Home Educação e Formação Ainda sobre o 25 de abril – HISTORIA E POLÍTICA (221)

Ainda sobre o 25 de abril – HISTORIA E POLÍTICA (221)

por EMonteiro Ferreira

I

As constatações não são convicções nem se ficam pela imaginação, por ilusões ou são só propriedade de quem tem fama de ser «realista». Porque o sonho continua «uma constante da vida», manter—se—à a possibilidade até da utopia da arracialidade, caso as assimilações «salazaristas» não sejam um fim em si mesmo.

O golpe militar de 25 de Abril de 1974 foi o que tinha que ser, com os apoios que teve e as recusas – com razão! — que até hoje não deixou de ter. Ligando os vários pontos da realidade, vou responder à questão que me foi colocada há tempos: que eu, cidadão comum angolano, não teria apoiado o «25 de Abril de 1974». Houve a hipótese do golpe se desencadear a partir da «jóia da coroa», há anos ao de leve abordada por L.Villas-Boas, e discutida só em Portugal pùblicamente. Por isso, há que previamente responder à pergunta: o 25 de Abril de 1974 foi causa ou consequência das iniciativas de alteração ao status quo simbolizadas no Governador de Angola de 1972—1974? O primeiro facto é impossível de ser contestado e é verdade de La Palisse: o golpe foi desencadeado em Portugal – logo transformado em revolução pelas «massas populares»– via aparelho repressivo «colonialista», «explorador», «racista», «dominador», etc..

O mesmo poder:

(a) que ajudara ao boom económico e no ensino que se desencadeou no período 1962—74, «abafando» lutas nacionalistas em quase todas as frentes;

(b) servido por alguns dos actores que haviam estado na Angola nos anos 1961-1962, ajudando desde logo a emperrar as necessárias negociações entre movimentos armados, oposições (militares, clandestinas ou outras), e líderes do golpe;

(c) que, não deixando de ser posto em causa, em 48 anos não caíu por acção de qualquer organização que a ele se tenha oposto.

Não desvalorizando ninguém, tão pouco qualquer acção, militarizada ou não, no espaço imperial antigo – várias foram extraordinárias em si mesmo (subjectividades) — , é facto que os «rombos» pos—1968 que mais contribuíram, de modo decisivo, para assegurar o golpe (objectividades), vieram da Direita, desde o descontentamento da Ala Liberal incentivada por Marcelo Caetano na Assembleia Nacional imperial, aos impulsos de F. Santos e Castro e apoiantes objectivos do liberalismo económico em Angola (sem o petróleo, em crise em 1973, como questão central), até ao conflito militar na Guiné Bissau (que levou ás mortes dos chefes da luta armada por assassinato e da ala liberal imperial por desastre de helicóptero de visita à região).

Face à acumulação de contradições, o golpe militar a partir de «dentro» era inevitável. O que leva a outras perguntas:

1.º, tenha a ruptura política sido consequência como os actores políticos (salvo quem foi definido como «abrilista») convergiram para impôr a descolonização como necessidade, ou tenha sido causa directa da situação criada pelas direitas– conservadores e não só a agir na defesa do progresso desde 1962 – o golpe fez—se de facto contra os chamados «abrilistas» e não só, logo, terá sido essa a razão prévia conhecida, para ele se ter sido «transferido» de local, de actores políticos centrais, e até de objectivos? Sim!

2.º, a projecção da aliança do «25 de Abril» — da esquerda e da direita imperiais (à excepção da «brigada do reumático») – em Angola levou à divisão imediata entre esquerda e direita independentistas e à não sintonia entre a esquerda imperial e a esquerda civilista ligada à terra, o que levou, como consequência imediata e definitiva (a) ao empolamento dos objectivos descolonizadores imperiais; e (b) à entrada em cena da direita dos movimentos armados? Sim! Em concreto, como Fernando Santos e Castro e o seu bloco político, militar ou outro, não conseguiram convencer toda a esquerda civilista e os seus propósitos em Angola, consumado o golpe, face à desorganização geral (incluindo os movimentos armados), o MFA no centro do império aceitou à partida a manutenção do equilíbrio do Poder via protagonismo da Junta de Salvação Nacional, e, em Angola, de facto rumou em sentido contrário? Sim!!! Como? Gerando afirmações de Maio de 1974 como «Angola quer continuar a ser portuguesa»; avolumando ainda mais a separação entre direitas e esquerdas em todos os patamares; e deixando umas organizações a sonhar com a democracia pluralista e um imaginado Estado de direito, e, umas a seguir às outras, acabando com elas:

(a) aceitando a determinação de que «os colonos» (incluindo os independentistas) eram «um problema dos portugueses»;

(b) aceitando «abafar» o próprio nacionalismo branco, ao apoiar só os poderes negros ainda em 1974 (aproveitando o esquerdismo civilista sem controlo) e na defesa dos «interesses portugueses», permitiu o aprofundar da divisão social;

(c) exponenciando o contraponto entre a reaproximação entre UNITA e Poder Imperial, e a unidade de base MPLA–FNLA, adepta dos definidos como «verdadeiros movimentos de libertação»;

3.º, noutro patamar,  o «25 de Abril» foi ou não um apelo mundializado, em sentido oposto às vagas de extremismo crescentes em muita parte do globo, ficando na História como convergência democrática de todas as sensibilidades políticas em Portugal e em muitas partes do mundo? Foi!!! O exemplo de, no primeiro Governo provisório e seguintes, no bloco liderado pelo «nazi Spínola» — a expressão não é minha e foi aqui colocada de propósito – ser nomeado como Ministro sem pasta o chefe do Partido Comunista português é prova disso ou não? É! Acontecer isto num Estado da OTAN à época, terá sido fruto de um qualquer assunto improvisado ou secundário, em particular após 1971—72, como caminho para alterar objectivos que ultrapassassem a mudança estrita de regime político? Por exemplo levando à ruptura com a OTAN? Claro que não!

II

Mais problemático, após o golpe, foi a luta central (a) entre quem priorizou a africanização, no caso aqui empolado de Angola, e a europeização de Portugal, no que tais expressões significavam à época; e (b) quem pretendeu, de forma racional, uns, de maneira exclusiva e anárquica, outros, «como possível» e tardiamente, outros ainda, a rearticulação dos espaços do império em novos moldes (desde o federalismo spinolista ao revolucionarismo onde entrava a liderança MFA—Povo ou o Pacto MFA/Partidos).

Tal luta fez detonar todas as outras e accionou, em cadeia, os passos que foram dados à posteriori. Depois do desastre, tentou repôr–se o que havia sido bloqueado: as alianças entre esquerdas e direitas dos espaços sociais do antigo império. O exemplo mais emblemático foi — até explicitado – o relacionamento José Eduardo dos Santos à esquerda e Aníbal Cavaco Silva à direita, que já havia sido retomado no anos 80.

A história do contraponto entre realidade social, pretensões políticas, documentos, apoios internacionais e propaganda, poder—se—ia resumir assim: (a) o desequilíbrio entre os chamados «abrilistas» e os movimentos armados, «acabou» com os que desejavam só à posteriori a natural distrinça entre portugueses—angolanos—e minorias ligadas à região, como ainda, momentâneamente, Jonas Savimbi chegaria a defender em 1975 (até porque, como dirá 44 anos depois M.C. Pacavira, ainda «éramos todos juridicamente portugueses»)? É óbvio que sim!; (b) o 25 de Abril de 1974 não teve de facto como objectivo a independência do território, antes defendeu, à medida do conjunto dos movimentos armados, a «independência total e completa» e a «libertação» (exclusiva) dos representantes do «povo angolano»? Sendo dado objectivo adquirido, tudo parece indicar que, em particular os esquerdismos, incluindo o populismo dos europeistas «acima de tudo», o priorizaram e o desejaram!; (c) os executores do golpe militar, desencadeado no centro do império, optou por dar força, em cada fase, a radicalismos, às distrinças imediatas, ao fraccionamento social, à destruição clara do «amplo movimento» em torno da ideia de independência em Angola, por absoluta conveniência de interesses? Claro que sim! Em suma,  o 25 de Abril é e será um dia da liberdade e de um mais organizado crescimento económico—social e educacional em Portugal, mas não o foi para a maioria dos angolanos. Por mais que possa haver quem se satisfaça com o seu vinte cinco de Abril desde há uns meses, e por mais que haja quem insista em afirmar que «estamos pior mas somos livres e podemos viver a nossa vida».

Exemplos a-hoc, entre muitos, do que se passou, sobre a natureza do 25 de Abril fora do território português europeu?

(a) em 1974 chegou—se a proclamar, em periódico de um dos comités de acção pro—MPLA, feito na Liga Nacional Africana, que «a luta de libertação» causara «seiscentos mil mortos»;

(b) em 1975 — aspecto central — foram difundidos como idênticos um conflito, terminado com o triunfo militar de um Estado da OTAN sobre «os movimentos armados» em Angola; e outro conflito, onde houve uma derrota estrondosa de outro Estado dessa organização no Vietnam com um número de mortes de facto diabólico;

(c) 44 anos depois do 25 de Abril, gente tida como séria, deu crédito a ideias como a possibilidade da República da África do Sul ter estado para lançar um ataque nuclear a Luanda ao tempo da batalha do Cuito Cuanavale, quando o futuro próximo estava decidido desde 1985.
III

A constatação mais simples de perceber e até de difundir, teve a ver com o papel do Poder Imperial, que agiu na defesa imaginada dos seus interesses. Como a História não é opinião, para responder à  pergunta: «apoiaste ou não o 25 de Abril?» aponho só mais esta constatação:

sobre o antigo centro do império, vejam o que escreveram vários autores, não sendo preciso ir mais longe, para verificar os resultados se comparados com 44 anos antes — pois para não pouca gente até dá gosto viver no Portugal em 2018…Ou seja, o «25 de Abril» português, mesmo que haja pessimistas estruturais que vão dizendo que «Portugal é pobre»…não ofereceu dúvidas a quase ninguém…valeu e pena!

A constatação mais difícil de reter tem a ver com os resultados globais do «25 de Abril» na maioria esmagadora dos espaços sob Poder Imperial antigo, e em Angola em particular. É que sejam quais forem as desculpas – várias com algum nexo – se a vida dos ricos de há 50 anos não teve muito a ver com a dos ricos de agora, à abertura liberal antiga, sucedeu ou não, uma factual revolução nacionalista, que se consolidou em quedou–se por um apoio leninista crescendo até hoje? É óbvio que sim!

Até tentando «agarrar» algum humor em alguns ambientes trágico–cómicos, foi possível verificar que ao contrário de qualquer «transição do colonialismo para o socialismo» — que teòricamente  até os nacionalismos poderiam apoiar, foi  possível verificar que em Angola o 25 de Abril (pós-ditadura do assalariamento via boom económico único «em África», exigência de igualdade de direitos, a recusa da independência do território, e prèviamente a um despoletar violento de 27 anos), por fases, projectou–se  (a) no sentido de «se não resolvo os meus problemas como é que vou resolver os dos outros»; e (b) à  moda de um jazz tradicionalista, onde o improviso de cada instrumento virado para si próprio, teve como único símbolo de harmonia, um som diversificado ao ritmo de milhões a escassos dol/dia per capita.

 

25 de Abril de 2018.

Eugénio Monteiro Ferreira.

 

Foto de destaque:  Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian on Visual hunt / CC BY-NC-ND

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