Home Internacional Conversações de Hanói: jogo de sombras chinesas das propagandas desmentido pela realpolitik

Conversações de Hanói: jogo de sombras chinesas das propagandas desmentido pela realpolitik

por Nuno Rebocho
(Lusa)

A realidade das verdadeiras intenções, de um e outro protagonista, acabou por se sobrepor ao emaranhado do jogo de sombras intentado pelas respectivas máquinas de propaganda e tudo ficou praticamente na estaca zero: manteve-se o armistício acordado em 1953 e a situação de “nem paz nem guerra” que divide a península ibérica, cortada quase ao meio por uma zona desmilitarizada.

Os apertos internos que sufocam Donald Trump em Washington só não rivalizam com os que Kim Jong Un vive em Pyongyang porque aí o regime se esconde atrás de espessa cortina de fumo, imposta por vigilante polícia política, férrea censura e totalitário controlo dos habitantes. O “juche” (espécie de “autossuficiência”), arquitectado por Kim Il-Sung e instituído em dogma em 1972, impõe as regras e a República Popular da Coreia (Coreia do Norte) ficou impenetrável à circulação de notícias. É hoje o que foi, na Europa, a Albânia de antes de 1992.

Para a cimeira de Hanói, cada um dos líderes políticos carregou com intenções claramente definidas: Trump propunha a desnuclearização da Coreia do Norte, enquanto Kim Jong Un reclamava a desnuclearização de toda a península, ou seja – a retirada dela também do arsenal nuclear americano. As negociações havidas na capital do Vietnam esbarravam, portanto, num “mal-entendido”: aparentemente, falava-se na mesma coisa mas, de facto, propunham-se objectivos opostos. Demais, os coreanos apresentavam uma exigência prévia para continuarem à mesa de negociações: que os Estados Unidos, ainda que parcialmente, levantassem as sanções económicas erguidas contra o regime de Pyongyang.

A “cobertura” nuclear americana da Coreia do Sul não visa apenas suportar o regime demoliberal de Seul: garante igualmente a protecção do Japão e é uma arma apontada à China vermelha e à Rússia onde amado-odiado Putin impera no Kremelin. No xadrez das geoestratégias está muito em jogo para se poder apenas discutir em conversações a dois, entre Trump e Jon Un. E ambos tinham, e têm, disso consciência.

Teriam, naturalmente, que dar em “águas de bacalhau” as conversações de Hanói. Para a Coreia do Norte, “a desconfiança e o antagonismo” esfriaram os alardeados entusiasmos pelo que, no seu término, não houve nem declaração conjunta nem jantar de encerramento. Ficaram as partes de mão a abanar, apesar de se registarem “trocas muito positivas e francas” (o salvar de face geralmente usado para disfarçar que as negociações foram improdutivas) e de a parte norte-coreana propor novas conversações num futuro indeterminado.

As intenções propaladas por Donald Trump (bastamente propagandeadas) de arrecadar “êxitos” no affaire coreano visavam apenas aliviar as pressões dentro dos Estados Unidos, onde as suas políticas tropeçam em sucessivos desaires. Eram ilusões para eleitor ouvir, já que a maioria estado-unidense (que nunca, verdadeiramente, votou nele) não lhe perdoa a manigância pouco democrática que o levou à Casa Branca nem as suspeitas de ardilosamente ter tido havido mãozinha moscovita nos bastidores da sua ascensão à Presidência norte-americana. A sua governação ameaça enfileirar entre as de má-memória nos anais, juntamente com as de Truman, Richard Nixon e Georges W. Bush.

Quanto a Pyongyang, o pouco que ressalta do enorme gulag em que o regime da dinastia Kim se converteu e do estreito isolacionismo que o opacifica (o “endeusado juche” apenas é revivescência do “reino eremita” que geriu a península no século XIX, pintada hoje com uma fraseologia dita marxista-leninista) leva a admitir que as revoltas surdas por parte da população ferreamente dominada poderão explodir a qualquer oportunidade. Para já, a dinastia Kim (que chegou ao poder com a cobertura soviética no final da Segunda Guerra Mundial), transitando do velho guerrilheiro Kim Il-Sung, o “Presidente constitucionalmente Eterno”, para seu filho Kim Jong-il e para seu neto Kim Jong Un, fundamenta-se numa política “songum”, isto é, “os militares em primeiro lugar”. Chamem-lhe “ditadura do proletariado” ou qualquer metáfora com que a queiram vestir.

Nuno Rebocho

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