Home África Cabo Verde quer conquistar uma “segunda independência”

Cabo Verde quer conquistar uma “segunda independência”

por Nuno Rebocho
SICK_SHOTS on Visual Hunt / CC BY-NC-SA

Para que a sua economia se possa resolver, é necessário unificar o território nacional. É algo que a mais rasteira evidência impõe a Cabo Verde, pequeno país com menos de 600 mil habitantes, fragmentado em 9 ilhas habitadas no meio do Atlântico, marcado por um clima saariano e não dispondo o seu subsolo de recursos que possam suportar, de maneira sustentada, um nível de vida, pelo menos, razoável (segundo os padrões europeus).

Se, mesmo com “acidentes de percurso”, o arquipélago vem realizando um “milagre” no continente africano, podendo ser considerado um país relativamente evoluído, dispondo de uma economia equilibrada ainda que pobre, de níveis de educação, de saúde e de cultura incomparáveis (na área geográfica em que se insere) e vivendo uma sólida democracia política. Conseguiu-o, na decorrência da sua recente independência, obtida em 1975, por arrasto da libertação nacional da Guiné-Bissau.

Para alguns seria um país inviável – era essa a perspectiva então tida pelos principais “claridosos” (Baltasar Lopes da Silva, Manuel Lopes…) e igualmente pelo Ministro Português dos Negócios Estrangeiros do I Governo Provisório do Portugal democratizado, Mário Soares. Contra ventos e marés, todos desafiando, conseguiu vencer o “cabo das tormentas”.

Nos dias de hoje, prepara-se para dar novo passo em frente que quase equivale a uma “segunda independência”: unificar o seu espaço nacional, ultrapassando o obstáculo do mar-oceano, mercê da criação de uma empresa de transportes marítimos, onde a portuguesa Transisular entra com 75% do capital e os armadores cabo-verdianos com 25%.

Os narizes torcidos dos “velhos do Restelo” fizeram-se notar

Seis meses é o prazo previsto para que ganhe forma a novel empresa, resultante de concurso. Reunindo o disperso e pobre armamento cabo-verdiano que, no imediato, deverá assegurar a ligação marítima entre as ilhas, a companhia assim constituída deve trazer para Cabo Verde, a breve prazo, 5 navios, com idade máxima de 15 anos. Ou seja, ampliando o reduzido mercado nacional, não fomentador de investimento e da economia, o arquipélago reforça também a sua frota mercante.

Contra esta solução, pronunciaram-se inicialmente os armadores cabo-verdianos que se sentiam postos à margem do negócio. Até certo ponto, a sua reacção era compreensível e forçou que sua participação ultrapassasse os 15% primeiramente previstos. Todavia, vingou a racionalidade das coisas: se o dinheiro dos armadores era pouco, reduziam-se a nada as suas basófias – ficavam apenas para português as ouvir.

Claro que, só por si, a nova empresa de navegação não resolve o problema dos transportes entre ilhas. Precisa também de melhores portos, organizados e equipados de modo que se reduzam os custos operacionais. Algumas medidas estão a ser tomadas para tanto: aquisição de gruas para os portos de S. Vicente (Mindelo) e Praia, melhoria dos portos de Palmeiras (ilha do Sal) e Maio, entrada em navegação de novos ferries, etc. Pretende-se que, no futuro, sejam vencidos os gravosos handicaps para a actividade económica: por exemplo, hoje em dia, é mais barato transportar um contentor de Cabo Verde para a Europa do que o transportar de uma para outra ilha do arquipélago.

Transportes aéreos: solução à vista

Com a solução achada para os transportes marítimos, os transportes aéreos seguem o mesmo caminho, podendo acontecer muito em breve a privatização da Cabo Verde Airlines. Ao que se sabe, as negociações estão muito avançadas, estando a ser preparado um acordo entre a Loftleidir-Icelandic, o Grupo Icelandair e a TACV (Transportes Aéreos de Cabo Verde). Por essa forma, decide-se a exploração dos transportes internacionais e reforça-se o número de aeronaves em serviço para a exploração de mais voos, enquanto os transportes aéreos nacionais foram, para já, entregues a uma empresa canarina, a Binter. A melhoria dos aeroportos (prevendo-se que abertos a concessões) está programada: definindo-se um hub aéreo, centrado no Sal, com aeroporto da Praia já remodelado e a serem construídos novos aeródromos em Santo Antão (Porto Novo) e Brava, igualmente melhorados os do Fogo e do Maio.

É uma etapa nova para os transportes de Cabo Verde. Com a abertura de novas estradas e desencravamento de localidades nas diversas ilhas, surgem novas condicionantes também para os transportes rodoviários locais. O novo sistema de transportes em vias de afirmação nestas ilhas africanas (as míticas Hispérides) terá importantes incidências na sua economia.

Nuno Rebocho

Foto : SICK_SHOTS on Visual Hunt / CC BY-NC-SA

0 comentário
0

RECOMENDAMOS

Comente

* Ao utilizar este formulário, você concorda com o armazenamento e gestão de seus dados por este site.