Home Nacional A Madeira, Rui Tavares e as Independências de 1975…

A Madeira, Rui Tavares e as Independências de 1975…

por Joffre Justino

Rui Tavares recorda no Publico de hoje uma declaração de Khadafi de 27 fevereiro de 1978 (mais um cinquentenário…) a exigir na ONU e OUA  a independência das “africanas” Ilhas da Madeira e Porto Santo, que resolve referindo uma nota de imprensa distribuída na ONU pela delegação portuguesa onde se repudiavam interferências externas nos seus assuntos internos no caso do sr Khadafi dizendo que essa nota teria fechado o tema da Independência das referidas Ilhas…”E pronto. Tanto quanto sei, a história ficou por aí”, diz ele em tom de fecho de causa.

Na verdade não ficou e nem sequer começou “por aí” isto é pelo sr Khadafi… e é bom pensar no assunto nestes dias de “novos” independentismos ( Catalunha, Galiza, país Basco, Córsega, Flandres, …e por aí fora!), que tanto enervam o sr Juncker(!)  e equivalentes ainda hoje,

E começo por recordar, está espalhado na net fora, uma citação,

1978 — A Presidência, a Assembleia e o Governo da República Portuguesa repudiam o pedido do dirigente líbio Muammar al-Gaddafi para a independência da ilha da Madeira, considerada pela Organização de Unidade Africana com pertencendo a África”  http://artemisiodacosta.blogspot.pt/2018/02/fatos-historicos-de-27-de-fevereiro.html,

para recordar que o tema, como se vê por esta nota era preocupação portuguesa significativa, pois numa governação conflitual entre o general Eanes e Mário Soares ( o governo PS / CDS nasceu em lógica anti governo presidencialista o sonho à época  de Eanes e Mário Soares viria a pagar bem caro este conflito… na verdade entre a linha do “secretariado”/ Zenha e a linha soarista, conflito onde o soarismo depois de 7 anos de resistência se viu derrotado pelo já guterrismo…o que veio alterar e bastante o pensamento e a composição do PS), houve unidade que baste para um protesto conjunto contra o discurso de Khadafi…

Mas nada como dar um pouco de História a este “caso político”, que nasceu claro com o já esquecido ano do “Verão quente”, 1975, pejado de conflitos internos (não inernos nacionais mas internos imperiais…) com fortíssimas movimentações sociais e políticas em Portugal, entre militares, divididos entre o grupo que depois ficou conhecido como o “Grupo dos 9”, ( na verdade já uma aliança entre um grupo ultraconservador, “spinolistas”, um grupo moderado, de influencia social democrata e socialista, um grupo de esquerda independente, o melo antunista), o grupo comunista e o grupo otelista, refletindo as cisões portuguesas da época,  e entre civis uns mais  esquerdistas e outros mais direitistas que se alinhavame desalinhavam país fora, e portanto também no Arquipélago da Madeira.

Neste a recém surgida Frente de Libertação do Arquipélago da Madeira, FLAMA,  começa a exigir a independência com uma campanha violenta contra as orientações do MFA e da resultante  governação de então  que culminou  na  a morte de um militar português com em ataque perpetrado com bombas.

 https://almanaquedosconflitos-files-wordpress-com.cdn.ampproject.org/i/s/almanaquedosconflitos.files.wordpress.com/2017/02/alberto-joc3a3o-jardim-comandante-e-um-dos-fundadores-da-frente-de-libertac3a7c3a3o-do-arquipc3a9lago-da-madeira-flama.jpg

Neste processo especialmente violento a  FLAMA, chega a declarar a independência nesse  1975,  e como todas as governações independentistas surge com  hino e bandeira, cunha moeda  o Zarco, movimenta-se  com amplo apoio da população local, bem orquestrada pelo  clero local liderado por  Dom Francisco Santana tudo num hipotético combate anti comunista  que segundo a igreja se estava a instalar em todo o Portugal (local e imperial), e terá sido este Dom Francisco que indigita  Alberto João Jardim, para  redator-chefe da publicação nacionalista madeirense, o Jornal da Madeira e para a liderança visível  da clandestina FLAMA, sendo que João Godim em roinesxxi cjhe a afirmar que “ alguns quadros políticos e militares madeirenses terão recebido formação no estrangeiro.”, uns dizem que na Libia outros apontando mais para o pró americano Marrocos !

De facto e até  Agosto de 1975 as congeminações americanas na  Embaixada dos Estados Unidos em Lisboa, apontavam para que Portugal e a Madeira assumiam o risco de serem tomadas por um regime comunistas e que o arquipélago da Madeira  se tornariam  independente como os restantes espaços de expressão portuguesa .

Foram Mário Soares e Frank Carlucci que iniciaram a mudança desta perspetiva e a visita ao Funchal de William P. Kelly, da embaixada dos EUA  que fizeram alterar  a perspetiva da diplomacia norte-americana sobre o assunto, com os independentistas a serem apresentados como “nunca foram mais do que umas poucas dúzias de pessoas”, ou que “não tinham o apoio das classes trabalhadoras urbanas e rurais que constituíam 80 por cento da população” expressões estarão  entre uma imensidão  de mensagens da diplomacia norte-americana, muitas com a categoria ‘confidencial’ segundo mais uma vez a Wikileaks, muitas delas já de 1974 que  referem a existência de movimentações  separatista na Madeira já a  18 de Junho de 1974,  enviada para o Departamento de Estado, por  Stuart Nash Scott, então embaixador, que aponta para  “dois movimentos independentistas” – o “Movimento de Autonomia das Ilhas Atlânticas (MAIA)”, liderado por José Maria da Silva, e o “Socialistas pela Independência da Madeira (SIM)” e tudo por, segundo este embaixador, “…consequência do crescente sentimento de negligência e despreocupação por parte da metrópole face aos problemas locais”.

Terão havido então contatos entre “um médico da Madeira, dono de vários hotéis” na ilha e ligado aos movimentos separatistas e representantes da Embaixada dos EUA em Lisboa procurando o seu apoio para a causa independentista, pois “… a Madeira, com o seu vinho, turismo e agricultura, podia ser facilmente auto-suficiente, sobretudo porque não teria que enviar os seus impostos para Lisboa (ele estima que apenas um em cada dez escudos enviados para a metrópole retorna à economia das ilhas)”, (impressões transmitidas por  Scott em um telegrama, onde se recorda a importância estratégica do aeroporto do Porto Santo para a NATO alternativa até  à Base das Lajes nos Açores.

Mas a FLAMA propriamente dita só surge nesta correspondência  a 20 de Agosto de 1975 em contato dirigido já  ao novo embaixador, Frank Carlucci, onde se aponta uma visão catastrófica : “A economia madeirense está a derrapar, o desemprego a crescer, o crédito é apertado, as disputas laborais endémicas e os negócios que ainda não fecharam estão à beira da bancarrota (…). Como resultado, madeirenses de todas as classes, mas especialmente ‘burgueses’, estão a chegar à conclusão que a independência em relação ao continente é necessária. A principal beneficiária destes desenvolvimentos é a FLAMA, cujo objectivo é a independência face a Portugal.”…E, “Nem a concessão da autonomia administrativa nem a criação de um governo local são alternativas aceitáveis”.

Carlucci sintetiza assim o que sabe, recordando que  FLAMA tinha “armas e homens (veteranos da guerra em África) preparados para as utilizarem” ( o que torna a versão mais credível que a afirmação de militares no exterior que eram os responsáveis  de um atentado à bomba contra as instalações da Emissora Nacional no Funchal, que teriam um leader “O principal líder da Frente [FLAMA] é um madeirense que vive na Florida [o nome não é revelado]. Um governo clandestino foi formado no exílio. Também pode existir uma outra organização separatista – o Exército de Libertação do Arquipélago da Madeira”, dando realce que acima mostra como Mário Soares foi essencial para travas hipotéticas e até sonhadas por alguns invasões americanas em Portugal.

Perante este relatório Kissinger  ordena  que  Embaixada americana oriente um diplomata  William P. Kelly para realizar uma volta  por todo o país, para que haja mais informação  entre  14 e 26 de Setembro. E este  relatório que o diplomata terá permitido sobre a questão separatista haver uma visão mais realista da situação que mudará  a forma como os EUA passam a ver o quadro político das ilhas e do país .

É então que Carlucci passa a entender  a FLAMA como uma organização com reduzido apoio popular, cujos “membros provavelmente nunca foram mais do que umas poucas dúzias de pessoas, sobretudo empresários e profissionais conservadores e respectivas famílias” sendo  um movimento “sem grande influência na actividade política local”, com uma  “… campanha bombista (…) representa uma tentativa desesperada para chamar a atenção pública”…

Aliás a  “A saída de [Vasco] Gonçalves e a formação do VI Governo Provisório afastaram com eficácia grande parte do incentivo político do movimento independentista madeirense. A maioria dos madeirenses estão convictos que a Autonomia em relação a Portugal vai permitir-lhes resolver os seus problemas económicos”, segundo Carlucci.

Assim nem ameaças de envolvimento soviético com base na  indústria pesqueira soviética preocuparam os EUA, até porque desmentidos pelo embaixador soviético em Lisboa nem as cégadas de uma tal União do Povo da Madeira que invade  o iate ‘Apollo’ e expulsão do navio todos os  tripulantes do Funchal levanta grandes dramas entre os EUA e Portugal por consequência da Madeira.

Curiosamente Rui Nepomuceno, militante do PCP ao 25 de Abril, recorda em um seu trabalho que se “Logo nos primeiros dias que sucederam a Revolução de 25 de Abril de 1974, o António Feliciano Canavial, o João Rogério Prioste e o Rui Nepomuceno, ajudaram a organizar no jornal «Comércio do Funchal», a grandiosa manifestação do 1º de Maio; e pouco depois colaboraram na constituição do movimento da esquerda «União do Povo da Madeira – UPM», tendo sido eleitos para a sua direcção.” A verdade é que “esse movimento degenerou numa força esquerdista, radicalista, e de expressão maoista”, pelo que  o Rui Nepomuceno foi o principal fundador dum outro movimento da esquerda unitária, denominado «Frente Popular Democrática da Madeira – FPDM», que aprovou uns Estatutos inspirados nos do MDP/CDE. “

Recorda também este velho militante comunista que “Para dirigir a luta pela Autonomia Politica, contra o terrorismo separatista da FLAMA, ficou responsável o dirigente Rui Nepomuceno, que com grande perigo de vida e após muitas peripécias, conseguiu contribuir, decisivamente, para que fosse apreendida a gelamonite, os explosivos e as armas dessa violenta organização, que estavam escondidas no Santo da Serra.”

Enfim e em acréscimo ao que relata Rui Tavares deve-se dizer que o caso do arquipélago da Madeira não foi uma brincadeira resolvida com um comunicado da representação portuguesa na ONU e que os ímpetos independentistas foram sempre um  instrumento do truculento e bombástico ( já não bombista) Alberto João Jardim que em 2011 ainda usou a invenção de uma FAMA organização descendente da FLAMA para obrigar o governo de Passos Coelho e Portas a não travar o delapidar do orçamento de estado português em mais e mais obra que tornou o sorvedouro madeirense em algo quase insustentável até para os que algum dia queiram retomar o sonho independentista !

Joffre Justino

jjustino@estrategizando.pt


Foto de destaque: madeira-portugal.com/pt/

 

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