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A Extrema-direita no Centenário de Karl Marx

por Joffre Justino

27 DE NOVEMBRO DE 2018

Por Osvaldo Bertolino, no Portal Vermelho  – Poucas vezes na história do Brasil se falou e se escreveu tanto a palavra “marxismo” como nos dias atuais. Há uma verdadeira cruzada capitaneada pelos futuros ministros Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Ricardo Vélez Rodriguez (Educação), além do próprio presidente eleito Jair Bolsonaro, para falsificar esse conceito, amplamente reproduzida pelo seu séquito. Para eles, há uma onda de perversão na sociedade que, à falta de melhor definição, atende pelo nome de “marxismo cultural”, que seria uma imaginária trama teórica do comunista italiano Antônio Gramsci.

O famoso orador romano Marco Túlio Cícero — para quem uma boa história precisa responder às perguntas quem? (quis/persona), o quê? (quid/factum), onde? (ubi/locus), como? (quem admodum/modus), quando? (quando/tempus), com que meios ou instrumentos? (quibusadminiculis/facultas) e por quê? (cur/causa) — dizia que Roma era um assunto sobre o qual não se devia pedir nem receber informações, a fim de evitar aborrecimentos. Eis aí a definição de como funciona uma ditadura, o molde perfeito para esses “teóricos” do “marxismo cultural”.

Recordo a citação para dizer que essa formulação bolsonarista tem a presunção de ignorar a sabedoria humana ao conferir a si própria o título e as credenciais de senhora do bem e do mal, do que convém ou não convém ao país. É uma espécie de Ku-Klux-Klan da falsa moralidade, uma ojeriza ao pensamento avançado, humanista, teoria baseada em características e fenómenos de um país que eles imaginam, muito diverso do país real. Algo muito igual ao movimento golpista que se formou no pré 1964. São as mesmas faces, tangendo os mesmos velhíssimos ideais.

São fantasias e fantasmagorias que não se destinam a descobrir, orientar, provar, mas... Se destinam a quê precisamente? A sofismar, a mistificar e mitificar, a ludibriar. Nessa pregação, o delírio teorizante atinge o auge. Como a presunção é o traço mais evidente dos responsáveis por essa formulação, eles pensam que podem vencer pelo cansaço do prolixo. Pode-se dizer que são nominalista; se a realidade — onde coisas e fenómenos estão há muito nominados — não corresponde à sua tese, muda-se o nome das coisas e fenómenos.

Pastel de vento

Pois saibam os que não sabiam, que esse gosto pelo nome dos que se presumem detentores da verdade absoluta, chega à limitação da liberdade de opinião. São eles que mandam e acabou a história. Não há mediação, tampouco os elementos da realidade histórica. O nome dessas trovoadas já existe, sem concurso do Ministério da Cultura: é terrorismo ideológico.

De propósito, esses senhores de sua semântica esvaziam o conteúdo das informações para pôr no lugar frases retorcidas da sua tese falsa. Vazio igual só o daqueles pastéis que a velhinha vendia na feira, apregoando: “Pastéis de camarão!” O comprador se aproxima, pega um, paga. Na hora de comer, diz: “Mas, minha senhora, não achei camarão nenhum!” Ela responde: “O senhor sabe como é, uns gostam, outros não gostam, uns podem, outros não, por isso não ponho.”

Quem come o pastel do “marxismo cultural”? É um pastel de vento, ou vento de pastel. É o estardalhaço natural de quem falsifica os fatos — principalmente quando lhe faltam glórias próprias, por serem desinteressados nos reais problemas nacionais, em auscultar o coração do povo, em ler e entender os processos sociais. Ignoram inclusive direitos que estão na Constituição e em outras cartas. E Ruy Barbosa deixou escrito que a Constituição não é roupa que se recorte para ajustá-la às medidas deste ou daquele interesse. No fundo, eles querem impor a sua lei e a sua ordem totalitárias.

A lei e a ordem, para essa gente, são os seus preconceitos antidemocráticos, sustentados pela ideologia dominante. “Na lei, os burgueses precisam dar-se uma expressão universal precisamente enquanto dominam como classe”, escreveu Karl Marx. As teorias de Marx são visitadas em todas as partes para se compreender o que se passa atualmente, confirmando as palavras de Engels em seu funeral, segundo as quais o nome e a obra do mais famoso pensador alemão atravessariam os séculos.

Padre Vieira

Seu pensamento enfrentou e venceu diferentes fixações fanáticas. Quando não vencem pelos ataques, contudo, apelam para a indiferença em relação à sua alma — a dialética, na definição de Vladimir Lênin. A dificuldade está em procurar compreender o marxismo com espírito científico, isento de paixões e sem a carga irracional de ódio, herdada em boa parte de preconceitos incutidos por anos e anos de anticomunismo estéril.

Mesmo quando ele não é excluído da categoria de fenómeno social — o marxismo é ensinado até nas universidades norte-americanas — procuram a todo custo destituí-lo de sua alma. É assim que os espíritos se fecham ao seu conhecimento, possivelmente com medo de a ele se converter. Para compreendê-lo, é preciso compreender a sua essência revolucionária. Trocando em miúdos: para compreender a realidade, é preciso pensar a realidade. Pensar é apreender os fatos pelo pensamento e compreendê-los como processo em contradição — a mola do movimento real das coisas. Logo, se a realidade é dialética e se pensar é apreender a realidade, pensar é apreender dialeticamente os fatos.

Podemos, nesse vazio de inteligência bolsonarista, nos basear nas palavras do Padre Vieira, no “Sermão da Sexagésima”, onde se vê a causa do povo não acreditar nessa pregação recheada de ameaças ou promessas, uma discurseira que põe palavras onde faltam ideias. Lá se diz: “As razões não hão de ser enxertadas, hão de ser nascidas. O pregar não é recitar. As razões próprias nascem do entendimento, as alheias vão pegadas à memória, e os homens não se convencem pela memória, senão pelo entendimento. (…) O que sai da boca, pára nos ouvidos, o que nasce do juízo, penetra e convence o entendimento.”

Estamos com o texto acima a conhecer como a extrema direita tenta catequizar as suas populações, os seus 39% de votos reais tomando como base um inimigo antigo contra quem perderam ali pelos anos 15/25 do século XX aquando das revoluções, umas falhadas como a alemã, outras vitoriosas (parcelarmente) como a chinesa, ou totalmente como a russa em 1917, que merece ser recordada por via da guerra civil Brancos / Vermelhos e que citamos um texto da net (https://casuloabandonado.wordpress.com/author/luisacpp/page/1/ )

BRANCOS X VERMELHOS: GUERRA CIVIL

  A guerra civil russa foi um conflito armado que eclodiu em abril de 1918 e terminou em 1921. Durante este período, exércitos e milícias de diversas correntes políticas se enfrentaram com o objetivo de implantar o seu próprio regime de governo.  Em várias regiões da Rússia, ex-generais czaristas levantaram suas tropas contra o governo Bolchevique, fundando o movimento Branco, que ficará conhecido como Exército Branco. Aproveitando-se do verdadeiro caos em que o país se encontrava, as nações aliadas resolveram intervir a favor dos Brancos. Tropas inglesas, francesas, americanas e japonesas desembarcaram tanto nas regiões ocidentais (Criméia e Georgial) como nas orientais (ocupação de Vladivostok e da Sibéria Oriental). Seus objetivos eram: derrubar o governo Bolchevique e evitar a “contaminação” da Europa Ocidental pelos ideais bolcheviques.

Segundo FIGES (1999) os bolcheviques instituíram o Terror Vermelho, já o Exército Branco e os cossacos instituíram o Terror Branco. O Terror Branco consistia em progromas: invasão de localidades judaicas promovendo destruição, pilhagem, violência, estupros coletivos e extermínio de judeus. Estrelas vermelhas apareciam pintadas nas sinagogas, judeus eram levados como reféns e fuzilados, eram considerados apoiadores dos bolcheviques, pois os bolcheviques eram compostos por alguns importantes personagens revolucionários de ascendência judaica. Politicamente, os bolcheviques iniciaram a luta final contra outras facções da esquerda (mencheviques, anarquistas e social-revolucionários), terminando por se transformarem no único partido legalizado do país.

Na passagem dos anos de 1920 – 1921 todas as formações contra-revolucionárias haviam sido derrotadas e seus principais expoentes (Koltchak, Wagran, Denikin e Yudenich) exilaram-se no exterior. As forças expedicionárias aliadas foram obrigadas a retirar-se, tanto pela derrota dos Brancos, como pela pressão da opinião pública internacional. No início de 1921, encerrava-se a guerra civil, com a vitória do Exército Vermelho. O Partido Bolchevique, que desde 1918 havia alterado sua denominação para Partido Comunista, consolidava a sua posição de partido único no governo. Era a consolidação da ditadura Bolchevique, do ‘Todo Poder ao Partido Comunista’ e o surgimento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (U.R.S.S.).

Terminada a guerra civil, a Rússia estava completamente arrasada, por volta de 1921 e 1922, 30 milhões de russos foram atingidos por uma crise de fome monstruosa, prontos a perecerem, segundo FIGES (1999, p. 952): “O maior de todos os males da época, responsável pelo extermínio de cinco milhões de vidas, foi a grande fome de 1921-1922”. Quando a Cruz Vermelha e a American ReliefAdministration (Administração de Auxílio Americana), trouxeram mantimentos, alimentando dez milhões de pessoas por dia, já era um pouco tarde: cinco milhões já tinham perecido pela fome. Se não fosse a ajuda internacional e, em particular, a ajuda norte-americana, com o apoio logístico do exército dos Estados Unidos, mais pessoas morreriam.  

Não estamos na linha dos que recusam liminarmente o marxismo, não precisando de ser fascistas para o efeito, como dos que o idolatram sem o pensarem no contexto deste seculo XXI, onde a internacionalização da economia gerou espaços de Bem-estar artificiais e espaços de quase absoluta miséria e citemos um pouco de um texto sobre um desses espaços – a Republica Democrática do Congo – para não falarmos no esquecido Ruanda ou no que sucede no Yemen e no Médio Oriente em geral,

   No Congo teve lugar a Grande Guerra Africana, o mais sangrento conflito armado desde a Segunda Guerra Mundial. A guerra durou cinco anos entre 1998 e 2003, matando 5,4 milhões de pessoas, segundo estimativas. Desde então, a situação no Congo tem permanecido instável.

Grupos de rebeldes e insurgentes continuam resistindo ao governo de Kinshasa (capital do país). De acordo com os números da Igreja Católica, desde agosto de 2016 morreram 3.300 pessoas e mais de um milhão foram deslocadas como resultado dos combates entres tribos rebeldes e o exército congolês.

A situação se agravou ainda mais após o presidente Joseph Kabila ter recusado ceder o poder no fim de seu segundo mandato, conforme a Constituição. Kabila lidera o país desde 2011, mas seu governo não tem tido sucesso em combater os numerosos grupos militantes; os sofrimentos da população continuam.

………………..

No entanto, os ministros do governo descartam as informações sobre o número de pessoas deslocadas. Segundo eles, estas “são menos de um milhão”. Afirmam também que as pessoas deslocadas não fogem do conflito mas tentam voltar para casas de países vizinhos.

Ainda que a RD Congo seja o país com o maior número de pessoas deslocadas, não é o único. Em toda a África há 12,6 milhões de deslocados, muitos chegando da República Centro-Africana, Etiópia, Sudão e Sudão do Sul.

O que queremos dizer com esta citação?

Simples, a luta de classes está transformada não em luta económico social mas em um conflito global pelo controlo de espaços e recursos naturais (onde o Brasil surge na linha da frente por causa da água, da floresta dos solos abandonados pelos grandes fazendeiros e pelo pulmão global – bem mais que somente floresta – a Amazónia ) num tempo em que já é possível fabricar ( e ponho assim de propósito) um ser humano manipulando inclusivamente o seu ADN e em que as tecnologias bio e a inteligência artificial vai empurrar o Ser Humano para fora do mercado, talvez fazendo regressar o romano tempo do “pão e circo” para “sustento” dos humanos que restarem, se tal suceder !

Eis porque mais que Luta de Classes este tempo de mutação total implica sim uma Luta Democrática bem mais urgente e premente que a Não Feita anos 30 do século XX e que gerou o drama da Segunda Guerra Mundial, implicando uma aliança de interesses comunitários entre os que amam o progresso e a solidariedade e não vêm em tudo que é tecnologia somente progresso pois ele só acontecerá se a mesma for solidariamente utilizada!

 

Foto de destaque: karlmarxphotography on Foter.com / CC BY-ND

 

Joffre Justino

    

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