Home Artes A ficção vira fake news e vira “realidade”hoje

A ficção vira fake news e vira “realidade”hoje

por Joffre Justino

AO Teatrão depois de trabalhar em “Eu, Salazar”, o salazarento, em peça estreada a 25 de Abril), quis agora refletir sobre a sofisticação da propaganda do regime, que criou uma espécie de “imaginário do país”, conforme relatou à Lusa a diretora d’O Teatrão, Isabel Craveiro.

Estreando na sexta-feira, “A Grande Emissão do Mundo Português”, a sede da companhia de Coimbra transfigura-se num estúdio da Emissora Nacional, para sugerir  esse país imaginário criado pelo Estado Novo e sobre ele refletir.

Neste  tempo de e-fake news, de “notícias falsas”, O Teatrão aborda o papel da Emissora Nacional na criação de um certo país ficcionado pelo Estado Novo, num espetáculo onde se visiona 21 anos do regime liderado por Salazar, entre os anos 40 e 60, indo à  boleia de um programa de rádio e assim o público assiste a um alinhamento, produzido por um grupo de cinco trabalhadores da Emissora Nacional, que vai da música ao noticiário, passando pela publicidade.

À medida que os anos passam vai surgindo, de forma gradual e subtil, “uma fissura entre aquilo que o Estado Novo queria para o país e aquilo em que o país se estava a tornar”, disse à Lusa o dramaturgo da peça, Jorge Palinhos.

O desconforto dos trabalhadores da emissora vai aparecendo confrontados entre o país real e o país ficcionado, sendo que abordar o papel da Emissora Nacional no Estado Novo num momento em que se debatem as “notícias falsas” “não é coincidência”, frisa Isabel Craveiro, “É propositado que seja feito neste momento. No teatro, estamos sempre a tentar entender o estado atual das coisas, fazendo ficções ou pegando naquelas que já existem, mas relendo-as na contemporaneidade”, explica.

Para o dramaturgo Jorge Palinhos, procurou-se, acima de tudo, “encontrar esta ideia da rádio ao vivo e de tentar perceber este encantamento…O que é esta rádio encantatória, que conseguiu inventar um país, um país à imagem do próprio António Ferro [diretor do Secretariado de Propaganda Nacional do Estado Novo]? E o que encontrámos é que o país que hoje se vende é o país que, em larga medida, foi inventando por António Ferro: o galo de Barcelos, o fado, [a ideia de] ruralidade, a Nazaré. Tudo isso parece uma espécie de invenção ficcional que se mantém ainda hoje”, frisou o dramaturgo.

O espetáculo estreia-se na sexta-feira e tem apresentações na Oficina Municipal do Teatro, em Coimbra, até 20 de janeiro, de quarta-feira a sábado, às 21:30, e aos domingos, às 18:00 tendo interpretações de Ana Bárbara Queirós, Celso Pedro, Isabel Craveiro, João Santos e Margarida Sousa.

A direção musical é de Luís Figueiredo, desenho de luz de Jonathan Azevedo e cenografia e figurinos de Filipa Malva.

O espetáculo contou ainda com a consultoria científica de Manuel Deniz Silva e Pedro Moreira Russo, investigadores do Centro de Estudos em Música e Dança, da Universidade Nova de Lisboa.

O preço dos bilhetes é de quatro a dez euros.

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