Home África ANGOLA SACODE-SE DOS TEMPOS DO “CRIME SEM CASTIGO”

ANGOLA SACODE-SE DOS TEMPOS DO “CRIME SEM CASTIGO”

por Nuno Rebocho

As declarações atribuídas ao antigo ministro angolano que afirmava, sem rodeios, eu semanalmente mando um avião para as minhas fazendas buscar duas cabeças de gado; uma para mim e filhos e outra para os cães” (Kundi Paihama, Ministro dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria), avivaram a magoada memória dos luandenses num momento em que Higino Carneiro, ministro das Obras Públicas em tempos de José Eduardo dos Santos (2007), é finalmente ouvido na Direcção Nacional de Investigação e Acção Penal de Luanda. A “varredura” da corrupção em que a sociedade angolana se atolou, desejada pela Presidência de João Lourenço, vai se realizando com dificuldades: “O lado extraordinário da audição de Higino Carneiro decorre essencialmente do desfasamento de tempo que houve entre as denúncias da imprensa privada e independente. Este ato é o primeiro de audição que tem lugar ao nível do DNIAP” (afirmação de Alexandre Neto Solombe na Imprensa daquele país).

Foto: Pixabay

Na inquirição iniciada no DNIAP, o general na reserva Higino Carneiro é arguido num caso de despesas injustificadas no valor de 115 milhões de dólares, quando exercia cargos governamentais. É ainda acusado de ter promovido funcionários do seu Ministério que não dispunham dos necessários requisitos legais para tal exigidos. São exemplos da corrupção e do caciquismo de que Angola foi terreno fértil com os quais, até há pouco impunemente, se locupletou a entourage de Eduardo dos Santos. Higino Carneiro, ex-governador de Luanda depois de sair do Governo, foi uma das “vacas sagradas” do regime luandense catapultadas pelas Forças Armadas angolanas (FAPLA’s) para as benesses proporcionadas pela política oficial.

Com Higino Carneiro há outros antigos poderosos também arguidos: Manuel Rabelais, deputado do MPLA, e Augusto Tomás, ex-Ministro dos Transportes, ambos a aguardar julgamento na prisão. Para que a “campanha de limpeza” encetada por Lourenço começasse a fazer-se, foi necessário que o actual Presidente angolano determinasse o levantamento de impunidades que resguardavam o clã dossantimo e os seus protegidos. Os processos que daqui resultam esbarram com o paradoxo que os seus julgadores sejam, afinal em grande parte, outros corruptos de ontem, o que inevitavelmente levanta naturais reticências em quantos apoiam e batem palmas ao saneamento em curso na política e na economia de Angola.

A memória não esquece

Não é só no expurgo do clima de corrupção e amiguismo que vestia o “paraíso angolano” que se encontra a recusa ao enferrujamento da memória de quantos o sofreram ou com eles contactaram. Também a memória do cortejo de prisões, fuzilamentos e massacres que pautaram a sangrenta gestão de Agostinho Neto pede bem alto que justiça seja feita e os mortos recordados. Estão neste caso o massacre em Luanda (mais de 50 mil chacinados), de ovimbundos e bakongos, entre os quais o vice-presidente da UNITA Jeremias Kalandula Chitunda, o secretário-geral Adolosi Paulo Mango Alicerces, o representante na Comissão Conjunta Político-Militar (CCPM) nascida no acordo de Bicesse que armisticiou o confronto entre o MPLA e a UNITA, Elias Salupeto Pena, e o chefe dos Serviços Administrativos deste Movimento em Luanda, Eliseu Sapitango Chimbili. Também o massacre de Pica-Pau, 4 de Junho de 1975, onde perto de 300 crianças e jovens, na maioria órfãos, foram assassinados e os seus corpos mutilados.

No massacre da ponte do rio Kwanza, 12 de Julho de 1975, 700 militantes da UNITA foram barbaramente assassinados pelo MPLA, perto do Dondo (Província do Kwanza Norte), perante a passividade das forças militares portuguesas que deviam garantir a sua protecção, enquanto nos acontecimentos de 27 de Maio de 1977, foram torturados e assassinados os acusados de serem apoiantes de Nito Alves ou opositores ao regime.

Centenas de angolanos foram igualmente fuzilados em público nas praças e estádios das cidades de Angola entre 1978 e 1986, iniciados a 3 de Dezembro de 1978 na Praça da Revolução, no Lobito, com o fuzilamento de cinco opositores, com auge a 25 de Agosto de 1980 com o fuzilamento de quinze angolanos no Campo da Revolução em Luanda. No dia 29 de Setembro de 1991, o MPLA assassinou em Malange o secretário Provincial da UNITA naquela Província, Lourenço Pedro Makanga, a que se seguiram muitos outros na mesma cidade. E em 22 e 23 de Janeiro de 1993, o MPLA desencadeou em Luanda a perseguição de bakongos, sendo assassinados perto de 300 civis.

Em Junho de 1994, a aviação do MPLA bombardeou e destruiu a Escola de Waku Kungo (Província do Kwanza Sul), tendo morto mais de 150 crianças e professores. Entre Janeiro de 1993 e Novembro de 1994, a aviação atacou indiscriminadamente a cidade do Huambo, a Missão Evangélica do Kaluquembe e a Missão Católica do Kuvango, tendo morto mais de 3.000 civis.

Ou, entre Abril de 1997 e Outubro de 1998, na extensão da Administração e ao abrigo do protocolo de Lusaka, o MPLA assassinando mais de 1.200 responsáveis e dirigentes dos órgãos de Base da UNITA em todo o país. Para não referir também a violenta repressão que se abateu sobre os partidários da Revolta Activa e da Revolta Leste, facções do MPLA que se opunham à de Agostinho Neto, e que levou às prisões do regime Liceu Vieira Dias, Gentil Viana, Adolfo Maria e muitos outros.

Tal cortejo de barbaridades foram cometidas e até mesmo aplaudidas pela “esquerda portuguesa”, há que não esquecer. Hoje em dia, Angola parece despertar de um pesadelo e as memórias, como as palavras, soltam-se, lembrando o ocorrido. Recordam as palavras de Kundi Paihama, outro dos caciques netistas, menosprezando a fome sentida por parte da população de Luanda : “os porcos também comem e não morrem”. Farelo, dizia ele.

Nuno Rebocho
Jornalista e escritor

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