Home Educação e Formação Realismo na defesa de um território sustentável

Realismo na defesa de um território sustentável

por Antonio Dores

Um jovem investigador da Faculdade de Ciências, referindo-se a experiências realizadas na horta da universidade, explicou como o carbono na terra produz um efeito de retenção de água equivalente ao Alqueva mas sem espelho de água e sem as consequências de inundação de terrenos que qualquer barragem implica.

Carbono na terra é, deu um exemplo, cortar a relva ou arbustos e deixá-los no solo. Informação que não está a ser passada na campanha do governo para fingir que se preocupa (só agora?) com o estado do território. O mato a cortar para evitar tornar-se combustível para o fogo, deve ser enterrado para reter águas.

Evidentemente, nada disto é um problema apenas técnico. O conhecimento de pouco ou nada vale se não houver vontade política de defender o território e a vida, em geral. A brutalidade do regime político que vivemos fica assim bem evidenciada: quando se prefere, por exemplo, organizar o combate aos fogos em vez de organizar o território de forma pensada por conveniente para uma vida saudável.

A divergência política, entre a vida saudável e a produção de exportações, bens transaccionáveis como dizem os economistas mais na moda, e a produção de corrupção, como a associada à especulação urbana e o abandono do território para pressionar demograficamente as cidades, é a divergência entre a ciência e o capital.

O capital funciona através de crises de crescimento, entre as quais os crescimentos das cidades. Como assistimos em Lisboa e Porto, mas também noutras cidades costeiras em menor proporção, o interesse político do capital é fazer dos cascos das cidades Disneyworlds para turistas e remeter as populações para fora das cidades, criando metrópoles cheias de problemas de transportes e sobretudo sem sociabilidades: ninguém tem energia a não ser para trabalhar para patrões e descansar em frente à televisão a ver o que há-de comprar no dia seguinte. Até que as desgraças, o desemprego ou uma doença batam à porta e tudo seja insuficiente para alimentar as despesas de saúde.

De modo semelhante, nos campos, o capital funciona através de grandes empreendimentos, como as barragens, de que se pode apropriar, expulsando toda a gente que vive na zona da albufeira. Para o capital, o território é independente das pessoas: quanto menos pessoas houver menos problemas há para instalar as infraestruturas pelas quais todos vão querer pagar. Isto é, em vez de reter a água através de enterrar carbono no solo, que ficaria à disposição de quem da água precisasse, desde que a água viesse de baixo para cima para circular naturalmente misturada com todos os outros materiais que fazem a vida na Terra, o capital prefere separar a água da terra e das plantas, tornando a terra árida e as plantas secas e boas para alimentar fogos, que por sua vez enviam CO2 para a atmosfera.

A purificação industrial dos materiais para fins de comercialização, inspirada nas ciências tal como as temos desenvolvido, é uma das causas da destruição do meio ambiente e das condições compatíveis com a vida humana. A reclamação por biodiversidade ou é acompanhada pela reclamação da recuperação do respeito pelos circuitos naturais de misturar materiais, que um dia geraram vida na Terra, ou é um desejo platónico. A reversão das alterações climáticas pode ser já impossível. Mas a reversão do capitalismo não é impossível, caso as sociedades passem a dar prioridade aos conhecimentos, que a era da pós-verdade anunciada recentemente por Trump tenta prejudicar o mais que pode.

Em Portugal, para enterrar carbono na terra e fazer muitos Alquevas invisíveis de retenção da água e impedir a previsão de desertificação do território até ao fim do século, todos somos poucos. Todos e cada um, reformados e trabalhadores, mulheres e jovens, portugueses e estrangeiros, deveríamos ter guia de marcha para um qualquer bocado de terreno fora das metrópoles, com a missão principal de enterrar carbono no solo. Através das novas tecnologias, todos poderiam trabalhar em rede, ao mesmo tempo que se poupava em transportes e se tinha tempo para beneficiar de uma vida social activa junto dos vizinhos. O problema, evidentemente, é que depois não se podia vender a água que estava no solo, por não ser comercializável, por ser local. Problema para o capital, afinal o grande fautor da situação dramática em que a espécie humana se encontra actualmente.

Vamos a isso?

António Dores

antoniodores@estrategizando.pt

1 comentário
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1 comentário

mário de carvalho 14 Março, 2018 - 12:00

Boa António Dores e grande abraço do Mário de Carvalho e já agora também da Florinda,recordando os velhos tempos com o Alte Pinho agora em Cabo Verde.Até
breve.

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