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O Perigo Amarelo e o Despertar dos Mágicos

por Mário Alves

Aos poucos, o fantasma do “perigo amarelo” vem sacudindo as inquietações dos povos. Para alguns, vislumbra-se a Oriente uma nova ameaça imperialista – e a ameaça da penhora pela China do porto queniano de Mombasa, devido ao acumular de dívidas (a coberto da Cooperação Sino-africana), recorda aos mais incautos que, afinal, não há almoços grátis.

Atrás dos sorrisos, uma estratégia de ocupação do terreno foi pacientemente desenhada ao longo de décadas na Praça da Paz Celestial. Cumprindo a regra maoísta – “quando o inimigo recua, nós avançamos” -, o poder de Beijing afirmou-se sobre o que os imperialismos europeu e norte-americano resignadamente abandonaram em consequência dos ventos em contrário desde os anos 50. Primeiro, a tenaz chinesa cerrou-se sobre países da parte oriental do continente africano: Quénia, Tanzânia, Moçambique foram aceitando progressivamente uma cada vez maior presença asiática e uma “ajuda” que aparentava ser desinteressada.

Depois, a tenaz alargou-se para oeste: os olhares oblíquos da China repousaram sobre pequenas ilhas com interesse geoestratégico: Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe. E começou a namorar Angola. As Universidades chinesas formavam, mais e mais, futuros quadros sensibilizados para receber de braços abertos a influência que lhes entrava em casa pela via da cooperação económica. As desconfianças existentes na África dos anos 60 – que a levaram a preferir o senho soviético aos acenares maoístas – ficavam dissipadas e esquecidas: a política externa encetada por Deng Xiaoping podia avançar a todo o vapor e virar-se para a Europa.

O ocasionalmente aliado americano alertou-se: as falinhas mansas chinesas colidiam com os seus apetites. Decidiu dar um murro na mesa e enveredou por uma guerra comercial com o colosso oriental. As consequências deste conflito cedo mostraram poder ser desastrosas para todos e causar ricochete à Bolsa de Nova Iorque – a desastrada política de Donald Trump dava mostras de desconhecer o mundo envolvente e os interesses do Capitólio falaram mais forte, obrigando a procurar uma solução negociada.

Tanto faz a cor do gato…

O pensamento de Xi Jinping substituiu o pensamento de Mao Zedong: a chamada “Grande Revolução Cultural proletária” falhou por completo, estraçalhada pelos loucos radicalismos do bando dos quatro (Jiang Qing, Zhang Chunqiao, Wang Hongwen e Yao Wenyuan) e enterrada pelo hábil pragmatismo de Deng Xiaoping.

A profunda transformação havida na China post Mao carece de ser analisada sem preconceitos. O Partido Comunista chinês já não é o dos anos 60, a seu modo também ele se tornou um “partido revisionista”. Mudou de natureza e fez-se instrumento orgânico de uma poderosa clique que digere comunitariamente a sua laranja, agrupado sob a batuta de um “imperador” de túnica zhongshan. De Comunista apenas conserva o nome dado pela nomenclatura: optou agora por celebrar as quatro modernizações operadas por Deng Xiaoping respondendo a uma proposta de Zhou Enlai.

Fundamentalmente, a “revolução cultural” maoísta visava arrasar a nata administrativa, agrupada em torno de Liu Shaoqi, que estava a tomar o aparelho de Estado e do Partido: “Mao ladrava e Jiang mordia”, assim explicou Jiang mais tarde. Traduzida em hieróglifos chineses, a “revolução cultural” correspondia à “revolução permanente” intentada por Leon Trosky contra a anquilosante burocracia estalinista. Impulsionada por Lin Biao e Jiang Qing, derivara em radicalismos extremos, originando uma vaga dos afrontados (pelo revolucionarismo do “bando”) a levantar-se sob o comando do Regimento Especial 8341 (serviços secretos chineses) e a afogá-lo.

O processo chinês, a partir da morte de Mao e do estrangulamento do bando dos quatro, foi complexo e enrodilhado em contradições diversas, misteriosas para os olhos de um mundo complacente ao sortilégio chinês. Redundou no seu agigantamento até se transformar numa potência ex-vermelha com tonitruante voz no concerto internacional, de tal modo que despertou inquietações entre os antigos mágicos ocidentais.

Nuno Rebocho *

* jornalista, poeta e escritor português, nasceu em Queluz (Portugal), cresceu e estudou em Moçambique, viveu longos anos em Cabo Verde. Foi preso político durante a ditadura de Salazar (cinco anos de prisão), autor de vasta obra publicada (40 livros – de poesia, romance, crónicas, contos e novelas, escritos de história). Trabalhou em diversos jornais diários e regionais de Portugal e Cabo Verde, publicações especializadas e chefiou a redacção da Informação da RDP-Antena 2. Foi adjunto do Ministério da Habitação, Obres Públicas e Transportes do VI e VII Governos Constitucionais de Portugal e assessor da Câmara Municipal de Ribeira Grande de Santiago,em Cabo Verde. É Cidadão Honorário de Cidade Velha e nomeado assessor lusófono da Korsang di Melaka.

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