino de 27 países Europeus de 14 e 15 anos de idade; divididos em três grupos de acordo com a posição de campo (armador, ala e pivô); tal estudo avaliou força explosiva dos membros inferiores, salto em profundidade, velocidade de deslocamento, agilidade, agilidade em drible, lançamento de bola ao cesto, força explosiva dos membros superiores. Os resultados indicaram uma função discriminante significativa (canônica R = 0,65; p = 0,005) que representou em 87,7% da variância, os atletas pivô tiveram o pior desempenho em ambos testes de velocidade, mas eles foram os melhores em lançamentos. Porém, neste estudo concluiu-se que as diferenças entre atletas diminuem e só são preservadas tecnicamente nos movimentos mais exigentes realizados com a bola. Já Coelho Silva et al.,(2010), com uma amostra de 80 basquetebolistas de 12 a 14 anos de idade, avaliaram o perfil antropométricas, capacidades motoras e habilidades técnicas específicas, com o objetivo de dicriminar basquetebolistas em geral, a selecção distrital e o cinco ideal. Neste estudo, os resultados indicaram que as variáveis estatura, impulsão vertical, lançamento de bola medicineball (2kg), enveradura, massa magra, dinamometria manual e força resistência abdominal, destacaram-se como os principais indicadores de seleção na primeira função discriminante.

Uma das constatações que emerge dos resultados deste estudo são as diferenças entre os dois níveis competitivos em todas as variáveis em análise nomeadamente peso, altura, envergaduras (vertical e horizontal), resistência cardiorrespiratória, velocidade de deslocamento, impulsão vertical (estático e com contra movimento), flexibilidade, agilidade, força e resistência abdominal, força explosiva dos membros superiores, lançamentos, passe, drible e deslize defensivo. Entretanto, a função discriminante identificou que duas das variáveis caracterizadoras do perfil antropométrico (peso e altura), três das variáveis caracterizadoras do perfil motor (agilidade, flexibilidade e força e resistência abdominal) e três das variáveis caracterizadoras das habilidades desportivas (deslize defensivo, passe e drible) não apresentavam coeficiente de correlação modular superior a 0,30. Nesta função, os coeficientes de correlação canônica foram 0,651 e 0,579 respectivamente.

Observa-se ainda neste estudo que a diferença na envergadura vertical, resistência cardiorrespiratória, velocidade de deslocamento e, por conseguinte na impulsão vertical assim como na habilidade técnica de lançamento, justificam a discriminação entre os dois níveis competitivos (selecionados e não selecionados), corroborando a literatura atual do basquetebol (Coelho Silva et al., 2008; Carvalho et al., 2011; Bizerra et al., 2017). Com efeito, pode-se hoje afirmar que as variáveis mencionadas de discriminação passam a ser um elemento indispensável para o alcance do alto nível junto às variáveis genéticas, capacidades motoras, capacidades tácticas, estratégias de treinamento entre outras.

Todavia, pode-se observar a evolução de algumas variáveis do perfil antropométrico no basquetebol mundial através de dados das seleções infanto-juvenis moçambicanas que, embora com pouca expressão no contexto africano e mundial e a seleção portuguesa pela sua ligação histórica com Moçambique na qual, a altura média era de 187,61 ± 6,80 e 183,89 ± 6,76, peso médio era 71,76 ± 6,94 e 75,64 ± 9,78, envergadura média era 247,93 ± 9,39 e 198,7 ± 11,6 respectivamente. Quanto às capacidades motoras, a impulsão vertical a média era 34,34 ± 5,96 e 36,46 ± 3,08, velocidade de deslocamento a média era 4,08 ± 0,47 e 6,66 ± 0,22 simultaneamente (Coelho Silva et al., 2010; Matsimbe e Nhantumbo, 2011).

No contexto deste estudo quando observados os resultados da categoria dos selecionados em relação aos não selecionados nota-se que os atletas selecionados em ambos os sexos são aqueles que melhores resultados apresentam em quase todas as variáveis em análise. Estes dados também confirmam que quanto mais alto o nível de performance mais alta a altura dos atletas e melhor as capacidades motoras destes.

Esta constatação foi observada também em um estudo realizado por Cabral et al.,(2011), com uma amostra de 40 voleibolistas infanto-juvenis do sexo feminino com idades de 15 e 16 anos, subdivididos em dois grupos (seleção brasileira e seleção estadual), foram avaliados a massa corporal, estatura, somatótipo, altura máxima de ataque e impulsão vertical, (variáveis preditoras). Dos principais resultados verificaram-se diferenças entre os dois grupos na massa corporal, massa gorda, estatura, altura máxima de alcance, alcance de ataque e somatótipo. A função discriminante identificou que as variáveis caracterizadoras do somatotipo (endomorfia, ectomorfia e mesomorfia) não apresentavam coeficiente de correlação modular superior a 0.30; Nesta função, o coeficiente de correlação canônica foi de 0.776. Neste estudo, estes autores concluiram que em voleibolistas infanto-juvenis do sexo feminino, o somatotipo e a impulsão vertical não permitem diferenciar jogadoras segundo nível de prestação e que a estatura é a medida morfológica mais determinante para o desempenho de alto rendimento.

No presente estudo, observou-se que a força explosiva dos membros inferiores, quantificada indiretamente pela altura do salto vertical com contra movimento, apresentou-se também como uma variável com bastante poder discriminatório entre os grupos com um coeficiente de correlação modular de -0,417. Todavia, a altura, a envergadura horizontal e o peso dos atletas moçambicanos não se apresentam com maior poder de distinção dos atletas nos dois níveis (com um coeficiente de correlação de -0,106 e -0,026) respectivamente. Estes resultados sugerem que estas variáveis podem não ser de grande importância como atributos de diferenciação destes atletas. Ou pelo menos, sugerem que a sua importância seria menor impacto se relacionada com as características das capacidades motoras (sobretudo a resistência cardiorrespiratória, impulsão vertical, velocidade de deslocamento e força explosiva dos membros superiores). Com efeito, é um fato que atletas com elevada estatura poderão desenvolver essa capacidades motoras com o treinamento, mas atletas de baixa estatura por mais treinamento aplicado não alcançarão o mesmo índice de altura e envergadura.

Um fato que merece realce é o estudo realizado por Ramos e Massuça (2017) que envolveu 32 basquetebolistas masculinos do escalão sub16 (elite, n = 14; sub-elite, n = 18), foi avaliado maturação, morfologia externa e aptidão física; para identificar as variáveis que permitem discriminar significativamente os atletas elite e sub-elite foi utilizada a análise discriminante. Os resultados deste estudo indicaram que os atletas de elite eram significativamente mais pesados, mais altos, possuíam maior envergadura, eram significativamente mais ágeis, mais fortes nos membros superiores, mais potentes nos membros inferiores saltavam mais alto e possuíam maior capacidade anaeróbia que os atletas sub-elite. A análise da função discriminante revelou que a estatura e a agilidade discriminaram com sucesso, com uma classificação correta de 87.5%, os jogadores elite e sub-elite (p < 0,001).

Quanto às habilidades desportivas, o presente estudo sugere que apesar das diferenças significativas entre os atletas dos dois níveis competitivos, ao nível do drible não se encontrou essas diferenças estatísticas já que os atletas que não pertencem às seleções nacionais apresentaram uma melhor prestação nesta tarefa em termos médio (29,70±17,32). Esta mesma tendência não foi observada em estudos de (Coelho Silva et al., 2008; Matsimbe e Nhantumbo, 2011; Matlombe e Nhantumbo, 2016). Tais estudos permitiram constatar que os atletas do nível mais avançado são aqueles que apresentavam valores médios superiores em todas as tarefas de habilidades desportivas avaliadas, contudo, o equilíbrio entre as capacidades motoras representa a tendência do basquetebol mundial, ou seja, o nível competitivo não diferencia entre os atletas em ambos os sexos.

Os resultados relatados pelos estudos, bem como os do presente estudo, parecem demonstrar a necessidade de definição mais apurada de perfis de características de cada estrutura temporal e níveis de designação dentro do esporte. Todavia, a modesta comparação dos valores observados nos dois níveis competitivos não oferece concluir da maior ou menor probabilidade de um atleta pertencer aos selecionados ou não, em função do seu perfil morfológico, capacidades motoras e habilidades desportivas. Por esse fato, procedemos a uma função de análise discriminante.

Claramente que o presente estudo apresenta limitações, como a de ser de natureza transversal. Um estudo longitudinal permitirá compreender melhor se existem outras características que separam os atletas de um nível competitivo de outro e por outro lado, auxiliar os treinadores e selecionadores nacionais dentro do processo de ensino-aprendizagem-treinamento uma vez, tratar-se de atletas ainda em processo de formação esportiva.

CONCLUSÃO

As variáveis preditivas que mais distinguem os atletas nos dois níveis competitivos foram envergadura vertical, resistência cardiorespiratória, impulsão vertical, velocidade de deslocamento e a habilidade técnica de lançamento. Entretanto, os dois níveis competitivos em ambos os sexos são significativamente diferentes com relação à altura, envergadura vertical, agilidade, força explosiva dos membros superiores, força e resistência abdominal e resistência cardiorespiratória.

Quanto às habilidades desportivas as diferenças foram verificadas ao nível do lançamento, passe e deslize defensivo. Porém, foi possível constatar que no basquetebolista infanto-juvenil moçambicano de ambos os sexos, as variáveis peso corporal, envergadura horizontal, flexibilidade, impulsão vertical, velocidade de deslocamento como também ao nível do drible não permitem diferenciar os atletas segundo o nível competitivo não obstante, a envergadura vertical posiciona-se como a variável mais determinante para discriminar os dois níveis competitivos.

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CORRESPONDÊNCIA

Bernardo Pedro Matsimbe
Faculdade de Educação Física e Desporto
Universidade Pedagógica
Av. Eduardo Chivambo Mondlane
Cel: +258 82 35 83 850/ 849003571
Moçambique
E-mail: matsimbeb@gmail.com

Agradecimentos
Aos treinadores e aos atletas que participaram neste estudo.
Não foi recebido financiamento para este trabalho.

Conflito de interesses
Os autores não têm conflito de interesses a declarar.

Autor: Bernardo Pedro Matsimbe

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