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No centenário do assassinato de Rosa Luxemburgo

por Joffre Justino

( “…Sem eleições gerais, sem uma liberdadede imprensa e uma liberdade de reunião ilimitadas, sem uma luta de opiniões livres, a vida vegeta e murcha em todas as instituiçõespúblicas, e a burocracia torna-se o único elemento ativo.“
Rosa Luxemburgo  (05 .03.1871 / 15.01.1919)


• Os “erros” e as críticas de Rosa Luxemburgo a Lenine 

Quando Lenine afirmou que “É dado às águias descer mais baixo que as galinhas, mas nunca as galinhas poderão subir tão alto quanto as águias”, segundo os luxemburguistas Lenine estaria a ser maldoso com esta leader polaco/alemã/internacionalista, pois Rosa Luxemburgo tanto era a águia que via do alto como descia mais abaixo que as galinhas isto é, para Lenine ela errara tanto que por vezes se comportava pior que uma galinha. 

Em consequência, e no interior do partido comunista que criara, o KPD, em cisão á Esquerda do SPD, o comunista e alinhado coma URSS KPD, passou a usá-la estritamente comoarma contra o campo adversário.

Segundo estes críticos luxemburguistas Leninena realidade usou a sua imagem para criticar o desvio denominado de “luxemburguismo” pois ela teria desenvolvido n’A acumulação do capitaluma teoria mecanicista do colapso do capitalismo e teria ainda criado uma teoria espontaneista quanto à liderança dos Trabalhadores que teria dado origem ao fracasso da insurreição de outubro de 1923, pois recusava a necessidade da organização política na luta pelo socialismo, isto é a liderança da revolução por um partido comunista.

Aliás, os textos de Rosa Luxemburgo só forampublicado na República Democrática Alemã em 1974, com claro um prefácio dito marxista-leninista, que media as ideias “erradas” de Rosa pelas “corretas” de Lenine e só em 1990 num prefácio ao texto “maldito”, uma luxemburguista conhecida, Annelies Laschitza é que assume, em fim de festa da RDA, tarde demais para as Esquerdas, “Apesar de todos os debates e de tudo o que se escreveu sobre o manuscrito de Rosa Luxemburgo, ele se revela cada vez mais um manifesto profético a favor da democracia e da dignidade humana, a favor do socialismoverdadeiramente democrático.”, numa nova visão do marxismo ocidental fim de século XX que irá até acompanhar algumas das tendênciasdo Verdes alemães.

Esta Oposição de Esquerda, alguma dela ligada ao Die Link a fação de esquerda que abandonou o SPD no entanto tem outra perspetiva pois defende que Rosa Luxemburgo é na verdade profética no seu apoio insane ao mais alargado espaço público popular, onde os trabalhadores e os inteletuais, com a existência da liberdade de imprensa, de reunião e associação, levam à participação tanto por meio de partidos políticos, como de sindicatos, de coletivos de militantes autónomos, de associações, de cooperativas, mútuas, etc, constroem uma sociedadecrescentemente livre e igualitária.

Rosa criticou assim a dissolução da Assembleia Constituinte imposta pelos bolcheviques, e por Lenine, vendo nessa medida o primeiro passo de um processo implacavelmente gerador da burocratização de toda a vida política, dos sovietes também claro, e impondo uma ditadura de partido único e uma sociedade burocratizada num modelo de capitalismo de estado gerido por esse partido único.

O que como a História mostrou ela era quem tinha razão ao ponto até de vivermos hoje uma Esquerda quase sem programa estratégico e dividida até dentro das lógicas nacionalistas dos Estados que condena.

Rosa Luxemburgo rejeitou a Realpolitik dos bolcheviques, e a palavra de ordem de apropriação das terras, com a consequente criação de uma nova camada de pequenos proprietários inimigos da coletivização e do socialismo, defendendo neste ponto o programa agrário da social-democracia, (da época atenção…) que, por via da eliminação progressiva da pequena propriedade camponesa e da concentração das terras em grandes propriedades seriam a base para a futura agricultura socialista.

Para Rosa Luxemburgo o socialismo noscampos seria equivalente a nacionalização/estatização + industrialização da agricultura, na realidade exceto a nacionalização/ estatização o mesmo que o sucedido no modelo capitalista privatista, grandes monoculturas com seus nefastos efeitos colaterais enfim tudo ao contrário de um programa ago ecológico que hoje se defende na verdade a expressão de um preconceito do marxismo de então contra os pequenos camponeses, assumindo-os como uma classe social em desaparecimento, na via de  um proletariado industrial o que aqui também a história do século XX mostrou o equívoco dessa posição.

Já no que concerne à autodeterminação das nações, a discordância entre Rosa e Lenine é ainda maior sendo que a oposição ao nacionalismo (hoje eufemisticamente e à Esquerda chamado de patriotismo para se distinguir das extremas direitas) começou com a fundação da Social Democracia na Polônia de1893, o partido de Rosa Luxemburgo em oposição ao Partido Socialista Polonês, que, fundado um ano antes em Paris, defendia a independência da Polônia pois esta dirigente comunista horror ao nacionalismo, considerando-o um obstáculo à luta pelo socialismo argumentando que como a Polônia era a parte mais industrializada do império russo, o mercado consumidor para as mercadorias polonesas, a independência polaca não fazia sentido.

Assim, para ela, a palavra de ordem de autodeterminação das nações era utópica e reacionária, pois amarrava os proletariados nacionais ao nacionalismo, impedindo-o de se posicionar na luta comum pelo socialismo.

Rosa Luxemburgo defendia pois que as nações que faziam parte do império russo, em vez de se aliarem à revolução, como pensavam os bolcheviques no seu “otimismo incompreensível”, dizia ela passariam para o lado da contra revolução, o que mais uma vez a História o provou até nas experiências terminais do império português onde os nacionalismos gerou um desastre económico e social brutal (auto critica minha, ou pelo menos assunção da necessidade de uma mais profunda reflexão sobre o tema).

Para Rosa Luxemburgo a grande razão do revolução na Rússia deve-se ao fato de ser um processo iniciado num só país, dada a “inércia fatal” dos trabalhadores alemães, abandonados pela social-democracia e pelo imperialismo alemão. 

Na sua análise do processo revolucionário na Rússia, no qual os bolcheviques foram forçados pelas circunstâncias, a manterem-se no poder, a adotar políticas em desacordo com o programa socialista não se podendo aceitar como modelo um processo histórica e socialmente limitado critica de Rosa Luxemburgo, que lamentavelmente, foi desprezada pelos comunistas em todo o século XX.

Aliás é a sua visão de uma Democracia de base que justifica que Staline nunca tivesse colocado Rosa Luxemburgo no altar da iconografia máxima do socialismo. 

Ela que foi uma heterodoxa até o fim de sua vidaque errou ao não aceitar como Cunhal fez em 1975 eleições para uma Constituinte e que por esse erro levou até às ultimas as suas consequências recusando-se até a sair de Berlim para continuar o seu combate é hoje a referencia essencial para se perceber como o movimento comunista errou e como o movimento social-democrata do principio do século XX traiu a Democracia e esteve na origem do fascismo por ceder por nada a não ser por uma migalha de Poder.• Rosa Luxemburgo, uma história Revolucionária

De origem judaica mas não Judia de religião, polaca sem passaporte, e militante socialista desde os 15 anos, doutorada em Zurique, naturalizada alemã mas radicalmente internacionalista dirigente política quando as mulheres ainda nem podiam votar, Rosa Luxemburgo foi “uma das melhores cabeças do socialismo internacional” e foi assassinada há precisamente cem anos, a 15 de janeiro de 1919, imagine-se, a mando dos seus antigos camaradas social-democratas.

Cem anos depois, muitos milhares de pessoas continuam a manifestar-se em Berlim, invariavelmente no segundo domingo de cada mês de janeiro para evocar aquilo que foi na altura um assassinato politico de extrema gravidade – o assassínio de Rosa Luxemburgo e de Karl Liebknecht.

Daí também a Conferência Rosa Luxemburgo 2019, com variada intervenção política sobe a vida, e a obra de Rosa Luxemburgo.

Rosa Luxemburgo era, a figura predominante naala esquerda do SPD tendo encabeçado na viragem do século um debate contra as propostas de Eduard Bernstein, que converteramo SPD, um partido apadrinhado por Marx e Engels num partido dedicado à reforma gradual do capitalismo e já não mais à luta pelo socialismo (algo que aliás hoje o SPD abomina, o socialismo).

Foi tal o seu empenho com o livro Reformasocial ou revolução, que a Direção do SPD, inicialmente acabou por rejeitar as inovações que este propugnava. 

As teses acima foram desenvolvidas no livro A acumulação do capital, em que surge como uma economista marxista com a rara capacidade de examinar criticamente, corrigir e aprofundar a teoria marxista original.

Mas Rosa Luxemburgo militante ativa que era intervinha regularmente em todos os debates partidários, alertando contra as ilusões dos sindicalistas sobre o alcance da catividade reivindicativa sindical por ela denominada como um “trabalho de Sísifo” que, apesar de necessário, volta sempre ao ponto de partida, ou contra a tentação do SPD para escolher os seus temas de propaganda de mero utilitarismo eleitoralista que abusivamente diga-se classificava de “cretinismo parlamentar”, enfim a ideia de que os deputados social-democratas pudessem conseguir em combinações de bastidores alguma melhoria significativa para a classe operária como bastante para a via para osocialismo.

Rosa Luxemburgo assistiu à, vaga revolucionária russa que em 1905 eclodiu neste império comouma oportunidade para as perfectivas do movimento operário e para a sua própria vida, eembarcou em Dezembro para a sua Polónia natal, aí militando até ser presa em Março de 1906 tendo publicado depois de sair da prisão assuas reflexões sobre esta revolução num texto com o título Greve de massas, partido e sindicatos.

Em 1910, reagiu à vaga de manifestações que reclamava o estabelecimento do sufrágio universal na Prússia incentivando o recurso à greve de massas, tal como ela surgira na Rússia em 1905-1906. Mais,

E curiosamente quando defendeu a preconizou insurreição para o movimento grevista prussiano deu como exemplo contemporâneo a instauração da República portuguesa.

Com a sua elaboração teórica sobre a natureza do capitalismo, Rosa Luxemburgo atribuía-lhe uma constante tensão expansionista e uma tendência inata para o militarismo e a guerra pelo que denunciou energicamente todos e cada um dos empreendimentos militares alemães na China, em África, (caso Angola e Namíbia por exemplo que justificou a entrada de Portugal na I guerra mundial pela mão dos Republicanos e foi a raiz do 28 de maio de 1926 depois do fracasso de Sidónio Pais), em Marrocos, tensão que aliás hoje vemos redobrar em quase todos os continentes.

No momento em que o SPD decidiu apoiar a guerra da Alemanha contra as potências da Entente  (Reino Unido, França e Rússia, principalmente), Rosa Luxemburgo convocou uma reunião dos militantes social-democratas que esperava críticos dessa decisão e confrontou-se então com um fracasso mas dedicou-se à mobilização contra a guerra com as poucas forças que a apoiavam e, passados quatro meses, viu um deputado a assumir-se contra a guerra – Karl Liebknecht sendo que Liebknecht se tornou a figura pública do movimento antimilitarista e Luxemburgo a sua líder mais influente e em resultado de tal Liebknecht foi despojado da imunidade parlamentar, enviado para a guerra e, depois, preso e Luxemburgo foi condenada a duas penas de prisão sendo que no cumprimento dessas penas, viria a passar na cadeia três dos quatro anos da guerra e só seria libertada com a revolução de 9 de Novembro de 1918.

Na cadeia, Rosa Luxemburgo escreveu A crise da social-democracia, documento muito duro contra o SPD por ter aderido à política de guerra sob o pseudónimo “Junius”, para não atrair sobre si mais alguma condenação judicial sendo nesse livro escrito na cadeia que nasceu o conceito “socialismo ou barbárie”, que na realidade rompia com a ideia determinista, de um socialismo considerado como desfecho marxista inevitável da História da humanidade.

Foi neste cenário de guerra que Rosa Luxemburgo assumiu que era necessário construir novos partidos, unidos numa nova Internacional tendo entretanto passado a entusiasta da revolução russa de Outubro e em 1918, escreveu um livro que só viria a ser publicado vários anos depois, em que aplaudia a audácia de Lenine e Trotsky, embora depois procedesse a uma crítica severa da política bolchevique reconhecendo somente que essa política estivesse a ser decidida num estado de necessidade, mas protestava contra os imitadores ocidentais do bolchevismo, entusiastas incondicionais que faziam “da necessidade virtude”.

Em 9 de novembro de 1918, a insurreição quetinha começado no porto de Kiel alastrou-se a Berlim e derrubou a monarquia praticamente sem sangue e o levantamento popular teve rapidamente a adesão das tropas 

Karl Liebknecht libertado em Outubro, semanas antes da insurreição, estava em Berlim no momento de proclamar a república, a que chamou “república livre e socialista da Alemanha” e Rosa Luxemburgo foi libertada nesse dia dirigindo-se de imediato para Berlim e descobriu uma cidade em ebulição, com as fábricas e os quarteis a elegerem organizações de tipo sovietista – os conselhos de operários e soldados pelo que nas intervenções públicas que teve a partir daí, passou a preconizar um governo dos conselhos, à semelhança do que sucedia na Rússia soviética opondo-se energicamente à convocação de eleições para uma Assembleia Constituinte.

Em 5 de Janeiro de 1919, perante a sangrenta repressão contra a Esquerda alemã, Rosa Luxemburgo decidiu permanecer na capital, contra os mandamentos elementares da prudência e os conselhos insistentes dos seus amigos mais próximos.

Como é evidente pelo relatado Rosa Luxemburgo era fácil de identificar. Em primeiro lugar por ser mulher, e uma mulher vivida na agitação politica de rua e ainda por cima com uma lesão de infância que a fazia coxear ligeiramente, era, quase inconfundível e por isso as mudanças de residência quase todas as noites, foram insuficientes para a esconder durante muito tempo, até porque circulava no seio dos grupos paramilitares da contrarrevolução, os Freikorps, a promessa de um elevado prémio em dinheiro a quem a denunciasse ou abatesse – a ela, a Karl Liebknecht e ao representante oficioso da Rússia soviética em Berlim, Karl Radek e escandalosamente com o prémio avalizado pela palavra do genro de Philip Scheidemann, um dos primeiros-ministros social-democratas num Governo da monarquia agonizante, e logo a seguir um dos primeiros num Governo da república nascente e acentue-se Scheidemann fora camarada de Rosa Luxemburgo durante duas décadas nas fileiras do SPD.

Aliás as decisões estratégicas do “terror branco” foram tomadas entre Friedrich Ebert, antigo aluno de Rosa na escola do partido, promovido a líder do SPD após a morte de August Bebel, e o quartel-mestre-general Wilhelm Groener, em contacto telegráfico e depois em telefonema secreto, logo no segundo dia da revolução, em 10 de Novembro de 1918.

Perante a proclamação da república, que não conseguira evitar, Ebert assumia, contrariado, o cargo de chanceler; e Groener prometia o apoio dos militares ao novo governo, depois de se ter assegurado que este estava empenhado em combater o “bolchevismo”. Não era difícil obter garantias de Ebert, que, segundo ele próprio, odiava a revolução “como a peste”, ou, segundo outros “como o pecado”).

Estas decisões do “terror branco” foram tomadas por um também dos homens de confiança de Ebert, o ministro social-democrata Gustav Noske, que se justificaria dizendo que “alguém tem de fazer o trabalho sujo, mas overdadeiro organizador do duplo assassínio foi o capitão Waldemar Pabst, que o general Ludendorff considerava “um dos mais capazes oficiais do Estado-Maior” e que Noske classificava como “brilhante mas sem escrúpulos” que fora chamado a Berlim com a sua Divisão da Guarda de Cavalaria, que ele de facto estava a comandar.

Segundo declarou, anos 60, ao jornalista, da ARD Dieter Ertel Pabst foi a certa altura visitado por um tenente-coronel, que recebeu com a deferência devida a um superior hierárquico. E ficou chocado por ouvir desse oficial sénior a confissão de que presenciara um discurso de Rosa Luxemburgo e que o fascinara a seriedade dos seus argumentos e das suas razões tendo sido esse o momento em que o plano homicida ganhou contornos no seu espírito.

E assim a 15 de Janeiro de 1919, Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo foram localizados graças à delação de informadores e levados para o Hotel Eden, onde funcionava o quartel-general da Divisão da Guarda de Cavalaria.

Liebknecht foi interrogado por Pabst, entregue a dois oficiais da Marinha, os irmãos Pflukg-Hartung, e depois assassinado a tiro pelo tenente Rudolf Liepmann, ou, segundo uma outra versão, pelo próprio capitão Pflugk-Hartung. Chamado à responsabilidade perante um tribunal militar, este justificou-se alegando, em todo o caso, uma das habituais “tentativas de fuga”.

Rosa Luxemburgo foi igualmente interrogada por Pabst, que depois contactou telefonicamente com o ministro social-democrata Gustav Noske e obteve dele a luz verde para o duplo assassínio e assim ela foi levada para um automóvel à guarda do tenente Kurt Vogel, agredida à coronhada pelo soldado Otto Runge, embarcada na viatura já inconsciente, e depois abatida a tiro pelo tenente Hermann Souchon e lançada no Landwehrkanal, onde meses depois apareceu um cadáver que se supôs ser o seu. 

Claro que este fascista Pabst declarou perante o tribunal militar que Rosa Luxemburgo fora arrancada das mãos dos seus guardas por uma multidão enfurecida, raptada  e provavelmente morta por essa multidão.

Invocando a proteção do “bom nome” de Souchon, os tribunais alemães proibiram a imprensa, já depois da Segunda Guerra Mundial, de citar os testemunhos que atribuíam a esse oficial o disparo fatal contra Rosa Luxemburgo e só depois da morte de Souchon, Ertel pôde finalmente ver emitida a segunda parte da sua reportagem, sempre obrigado a acrescentar-lhe a ressalva de se tratar de uma “interpretação histórica”.

Com essa ideia da democracia se explica que Staline nunca elevasse Rosa Luxemburgo ao altar da iconografia máxima do socialismo. Foi uma heterodoxa até o fim de sua vida.

“…A Liberdade é quase sempre, exclusivamente,a liberdade de quem pensa diferente de nós.“,  

Rosa Luxemburgo 

Joffre Justino

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