Home Cidadania BREVE COMPARAÇÃO DO 25 DE ABRIL – 1974 E 2018

BREVE COMPARAÇÃO DO 25 DE ABRIL – 1974 E 2018

por Vítor Lima

Comemoração sem reflexão não passa de estéril saudosismo

1974

  1. O regime fascista já ia nos 48 anos e sofria de um cancro terminal
  2. A crise global de 1973 marcava o início do neoliberalismo, aliás bem presente no Chile de Pinochet. A derrota americana no Vietnam e a lufada de ar fresco vinda de Maio/68 gerava um fervilhar de ideias, ainda que em meios estritos
  3. A situação nas colónias arrastava-se e ameaçava ficar descontrolada na Guiné e em Moçambique; a tropa começava (finalmente) a ver que teria de se safar antes de um desastre militar
  4. Pretendia-se continuar a ancorar a viabilidade económica na ligação às colónias, em paralelo com a continuidade da prevalência do têxtil/couro, onde os salários eram (e são) baixos, empurrando o excedente de mão-de-obra para a emigração, de onde viria a bênção das suas remessas
  5. A ideia da acrescentar ao modelo económico, grandes estaleiros navais, refinação de petróleo e petroquímica, ficou inviabilizada com a reabertura do Suez
  6. O empresariato estava dividido. Uns, alicerçavam os seus negócios na relação com as colónias; outros, sabendo da inviabilidade do império colonial pretendiam uma aproximação à então CEE sobretudo, após a entrada da Grã-Bretanha
  7. A banca era essencialmente de capitais portugueses e o seu breve afundamento viria, através das nacionalizações de 1975, a constituir um primeiro momento de colocação do povo a pagar os desmandos dos banqueiros
  8. O perfil de instrução da população era baixíssimo, um dos mais baixos da Europa, com elevado número de analfabetos
  9. A inflação resistiu às mudanças derivadas de 25 de Abril, mantendo-se elevada até meados dos anos 90, alimentando enormes perdas de poder de compra
  10. A emigração para a Europa, basicamente para trabalho duro e pouco qualificado, estancou com a crise global; por outro lado, a descolonização gerou a integração de centenas de milhares de retornados
  11. O regime político incorporava três tendências; os ultras (Kaulza, Casal Ribeiro e Tenreiro), o centro (Marcelo, o padrinho do avatar dos abraços) e a “esquerda” (a ala dita liberal que tinha Sá Carneiro como chefe)
  12. A justiça enchia-se do prestígio colhido através das penas atribuídas aos presos políticos previamente definidas pela Pide
  13. A contestação política era baixa, a despeito de alguma atividade armada, como resultado de um afastamento – por medo ou ignorância – da esmagadora maioria da população. No entanto, o potencial de revolta estava latente e mostrou-se até ao golpe militar de 28 de novembro, a partir do qual decaiu verticalmente

2018

  1.  O actual regime cleptocrático já vai nos 44 anos e está podre, tal como o fascismo em 1974. E, naturalmente, não é imaginável um golpe militar
  2. O neoliberalismo patina, dominado pelos ciclos financeiros e pela decadência ocidental  face ao bloco euro-asiático que se prefigura, liderado pela China. A essa decadência corresponde uma maior agressividade comercial e militar dos EUA, que pretendem ancorar na NATO a sua hegemonia sobre a Europa
  3. Não se perspetiva transformação democrática da UE, com a criação de uma união solidária de povos, e a desaparição de classes políticas evidentes instrumentos do capital financeiro e das multinacionais. A contestação democrática é frágil, submergida pelas derivas patrioteiras de direita e de “esquerda”
  4. Portugal é apenas um corredor periférico atravessado pelos fluxos das multinacionais e um abastecedor do capital financeiro, sem qualquer relevo político ou económico na Europa, na Península Ibérica ou mesmo na CPLP
  5. As intervenções externas  do FMI de 1977, 1983 e, mais recentemente, a da troika, em 2014 – cujos prolongamentos estão em curso – vieram mostrar que a independência é somente hino e bandeira
  6. O único projeto do empresariato indígena baseia-se  na tradicional corrupção para o assalto ao pote, na obtenção de isenções e contratos leoninos junto dos governos e no acesso aos fundos comunitários, cavalgando a precária onda turística e da especulação imobiliária. Um arrastamento, sem qualquer visão estratégica
  7. Na sequência, os principais setores da economia são dominados por capitais estrangeiros, o mesmo acontecendo com a banca, depois de a plebe ser colocada a arcar com as burlas dos banqueiros nativos
  8. O perfil de instrução da população é o mais baixo da Europa, com o analfabetismo a ser substituído por uma iliteracia construída em telemóveis e smartphones
  9. A elevada inflação cedeu o lugar à desvalorização interna; isto é, não havendo desvalorização da moeda há desvalorização real do preço do trabalho
  10. A emigração voltou, absorve os não qualificados de sempre mas também muitos qualificados. Mas não consegue manter disfarçado o grande peso estrutural de desempregados, precários e contratados pelos negreiros do trabalho temporário
  11. Tal como o regime fascista terminal, o actual regime incorpora três tendências; a direita dos interesses, o centrão e os pândegos do lado esquerdo do parlatório de S. Bento. Todos, muito coesos e criativos quando se trata de beber no pote
  12. A justiça atola-se em processos inconclusos. Por… coincidência, aqueles onde há crimes protagonizados por altos capitalistas ou corruptos oriundos da classe política
  13. A contestação política é pequena e com contornos naïves; há um sentimento misto de impotência da contestação e de aceitação passiva da situação. Quando há períodos de maior contestação, logo surgem infiltrações dos partidos ditos de esquerda para jugular ou desviar o sentido dos protestos, como aconteceu em 2010/13

Este e outros textos em:

http://grazia-tanta.blogspot.com/

http://www.slideshare.net/durgarrai/documents

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Vítor Lima

 

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